CAPÍTULO 23
Estacionei o carro e enfiei minha chave na porta. Havia uma luz na sala da
frente. É engraçado, pensei, porque todos, a essa hora, em geral estão dormindo
profundamente.
Por favor, meu Deus, não deixe que seja Helen. Por favor, não deixe que ela
tenha percebido onde eu estava e em que andava metida.
Estava certa de que minhas atividades recentes estavam escritas na minha
cara.
Talvez fosse Anna quem estivesse acordada.
Sacrificando um bode na cozinha ou algo parecido.
Você sabe, dançando pelo jardim embrulhada em lençóis encharcados de
sangue, cantando para a lua, arrancando a dentadas cabeças de morcegos vivos,
esse tipo de coisa.
Entrei no saguão. A sala da frente abriu-se e mamãe apareceu, com papai em
pé atrás dela. Ambos estavam com seus trajes de dormir. Mamãe usava seu robe
cor-de-rosa acolchoado e tinha alguns rolinhos enfiados na parte da frente do
cabelo.
Ambos estavam pálidos e pareciam chocados, como se algo terrível tivesse
acontecido.
O que, de fato, era verdade, eu acho, se você quiser encarar dessa maneira
meu pequeno episódio com Adam.
Claire! - disse mamãe. - Graças a Deus você está em casa!
O quê? - perguntei, assustada. - Que aconteceu?
Claire, entre e sente-se - disse papai, tomando a frente. Meu estômago estava
embrulhado.
Alguma coisa terrível acontecera mesmo.
- É Kate? - implorei a mamãe, agarrando seu braço. - Alguma coisa aconteceu
com ela?
Mil cenas terríveis passavam-me pela cabeça.
Ela morrera em seu berço.
Fora seqüestrada.
Fora sufocada.
Helen a deixara cair.
Anna a enfeitiçara.
Tudo era minha culpa.
Eu a deixara.
Eu a deixara enquanto saía para transar com Adam.
Como pudera?
Não, não - disse mamãe, tranqüilizadora. - Não é Kate.
Bem, quem foi, então? - perguntei, com os horríveis roteiros recomeçando.
Alguma coisa acontecera com uma de minhas irmãs?
Será que Margaret fora morta por um gângster, em Chicago?
Ou Rachel desaparecera em Praga?
Anna conseguira um emprego?
Helen desculpara-se por alguma coisa?
- É James - explodiu mamãe.
-James -eu disse, tonta, sentando me vagarosamente no sofá. - Ah, meu Deus,
James.
James.
Sequer pensara nele, quando estava convencida de que algo terrível
acontecera com alguém que eu amava.
Enquanto eu estava na cama com Adam, algo acontecera com meu marido.
Que tipo de mulher era eu?
- O que houve com James? - perguntei-lhes.
Ambos se sentaram ali, olhando-me, com rostos preocupados e compassivos.
- Ah, digam logo! - gritei. - Por favor, digam! Estava preparada para o pior.
James tivera um acidente em alguma parte, enquanto eu me retorcia no auge
da paixão com outro homem.
Claro, percebi que minha vida estava acabada.
Não tinha outra opção a não ser adotar o celibato. Talvez entrasse para um
convento. Era o mínimo que eu poderia fazer.
Minha punição por dormir com alguém que eu não amava. Não queria ver
Adam nunca, nunca mais, até o fim da minha vida.
Era tudo culpa dele.
Se eu não tivesse ido para a cama com ele, James estaria bem.
Ele está aqui - disse mamãe, branda.
Aqui?! - guinchei. - O que quer dizer com aqui?
Olhei em torno da sala, frenética, como se esperasse que ele aparecesse de
repente por trás de uma cortina ou debaixo do sofá, com um sorriso ameno, usando
um smoking, fumando um charuto, e dissesse algo como "Minha esposa, eu
presumo".
- Quer dizer que ele está aqui em casa? - perguntei, histérica. Minha cabeça
girava como um pião.
Por que agora?, imaginei.
Por que ele escolhera agora para reaparecer?
E o que ele queria?
Não - disse mamãe, com um tom de voz um pouco aborrecido. - Você acha
que eu o deixaria ficar aqui, depois de tudo que aconteceu? Não, ele telefonou. Está
em Dublin, sim, mas hospedado num hotel.
Ah - eu disse. Estava a ponto de desmaiar. - Ele quer me ver?
Claro que quer - disse papai. - Mas você não é obrigada, se não quiser.
-Jack - disse-lhe mamãe -, claro que ela tem de vê-lo. De que outra forma
poderiam resolver alguma coisa? Ela tem de pensar na filha, você sabe.
- Mary, só estou dizendo que, se ela não conseguir encará-lo, não vamos
pressioná-la. Nós a ajudaremos em tudo que pudermos.
-Jack! - disse mamãe, duramente. - Ela é uma mulher adulta e...
Mas, Mary... - interrompeu papai.
Parem com isso! - gritei.
Sabia que era melhor cortar o mal pela raiz. Aquilo podia durar horas.
Ambos me olharam, surpresos. Quase como se tivessem esquecido que eu
estava ali.
- Quero vê-lo - eu disse, um pouco mais tranqüila. - Você tem razão, mamãe.
Sou uma mulher adulta. Sou a única pessoa que pode resolver tudo isso. E tenho
mesmo de pensar em Kate. Ela é a pessoa mais importante, nessa situação. E
obrigada, papai. - Fiz para ele um aceno afirmativo com a cabeça. - É bom saber
que posso depender de você para juntar uma multidão capaz de linchar James se eu
precisar.
Uma multidão capaz de linchar James!? - perguntou ele atabalhoadamente. -
Bem, quanto a isso, não sei. Mas, se achar que pode precisar, posso pedir ajuda a
alguns sujeitos do clube de golfe. E verei o que dizem.
Ah, papai - disse eu, desanimada. - Estou brincando.
Ele disse que telefonará de manhã - disse mamãe.
A que horas? - perguntei.
Dez horas - falou mamãe.
Certo - eu disse.
Se James dissera que telefonaria às dez horas da manhã, James telefonaria às
dez horas da manhã.
Não às dez horas e dezoito segundos, você me entende, nem meio minuto
antes das dez.
Mas precisamente às dez.
Ele podia ter-me deixado por outra mulher, mas era o homem mais confiável do
mundo, sob alguns aspectos.
E que horas são agora? - perguntei.
Três horas e vinte minutos - disse papai.
Acho melhor ir para a cama, então - disse eu. - Um dia atarefado amanhã, e
tudo o mais.
Embora eu soubesse que não dormiria nem um minuto.
- Todos iremos para a cama - disse mamãe. - A propósito, onde você estava
até essa hora?
- Transando com Adam - disse-lhes eu. Papai soltou uma risada nervosa,
estentórea. Mamãe fez um ar de choque.
Ora essa, pensei. Você foi a primeira a pôr a idéia em minha cabeça.
- Não, agora estou falando sério - disse mamãe. - Em que você estava metida?
- Estou falando sério. - Sorri. - Boa-noite.
Mamãe parecia horrorizada. Não sabia se acreditava em mim ou não, mas
obviamente suspeitava do pior. Ficou ali em pé, abrindo e fechando a boca como um
peixinho dourado, enquanto eu fechava a porta do meu quarto.
Não creio que ela,sequer notasse papai puxando-a pelo robe e cochichando
para ela:
- Qual deles é Adam?

CAPÍTULO 22
Estacionei o carro diante de sua casa e, sentindo uma estonteante mistura de
excitação e vergonha sórdida, caminhei até a porta da frente. Depois, lembrei-me de
que deixara a garrafa de vinho no carro e rapidamente corri de volta para pegá-la.
Não iria a parte alguma sem ela.
Coragem de bêbado. Ou de holandês, como dizem os ingleses.
Era apenas um vinho chileno, mas...
Adam abriu a porta quase imediatamente.
Se não soubesse que não devia ter sido assim, juraria que ele estava
escondido no vestíbulo, espreitando por trás da cortina, à espera de minha chegada.
Ora, na verdade talvez estivesse, mesmo.
Ele fazia um bom serviço, aparentando estar tão excitado e nervoso com tudo
aquilo quanto eu.
Parecia um pouco ansioso.
Pés frios?
Novo ânimo.
Nervosismo antes dos jogos amorosos?
Mas, depois, ele recobrou as forças.
Olá - sorriu. - Você está linda.
Olá - eu disse. Sorri para ele, apesar do meu nervosismo. Que maravilha,
pensei, com forte emoção.
Eu sentia todo o perigo de minha sofisticada produção. Num encontro com um
belo homem.
Será que algum dia já me sentira tão atraída por um homem quanto me sentia
por Adam?, questionei.
Provavelmente sim, pensei, suspirando.
Apenas sendo realista por um instante.
Mas, naquele momento preciso, parecia que eu jamais me sentira atraída por
outra pessoa.
Quando tempo demorará para irmos juntos para a cama?, imaginei.
Por quanto tempo posso resistir, se ele não tomar a iniciativa?
E se não tomar, mesmo?, pensei, com horror.
Ou se for um total desastre?
Talvez ele me ache horrenda, com meu corpo pós-parto.
Talvez seja eu quem vá achá-lo horrendo, porque ele não é igual a James.
Ah, meu Deus!
Eu devia ter ficado em casa. Ver Coronation Street não provoca todas essas
terríveis suposições e dilemas.
Antes que eu pudesse arremessar-me em direção à porta, gaguejando que
tudo fora um erro terrível, ele pôs seu braço (e que braço!) em torno dos meus
ombros e me guiou em direção à cozinha.
Tire seu casaco - disse. - E tome uma bebida.
Mas... Ah, está bem. Quero meio litro de vinho - disse eu, enquanto me sentava
à mesa da cozinha.
Ele riu.
- Nervosa, querida? - perguntou ele, carinhoso, enquanto me servia uma taça.
Meu Deus, pensei, alarmada, não me pergunte coisas nesse tom suave.
Eu já estava suficientemente assustada. Se ele começasse a se comportar
como algum tipo de sedutor irresistível, eu cairia fora.
Só faltava agora ele trocar seus jeans e suéter por um robe de lã de seda
escocesa e desfilar de um lado para o outro com uma piteira de ônix.
Não estou nervosa! - explodi. - Estou aterrorizada, droga.
Por quê? - ele perguntou, com fingida surpresa. - Minha culinária não é assim
tão ruim.
Ah, então é desse jeito que você quer fazer o jogo, pensei. Falsa casualidade,
não é? Então está ótimo.
Dei-lhe um sorriso desenvolto.
E atirei todo o conteúdo da minha taça de vinho pela minha garganta abaixo,
antes de perceber o que fizera.
- Relaxe - ele disse, ansioso, aproximando-se para se sentar ao meu lado à
mesa e segurar minha mão. - Não vou morder.
Ah, não, pensei, então definitivamente vou para casa.
Vamos apenas comer alguma coisa e conversar um pouquinho - disse ele,
gentilmente. - Não há nada com que se preocupar.
Está bem, então - eu disse, fazendo um valente esforço para relaxar. - A
propósito, o que vamos comer?
Queijo stilton feito em casa com sopa de uva moscatel, bife à bourguignonne
com batatas dauphinois e minha própria receita de zabaglione, como sobremesa.
É mesmo?
Não imaginara Adam como um cozinheiro requintado. Mais como um tipo de
sujeito acostumado a coisas simples. E mais quantidade do que qualidade.
- Não - ele sorriu. - É brincadeira. Você terá espaguete à bolonhesa e tem sorte
de eu saber fazer pelo menos isso.
- Entendo - ri. Ele era tão simpático.
Não havia nada de tolo nele, absolutamente.
E, se você for muito boa... - a essa altura, ele fez uma pausa e me lançou um
olhar significativo. - Quero dizer, muito, então pode comer um pouco de mousse de
chocolate.
Ah - disse eu, toda excitada, com a combinação do olhar significativo e da
novidade da mousse de chocolate. - Isso é ótimo. Adoro mousse de chocolate.
Eu sei - ele disse. - Por que acha que a comprei? E - ele continuou, em tom
brincalhão - se você for muito, muito boa, pode devorar meu estômago.
Explodi de rir.
Ele era mesmo um anjo.
Não pude eliminar um frêmito de luxúria ao imaginar seu estômago musculoso
e achatado.
Embora, é provável, esse fosse exatamente o tipo de reação que ele esperava.
Às pressas, servi-me de outra taça de vinho mas, desta vez, forcei-me a bebêlo
em pequenos goles.
Ele serviu o jantar, e era óbvio que aquilo não era o tipo de coisa que
costumava fazer. Parecia inteiramente deslocado ali em pé, junto ao fogão.
Correndo da pia para o fogão e de volta para a pia, enquanto a massa fervia a ponto
de a água transbordar e a salada visivelmente murchar.
Embora aquilo me desse uma bela visão do seu bumbum.
Cozinhar, ao contrário da maioria das outras coisas, não estava entre seus
dons.
O que tornava tudo ainda mais tocante, pelo fato de ele ter chegado a se
incomodar tanto por minha causa.
Ele parecia tão inseguro, ao levar os pratos para a mesa e colocar o meu,
cheio de reverência, à minha frente.
- Beba um pouco mais de vinho - disse, servindo me outra taça.
Isso representava uma mudança na sua maneira de agir, menos de dez
minutos antes, parecendo a filial local dos Alcoólicos Anônimos.
Está tentando me embriagar para se aproveitar de mim? - perguntei-lhe,
tentando dar à minha voz um tom aborrecido.
Estou tentando embriagar você para que não sinta o gosto da comida, se
estiver horrível - ele riu.
- Tenho certeza de que está maravilhosa - garanti-lhe. Lamento informar de
que não pude comer mais do que algumas garfadas. Não porque estivesse horrível
ou algo parecido.
Embora pudesse estar.
Eu realmente não seria capaz de contar a vocês.
É que eu me sentia tão nervosa, e a atmosfera estava tão carregada de tensão
e expectativa, que eu tinha vontade de dizer a ele: "Ouça, Adam, querido, ambos
sabemos por que estou aqui, então vamos passar logo à caça."
Ele também não pôde comer nada.
Mas isso pode ter sido por causa da comida e não dos seus nervos.
Ficamos sentados um diante do outro, à mesa da cozinha de Adam, fazendo o
espaguete deslizar pelos nossos pratos, a salada totalmente intocada em sua tigela,
com um aspecto triste e abandonado.
A conversa não tinha tema fixo.
De vez em quando, eu erguia os olhos para ele e surpreendia-o observandome.
E a expressão do seu rosto me fazia sentir excitada e envergonhada.
Acabava com todas as chances de eu comer o que quer que fosse.
Temia que, se comesse alguma coisa, meu estômago ficasse cheio e
proeminente.
E que tipo de estômago era esse para se mostrar na primeira noite com um
homem?
Temia também que, se jogasse em direção à boca um garfo cheio de comida, o
espaguete batesse em meu rosto, como um chicote, sujando me de molho vermelho.
A maneira como reajo à comida, quando estou perto de um homem, é um
barômetro seguro de como me sinto em relação a ele.
Se não puder comer, significa que estou louca por ele.
Quando consigo tomar suco de laranja e algumas torradas de manhã, é o Fim
do Começo.
E, na ocasião em que termino de comer a comida deixada no prato dele, já
acabou tudo.
Isto, ou então me caso com ele.
Bem, o modelo era esse, até aquele momento.
- Você só vai comer isso? - ele perguntou, finalmente, olhan do para o monte
de comida em meu prato.
Parecia desapontado, e me senti terrível.
-Adam - disse eu, constrangida -, desculpe. Está tudo ótimo, mas não consigo
comer. Não sei o motivo. Realmente sinto muito - olhei-o com ar de súplica.
Não se preocupe - disse ele, levando os pratos.
Você nunca mais cozinhará outra vez para mim? - perguntei, triste.
Claro que sim - ele disse. - E, pelo amor de Deus, não fique com um ar tão
infeliz.
É apenas porque estou nervosa - disse-lhe eu. - Não é por que a comida
estivesse horrível.
Nervosa? - Ele veio para meu lado da mesa e se sentou junto de mim. - Você
não tem motivo nenhum para ficar nervosa.
É mesmo? - perguntei, olhando-o bem nos olhos.
Não tive a menor vergonha.
Seria a primeira a admitir isso.
Mas, que diabo, eu já desperdiçara bastante tempo aquela noite.
- Não - ele murmurou. - Você não tem motivo nenhum para ficar nervosa.
E, suave, muito suavemente, pôs seu braço em torno do meu ombro e sua mão
em minha nuca.
Fechei os olhos.
Não posso acreditar que estou fazendo isso, pensei, enlouquecida, mas não
vou parar.
Aspirei o cheiro de sua pele, enquanto seu rosto se aproximava.
Esperei seu beijo.
E, quando veio, foi lindo. Doce, gentil e firme.
O tipo de beijo no qual a pessoa que beija é muito boa nisso, mas você não
sente que ele aprendeu a beijar tão bem praticando com milhares de outras.
Ele parou de me beijar e olhei-o, alarmada.
Qual era o significado disso?
- Foi bom? - ele perguntou, tranqüilo.
- Bom? - arquejei. - Foi melhor do que bom. Ele sorriu, levemente.
Não, quero dizer, está certo beijar você? Sabe que não quero ultrapassar
nenhuma fronteira.
Está certo - disse-lhe eu.
Sei que você foi magoada - ele disse.
Mas você é meu amigo - disse eu. - Está certo.
Quero ser mais do que seu amigo - ele continuou.
Está certo, também - respondi-lhe.
É verdade? - perguntou ele, olhando-me em busca de confirmação.
Honestamente - disse-lhe eu.
Ah, meu Deus, eu não deixara para mim mesma muito espaço para manobra,
naquele momento. Não que eu quisesse isso. Começara, então tinha de terminar.
Ele me beijou novamente e foi tão bom quanto da primeira vez. Ele se afastou
de mim e eu o puxei de volta.
Ele me olhou, quase espantado, e disse:
Meu Deus, você é tão bonita.
Não, não sou - disse eu, sentindo-me um pouco constrangida.
Ah, você é, sim.
Não - eu disse. - Helen é bonita.
Ouça - disse ele, sorrindo. - Com o risco de adotar uma maneira de ser
californiana, digo que você é uma pessoa bonita.
Sou? -É. Pequena pausa.
E também é uma gatinha.
Obrigada - ri. - Que pena que você seja tão horroroso. Então, ele riu.
Não havia absolutamente nenhuma vaidade naquele homem.
Talvez, quando se é tão bonito assim, não haja necessidade disso.
A admiração dos outros lhe serve de espelho.
Ele tornou a me beijar.
E, sinceramente, foi maravilhoso.
Eu me sentia tão protegida quando estava com ele, em seus braços. Mas
também sentia que cuidava dele. Que ele precisava de mim tanto quanto eu
precisava dele.
- Você se dá conta de que nos conhecemos há menos de duas semanas? -
perguntou-me ele.
Ah, não, pensei, será que isso significa que ele ainda não irá para a cama
comigo? Será que vai impor algum tipo de limite de tempo? Que não podemos fazer
sexo até nos conhecermos em três meses ou coisa parecida?
Sim - disse eu, cautelosamente. - Na verdade, há dez dias.
Mas parece muito mais tempo - ele disse. - Muitíssimo mais tempo.
Graças a Deus!
Estou tão contente de ter conhecido você - ele continuou. - Você é tão especial.
Não sou - protestei. - Sou muito comum.
Você é especial para mim.
Mas, por quê?
Ah, não sei - ele disse. Recostou-se em sua cadeira e me olhou. - Porque você
é interessante e tem opiniões sobre as coisas, e também é muito engraçada. Mas,
principalmente, por ser tão boa pessoa... Em suma, você é uma pessoa decente.
- Nem sempre - disse-lhe eu. - Quero dizer, você devia ter-me visto há algumas
semanas. Parecia uma louca varrida.
Ele riu.
E eu fiquei aborrecida comigo mesma.
Ali estava eu, com um homem lindo dizendo me coisas lindas sobre mim, e eu
tentava convencê-lo de que nenhuma delas era verdadeira.
Em geral, era o contrário. Eu diria a eles coisas maravilhosas sobre mim, e eles
passariam o resto do tempo tentando convencer-me de que nada daquilo era
verdade.
Ele se inclinou em minha direção e me beijou de novo.
Era simplesmente a felicidade.
Eu queria entregar-me a ela.
Estar com ele sem nenhuma culpa, preocupação ou constrangimento.
Estar com ele parecia uma coisa tão certa.
Você está sob o impacto de uma rejeição, adverti-me severamente.
E daí?, respondi a mim mesma. Não é como se eu fosse casar com o sujeito.
Não posso divertir-me um pouco?
Bem, sim, acho que posso sim.
Mas, ao mesmo tempo, não posso sair por aí dormindo com qualquer homem
que me pedir para fazer isso.
Bem, novamente, não é o caso, não se trata de qualquer homem.
Este é um homem simpático e doce, que gosta de mim. Bem, pelo menos ele
parece gostar de mim, e eu gosto dele.
Com um pequeno choque, percebi que, na verdade, gostava dele.
Ou seja, não estou dizendo que o amava, nem nada parecido, porque isso não
seria verdadeiro. Mas havia algo nele que me tocava.
E eu não queria magoá-lo.
Mas será que magoaria?
Será que dormir com ele implicava um compromisso?
Ele sabia, na verdade, que eu era casada.
Tinha plena consciência dos meus sentimentos por James.
E talvez não quisesse um compromisso.
Talvez quisesse estar comigo porque sabia que eu, na verdade, tinha outra
pessoa em minha vida, e isso o deixaria livre de uma prisão. Ah, meu Deus! Quantos
traumas! Momento de decisões. Levantei-me e segurei-o pela mão. Ele me olhou,
inquisitivamente.
Você está bem? - perguntou. - Quer alguma coisa?
Quero - murmurei.
O quê?
Só deitada.
Mas disse isso num sussurro. Não queria que ele pensasse que eu era
extremamente vulgar.
Porque realmente não era.
Não o tempo todo, pelo menos.
Comecei a me movimentar em direção à porta da cozinha, ainda segurando a
mão dele.
Sentia-me tão liberada e libertina.
Para onde vamos? - perguntou ele, fingindo inocência.
Sair pela estrada, para tomar uma bebida - disse-lhe eu. Olhei-o e o
desapontamento estava estampado em seu rosto.
- Estou brincando, seu bobo. - Sorri para ele. - Vamos para o andar de cima.
Então, subimos a escada, eu seguindo à frente, ainda segurando a mão dele.
A cada passo que eu dava, convencia-me cada vez mais de que era a coisa
certa a fazer.
Chegamos ao topo da escada e ele me puxou para seus braços e me beijou.
Foi maravilhoso. Ele era tão grande e tão forte. Eu sentia a pele macia de suas
costas, através do seu suéter. Ele me fez dar a volta e me encaminhou para uma
porta.
Meu quarto - disse. - Acho que você não me trouxe aqui para cima para ver a
casa toda.
Isso pode esperar até mais tarde - eu disse, mal conseguindo falar, por causa
da excitação e do nervosismo.
O quarto dele era simpático.
Estava tão arrumado que eu soube, instantaneamente - não que em algum
momento tivesse qualquer dúvida -, que ele meticulosamente planejara levar-me
para a cama.
Os quartos dos homens só são arrumados da primeira vez em que dormimos
com eles. Depois dessa primeira vez, o lugar vira imediatamente um inferno.
É como se, no instante em que a relação é consumada, o homem gritasse:
"Muito bem, rapazes, podem aparecer, agora!"
E, de debaixo da cama, aparecem exércitos de cuecas sujas, meias fedendo a
suor, xícaras, pratos, revistas sobre automóveis, suéteres horrorosos, uniformes de
futebol manchados, canecas de cerveja, calendários sexistas, livros de Stephen
King, toalhas molhadas, potes de Wintergreen, todos acotovelando-se, clamando e
se queixando em voz alta sobre a quantidade de tempo que tiveram de passar no
esconderijo, enquanto se espicham e espanejam a poeira, para em seguida
disporem-se artisticamente em cima do tapete do quarto, encantados de voltar para
o seu lugar. "Por que demorou tanto tempo?", pode uma meia gritar alegremente
para o sedutor bem-sucedido. "Ela ofereceu alguma resistência, não foi?"
"Pensamos que ficaríamos enfiados aí dentro para sempre", poderia brincar,
bem-humorado, um sujo par de calças de críquete. "Você deve estar perdendo o
jeitinho."
Adam facilitou minha passagem por cima do chão antigo até a cama, beijandome
para eu não ter de caminhar até lá e me sentar nela com um aspecto de
expectativa e constrangimento.
Não, ele mais ou menos me beijou e me guiou através do quarto e, bem, vocês
sabem, simplesmente chegamos à cama e, lá estando, achamos que poderia ser
uma boa idéia nos deitarmos, pois de outra forma só nos restaria contorná-la.
Depois de algum tempo, ele começou a desabotoar meu vestido, e eu coloquei
minhas mãos sob seu suéter, em cima da pele nua do seu estômago e do seu peito.
Muito gentil e lentamente, ele desabotoou meu vestido até embaixo e começou
a tirar minhas roupas.
Era bom, mas estranho. Estranho, mas bom.
Fazia muito, muito tempo, desde que eu fora pela primeira vez para a cama
com alguém, se é que você me entende.
Era engraçado que ele não fosse James.
Não horrível, nem desagradável.
Apenas, como digo, um pouco engraçado.
Senti-me um pouco constrangida com meu corpo e com o fato de Adam vê-lo.
Eu não era exatamente desinibida, mesmo nas melhores ocasiões. Não tinha
muito jeito para dançar sem roupas, coisas assim.
Tudo bem quando era com James. Eu não tinha problema algum com ele. No
final, quero dizer. Mas, mesmo com ele, eu fora muito tímida por um longo tempo.
Adam não parava de me dizer que eu era linda. Ele estava tão satisfeito por eu
me encontrar ali e me acariciava, enchendo-me de abraços e beijos. Depois de
algum tempo, relaxei por completo. Podem chamar-me de antiquada, se quiserem,
mas não existe maior elemento de excitação, para mim, do que alguém dizer que
sou bonita e me fazer sentir bonita.
Pode guardar para si qualquer complicado trabalho com a língua ou difíceis
reviravoltas com os quadris. Cinco minutos de palavras lisonjeiras funcionam muito
melhor para mim.
Depois de muitos outros beijos e de nos conhecermos melhor, se é assim que
você gostaria de chamar a isso, tornou-se óbvio que a noite se encaminhava numa
direção definida.
Adam afastou-se de mim.
- Meu Deus - disse. - Você é uma feiticeira, você me deixa louco, você é linda.
Sentei-me um pouco na cama e olhei para ele, enquanto suas mãos
passeavam pelo meu estômago.
Estava tão satisfeita por não ter comido nada.
Ele era lindo. Um corpo tão bonito. Um rosto divino.
E um sujeito tão bom.
Que fizera eu para merecer isso?
Meus olhos viajavam pelo seu peito, admirando seu abdômen retesado, mas
desviei a vista, quando olhei um pouco mais para baixo.
Como descrever o estado em que Adam se encontrava, abaixo da cintura, sem
ser bem explícita ou bem tímida?
É muito difícil falar sobre fazer sexo sem ser tão crua que minhas palavras
soem como as de um livro pornográfico ou sem ser tão discreta que soem como as
de uma reprimida e rígida romancista vitoriana, que sofre regularmente de vaginismo
e ainda chama seu marido de Sr. Clements, após vinte e sete anos de casamento.
E se eu apenas citar o provérbio que diz que "grandes carvalhos desenvolvemse
a partir de pequenas bolotas"?
Não é bom? Discreto, porém simbólico?
Não ofende ninguém, mas, ao mesmo tempo, não deixa dúvidas para ninguém
de que Adam tinha uma ereção que poderia cortar diamantes.
Ops!
Vulgar, vulgar, vulgar!
Embora, já que estamos falando do assunto, eu talvez possa dizer-lhe que era
grande o bastante para me fazer temer pela integridade dos abajures, se ele fizesse
algum movimento súbito.
O que, naturalmente, de todo coração, eu esperava que acontecesse.
Não, estou apenas brincando. Não era tão grande assim.
Apenas de tamanho médio.
Nem grande de causar alarme nem pequeno de causar depressão.
Do tamanho certo.
Claro, há mulheres inescrupulosas que dizem a qualquer homem com quem
estão que ele tem o maior pênis que já viram.
Encolhem-se contra o colchão, fitam atentamente, de olhos arregalados, com
fingido horror, o homem em questão, e soltam um grito agudo: "Ah, meu Deus! Você
não vai chegar nem perto de mim, com esse monstro de coisa. O que está tentando
fazer? Transar comigo ou arrombar a porta?"
Táticas furtivas.
Porque claro que o homem em questão fica encantado.
Acreditando estar de posse de um membro que parece uma arma, ele se sente
invencível, dono de uma poderosa virilidade.
E não esquecerão depressa a impressão que isso lhes causa.
Mas você não me pegaria fazendo isso.
Não, de jeito nenhum!
Bem, apenas muito raramente.
E também não posso contar o que sé passava abaixo da cintura de Adam,
porque não consigo encontrar uma palavra que me deixe à vontade para descrever
seu, bem, vocês sabem, seu...
Como posso descrever-lhe o que não posso descrever, se não tenho uma
palavra para descrevê-lo?
Quero dizer, a palavra correta, claro, é pênis.
Mas soa tão clínico.
Não creio que eu gostasse se alguém me dissesse: "Ah, que bela vagina você
tem aí."
Não é exatamente evocativo ou romântico, não é?
Não se poderia considerar isso como a linguagem dos corações e das flores.
E, pelo mesmo motivo, acho que pênis lembra muito as aulas de Biologia na
escola, onde uma professora substituta com o rosto escarlate explica, de forma
apressada e parca, o sistema reprodutivo humano, a uma sala cheia de
adolescentes rindo à socapa.
Não é uma descrição suficientemente humana.
Mas de que outra maneira posso chamá-lo?
Sei que há centenas de palavras, mas nenhuma parece apropriada.
Que tal "pau"?
Atualmente está muito na moda.
Beeeem, não sei.
Para mim, soa um pouquinho funcional demais.
Embora, novamente, por que não deveria soar?
Que tal "cacete"?
Também não gosto dessa.
Por algum motivo, acho que faz lembrar astros envelhecidos do rock, com
sotaques londrinos, horríveis calças jeans desbotadas e cabelo comprido e grisalho.
E, pior ainda, há as situações em que o homem batiza seu membro com um
nome. Você já passou por uma dessas?
Sorriso afetado e oblíquo do homem, seguido por ruídos de adulação.
Acho que George está acordando. Sorriso significativo e adulador.
Acho que George quer sair e brincar. Olhos nos olhos e expressão
esperançosa.
George quer brincar de esconde-esconde. Sorriso artificial e amarelo.
Ugh!
Bem, George pode sair direto e procurar outra pessoa com quem brincar.
Esse tipo de comportamento basta para me fazer desejar continuar solteira.
Bem, na ausência de uma denominação de que goste, vou recorrer à
linguagem de Mills e Boon e chamá-lo de sua Pulsante Virilidade.
Mas Adam, felizmente, não me apresentara à sua Pulsante Virilidade pelo seu
nome.
Embora eu não soubesse se estava preparada ainda para fazer amizade com
sua Pulsante Virilidade.
De certa forma, eu me habituara à Pulsante Virilidade de James. Não que fosse
um desempenho especialmente duro (se me perdoam o trocadilho) de acompanhar,
mas me convinha.
Eu não tinha nada contra a Pulsante Virilidade de Adam (além da minha coxa,
claro), mas me sentia nervosa quanto a travar conhecimento com ela.
Como se sentisse isso, Adam pegou-me pelo braço. (Não, Adam, não meu
braço, pelo amor de Deus. Ele não tem um só átomo erógeno.) E disse, com
urgência: "Não precisamos fazer nada, Claire. Podemos apenas ficar aqui deitados,
se você quiser."
Ora, se eu tivesse ganho um centavo cada vez em que ouvi a promessa de
"apenas ficarmos deitados ali", feita por um homem, seria de fato uma mulher muito
rica. Não posso contar o número de vezes em que me prometeram isso, quando tive
de passar a noite com um homem porque perdi o último ônibus e não tinha dinheiro
para um táxi.
Você pode ficar em minha casa. É logo ali depois da esquina - ele dizia.
Dormirei no sofá - eu respondia, depressa.
Bem, você pode, da mesma forma, ficar na cama comigo. É muito mais
confortável.
Ah, não, o sofá está ótimo.
Escute, não vou tocar em você. É com isso que está preocupada?
Bem, hã, sim.
Não precisa se preocupar. Não tocarei um dedo em você.
E então aquelas palavras proféticas: "Podemos apenas ficar deitados lá."
E, claro, não dormia um segundo, porque tinha de passar a noite em luta
contínua com o homem. Ou esmagada com o rosto contra a parede, numa vã
tentativa de fugir dele, descobrindo que era quase impossível respirar, que droga,
por causa do pênis ereto pressionado contra minhas costas.
Com medo de que, se eu expirasse e, assim, movimentasse a parte inferior da
minha coluna vertebral, de forma, claro, inteiramente involuntária, cerca de um
décimo de milímetro para cima do seu membro quente, isso fosse tomado como
sinal de encorajamento e aquiescência.
E depois, claro, se eu não cumprisse o papel, por assim dizer, havia a chance
altamente provável de que o cavalheiro em questão fosse falar mal de mim de alto a
baixo em toda a Irlanda, chamando-me de provocadora que foge da raia, lésbica
frígida, e os mais variados epítetos, terríveis e totalmente imerecidos.
Dizendo coisas como: "Ah, ela veio para cima de mim a noite inteira. Não
enganou ninguém com aquela história de não ter dinheiro para um táxi."
Até hoje ainda tenho uma leve marca, com a forma de um pênis, em minhas
costas.
Mas acreditei em Adam.
Sabia que ele falava sério.
Confiei nele.
Sabia que, se ele havia dito que podíamos apenas ficar deitados ali, suas
palavras eram verdadeiras.
Mas era isso o que eu queria?
Com inteira franqueza, não.
Sim, eu estava nervosa.
Mas, que diabo, queria transar com ele.
Se ele viesse todo respeitoso para cima de mim, eu gritaria.
- Não quero parar - sussurrei-lhe.
Não queria exagerar o comportamento de menininha excitada. Muito bem,
então, era hora de ser provocativa.
- Hã - eu disse, cheia de constrangimento. - Deixei minha bolsa lá embaixo.
- Para que você precisa de sua bolsa? Sua maquilagem está perfeita. - E sorriu
para mim.
Não é por causa de minha maquilagem, seu bobo.
Então para que é? Mas ele estava brincando.
Claire, quer fazer o favor de relaxar? - disse ele, exasperado, fazendo me rolar
e ficar de costas. - Acho que você se refere a camisinhas, não?
Ah, sim - disse eu, sentindo-me um tanto mortificada.
Bem, não precisa se preocupar; tenho algumas aqui.
Ah.
Não tinha certeza de que outra coisa poderia falar.
A franqueza dele me deixara inteiramente desarmada.
Ele tinha inteira razão, claro.
Qual o motivo para estar constrangida?
Tudo com que eu tinha de me preocupar, agora, era se eu seria boa.
Ele tornou a me beijar.
E as coisas se tornaram muito mais sérias.
Aquele beijo sem dúvida colocou um ponto final em qualquer travessura leve.
Olhei-o e seus olhos estavam escuros, quase negros, de desejo.
- Claire - ele sussurrou (agora era ele quem sussurrava). - Há muito tempo que
não vou para a cama com ninguém.
É mesmo?, pensei, surpreendida.
Eu pensaria que, para alguém tão sedutor e bonito quanto Adam, todos os dias
de sua vida seriam um verdadeiro festival de sexo.
Mas, novamente, ele parecia mesmo ser muito exigente. Mais de uma vez eu
testemunhara sua luta para afastar mulheres lindas.
E ele me escolhera, pensei, com o coração derretendo.
Ele, que podia praticamente ter qualquer uma, escolhera-me.
Tinha de haver alguma coisa errada.
A qualquer momento, ele se ofereceria para me mostrar sua coleção de facas,
ou puxaria uma serra e me reduziria a pedacinhos.
Está bem - sussurrei-lhe, em resposta. - Há séculos que eu também não
transava com ninguém.
Ah - ele disse.
E depois perguntou, em voz mais alta:
- Por que estamos sussurrando?
- Não sei - dei risadinhas.
Segue-se então o ritual da camisinha. Sabem, remexendo numa gaveta à sua
procura, o ruído do papel da embalagem sendo amassado, ele dizendo: "É este o
lado certo? Ou será que é o outro?" e, afinal, conseguir fazer tudo apenas para
testemunhar a ereção desaparecer.
Só que a de Adam não.
Ou seja, não desapareceu.
Graças a Deus.
Agora, a essa altura, temo que vá me tornar um pouquinho mais vaga.
Lamento desapontar você, mas não vou dar-lhe quaisquer detalhadas
descrições técnicas das minhas transas com Adam. (Sim, espero que tenha notado
o plural "transas".)
Claro que eu poderia dar-lhe uma descrição que pareceria mais um livro
escolar pertencente a um estudante de primeiro ano de Anatomia.
E poderia fazer a coisa toda soar como uma carta para a página epistolar numa
revista pornográfica, cheia de arquejos, costas recurvadas e ginástica exótica.
Mas isso realmente não faria justiça à beleza da coisa (bem, todas as três
coisas, na verdade) e como me senti feliz.
Poderíamos dizer apenas que momentos maravilhosos foram vividos por todos.
Bem, por todos, ou seja, por todos os dois.
Não tive queixas.
Ele não teve queixas.
Inteiramente prazeroso.
Não há dinheiro que pague uma coisa dessas.
Com certeza repetiremos a dose etc.
Eu ficaria constrangida demais de contar a você que ele me beijou em toda
parte, e quero dizer: em toda parte mesmo. E que, quando não fazia isso, cobria-me
com deliciosas e trêmulas mordidinhas.
E não há como me obrigar a contar a você o momento em que ele estava
finalmente dentro de mim. E como eu tive tanto medo de que pudesse doer e como
ele foi gentil comigo. Não doeu e foi lindo.
E se pensa que vou contar como ele sussurrava desesperado coisas para mim,
enquanto estava em cima do meu corpo, coisas maravilhosas, que sou linda, que
minha pele tem um gosto delicioso e como ele estava excitado, lamento, mas está
muito enganado.
Você terá de usar sua própria imaginação para visualizar o momento em que
passei minhas pernas em torno das costas dele, a fim de puxá-lo mais
profundamente para dentro de mim e pensei que morreria se ele parasse, e que
morreria se não parasse.
E você realmente não precisa que lhe conte que, quando ele, hã, quando tudo
acabou, que ambos respirávamos forte, arquejando, e estávamos escorregadios de
suor, que ele olhou para mim, sorriu, deu uma pequena risada e disse, com
admiração: "Meu Deus, você é uma mulher e tanto."
Terei de recorrer a um eufemismo para descrever o quadro.
Que tal a canção de Branca de Neve, "Um Dia Meu Príncipe Chegará"?
E o gozo foi duplo.
Há também outra coisa.
Antes de ter Kate, eu ouvira rumores, nada mais do que vagos relatórios, sem
comprovação, de que, após ter um filho, o sexo em geral fica muito melhor.
Por causa das várias comoções, convulsões e traumas, no, hã, canal do
nascimento, inclusive os temidos pontos, certas mudanças se realizam.
Essas mudanças resultam em, hã, maior sensibilidade e maior percepção das
zonas erógenas da pessoa, se entende o que quero dizer.
E, de modo geral, sob todos os aspectos, o sexo é mais excitante e prazeroso.
E estou feliz de informar que isso foi mesmo verdadeiro.
Sexo com Adam foi diferente, muito diferente da maneira como eu me
lembrava que era com James.
Quando superei a sensação inicial de constrangimento, foi realmente
maravilhoso.
Na verdade, melhor do que eu me lembrava de que era com James.
Então, esse é um efeito colateral de dar à luz, que não tem a boa divulgação
que merece.
Embora, claro, exista uma chance de que eu esteja falando uma porção de
tolices.
E de que o suposto sexo melhor não tivesse a ver com nada mais que o fato de
Adam ter uma Pulsante Virilidade maior que a de James.
Nunca acreditei nessa bobagem de que "tamanho não é documento".
Da mesma forma como você jamais verá uma pessoa rica dizendo "dinheiro
não traz felicidade", acho que as únicas pessoas que dizem que tamanho não é
documento são os homens com pênis muito pequenos.
Mais tarde, quando tudo acabou...
Acabou pela terceira vez, quero dizer, simplesmente ficamos deitados na
cama, conversando e rindo.
Lembra-se do dia na academia? - perguntou Adam.
Mmmmmmmmm - disse eu, quase incapaz de falar, de tão descontraída e
contente.
Aquilo foi terrível - ele disse.
Por quê? - perguntei.
Porque eu me sentia tão atraído por você.
É mesmo? - perguntei, surpresa e encantada.
É, sim.
Não diga, é verdade? - tornei a perguntar, como uma verdadeira neurótica.
Sim - ele insistiu. - Eu não podia nem olhar para você, para não ir em cima.
Mas você estava todo sério e mal-humorado e apenas mexendo com seus
pesos - lembrei-lhe. - Você me ignorou completamente.
É verdade - disse ele, secamente -, e quase distendi todos os músculos do
meu corpo. Eu não conseguia concentrar-me em nada, a não ser em você. Você
estava tão bonitinha com sua roupa de ginástica.
Ah - disse eu, emocionada, aconchegando me para mais perto dele.
Cerca de uma c meia da madrugada eu disse:
É melhor eu ir para casa.
Ah, não - ele disse, apertando me com força, com seus braços e pernas. - Não
vou deixar. Vou manter você acorrentada aqui dentro. Você será minha escrava
sexual.
- Adam - disse eu, suspirando -, você diz as coisas mais simpáticas do mundo.
Depois de mais alguns instantes, eu disse, com relutância:
É realmente melhor eu ir.
Se você precisa mesmo, então vá - disse ele.
Você sabe que sim.
Você ficaria, se não fosse por Kate?
Ficaria.
Ele se sentou na cama e me observou, enquanto eu me vestia. Enquanto
abotoava meu vestido, olhei para ele e descobri que sorria para mim, mas de um
jeito triste.
Alguma coisa errada? - perguntei.
Você está sempre fugindo de mim - ele disse.
Adam, não é verdade - falei, cheia de indignação. - Preciso ir.
Desculpe - ele disse, dando me um sorriso verdadeiro, desta vez.
Ele pulou da cama.
Vou descer até a porta com você.
Assim, sem nenhuma roupa, não - disse eu. - E se os transeuntes virem?
Não havia dúvida. Eu tinha puxado a minha mãe. Ele me beijou
demoradamente, na porta da frente. E foi uma verdadeira realização, o fato de eu
acabar indo embora.
Fique - ele murmurou, cheirando meu cabelo.
Não posso - disse-lhe eu severamente, embora tivesse vontade de tornar a
subir direto a escada e voltar para a cama com ele.
Telefono amanhã - ele disse.
- Tchau. Outro beijo. Mais persuasão.
Corajosa resistência da minha parte. Relutância em me deixar ir. Finalmente,
segui para o carro. Não foi uma realização de pouca monta.
Dirigi até minha casa. As ruas estavam escuras e vazias. Eu me sentia muito
feliz.
Nem mesmo me sentia culpada por ter deixado Kate por tanto tempo.
Bem, não muito culpada.

CAPÍTULO 21
Os preparativos para domingo.
Ingredientes:
Uma mulher de 29 anos que recentemente dera à luz, negligenciada,
abandonada e rejeitada.
Uma generosa dose de culpa.
Uma pitada de antegozo.
Um pacote de insegurança sobre a aparência do seu corpo.
Um raminho de excitação (selvagem, se possível).
Uma colher cheia de desespero profundo, condensado.
Um pequeno pânico de estrias.
Duas meias 7/8, pretas, com renda na barra.
Uma calcinha preta interessante.
Um sutiã preto, da espécie miraculosa, em vez de apenas maravilhosa.
Uma garrafa de vinho tinto.
Um vestido.
Um par de sapatos.
Decoração:
Batom vermelho-prostituta.
Várias camadas de rímel escuro.
Modo de preparar:
Deixar de lado as meias, calcinhas e sutiã, para usar mais tarde.
Pegar a mulher.
Verificar seus olhos e sua pele para se certificar de que ela não passou de seu
prazo de validade.
Acrescentar culpa, antegozo, insegurança, excitação, desespero e pânico.
Misturar tudo.
Deixar cozinhar alguns dias.
Num banheiro de tamanho médio, preparar a mulher, raspando suas pernas,
colorindo seu cabelo e pintando as unhas dos seus pés.
Cerca de uma hora antes de começar, despejar generosamente uma cara
loção corporal, mexendo freqüentemente.
Acrescentar as meias, o par de calcinhas pretas interessantes e o sutiã preto
miraculoso. Praticar um pouco os atos de sedução, deixando seu cabelo cair sobre o
rosto e lançando olhares através dos cílios.
Verificar se ela ainda pode arquejar, arquear as costas e dizer frases como:
"Ah, querido, isso foi maravilhoso" ou "Pelo amor de Deus, não pare", mantendo ao
mesmo tempo um rosto normal.
Recrutar compulsoriamente uma irmã, de preferência Anna, para cuidar da já
mencionada criança.
Acrescentar uma dose generosa de batom vermelho-prostituta, várias camadas
de rímel preto, um vestido curto, todo abotoado, roxo (é, afinal, a cor da paixão),
sapatos pretos com correias de camurça no tornozelo e uma garrafa de vinho tinto.
Evitar começar a beber uns tragos da garrafa de tinto antes de chegar ao seu
destino.
Como extra opcional, camisinhas na bolsa são sempre um toque simpático.
Se não for possível consegui-las - por exemplo, podem estar fora de temporada
-, ajeitar-se com grandes quantidades de continência. Nem sempre ideal, mas
funciona.
Servir numa cama, com um homem bonito.
Segui as instruções ao pé da letra. Tive sorte suficiente de encontrar
camisinhas - cortesia de Laura. Que mulher!
Sentia-me muito bem.
Nem sequer me perturbei quando descobri que, graças à minha tintura de
cabelo (é um intensificador da cor do cabelo, queridas, não precisamos pintar
nossos cabelos, apenas intensificamos sua luz e cor naturais), pois é, graças ao
meu intensificador da cor do cabelo, minhas orelhas e meu cabelo estavam agora
com a cor combinando.
Mas suponho que, se tivesse de ter orelhas coloridas, poderia ficar bem pior do
que com uma cor viva, brilhante, reluzente, num tom castanho.
Nada do seu "Ébano" ou "Bombom" para minhas orelhas. Nada disso!
Cerca de sete e meia da noite de domingo, preparei-me para a partida.
Pronta para pecar e nem estava ligando.
Dei um beijo de boa-noite em Kate.
Enquanto me encaminhava furtivamente para a porta da frente, com meu
casaco abotoado praticamente até as sobrancelhas, para o caso de mamãe me
flagrar com um aspecto tão imoral, o telefone tocou.
- Claire, é para você - gritou Helen. Ah, meu Deus!
Mas era apenas Laura.
Telefonando para me desejar boa sorte e querendo saber se eu praticara
colocar uma camisinha com os dentes, segundo suas instruções.
- Não, não pratiquei! - disse-lhe eu.
Estava louca para desligar o telefone e sair de casa, porque sentia pavor de ser
apanhada.
Por que não? - perguntou ela. - Você não pode simplesmente ir chegando e
esperar que ele fique feliz com o tedioso sexo de sempre. Tem de ser um pouco
criativa.
Mas você só me deu duas! - disse eu, alarmada. - Não que ria desperdiçá-las.
E, de qualquer jeito, onde acha que eu poderia praticar?
Bem, vamos apenas esperar que você tenha um desempenho adequado com a
primeira. Se não, não terá uma chance de usar a segunda - disse ela,
misteriosamente.
Ah, pare com isso, Laura, já estou nervosa demais!
Ótimo - ela disse. - É muito melhor quando a gente está nervosa.
Prometi telefonar para ela no dia seguinte e contar todos os detalhes picantes.
- Ou, se chegar cedo o bastante esta noite, telefonarei para você e lhe contarei
tudo - prometi, ansiosa.
- Se chegar cedo o bastante esta noite para me contar tudo, não haverá nada
para contar - disse-me ela.
- Ah - eu disse. Ela tinha razão.
- Ouça, já vou - disse eu, aborrecida, e desliguei o telefone na cara dela,
enquanto Laura estava no meio de uma explicação sobre uma espécie de atividade
sexual complicada que ela disse ter visto num show em Bangcoc. Fosse lá o que
fosse, só poderia ser feita por uma mulher que tivesse uma flexibilidade muito maior
do que a minha.
Eu sabia fazer sexo, ora essa. Dera à luz uma criança. Como é que ela achava
que isso acontecera?
Quanto ao assunto de excentricidades sexuais, tenho uma confissão a fazer.
Espere só e ouvirá.
Lá vai.
Gosto de mamãe e papai.
Pronto! Já disse.
As pessoas me fazem sentir tão envergonhada de mim mesma por isto. Como
se eu fosse terrivelmente tediosa e reprimida.
Mas não sou. Honestamente.
Não estou dizendo que seja a única posição de que gosto.
Mas, realmente, não faço qualquer objeção a ela.
Naturalmente, claro, esta não é a hora para discutir posições sexuais favoritas.
Só vou dizer a você, muito rapidamente, que acho cunnilingus a coisa mais
chata que Deus já criou. Preferiria passar um dia trabalhando com arquivos do que
suportar uns meros cinco minutos disso.
E, quando eles encerram seus poucos minutos chupando, agem como se você
devesse ser muito grata por isso. Ficam à sua frente, radiantes, como se
merecessem uma medalha. E, depois, agem como se fizessem jus a um ano de
felação sem choro ou reclamações.
Claro, algumas mulheres juram que sim, mas... desculpem, desculpem.
Saí, afinal, e segui dirigindo o carro para a casa dele.

CAPÍTULO 20
O dia seguinte não foi muito melhor.
Meu Deus! Você já conheceu alguém que se compadeça tanto de si mesma
quanto eu?
Era ridículo e precisava parar.
Então, arrastei-me para fora da cama e cuidei de Kate. Depois, cuidei de mim
mesma.
Ah, não se preocupe, não vamos ter uma reprise do roteiro de embriaguez e
falta de banho.
Não, as coisas não foram assim tão ruins.
Atravessei o dia.
Para ser justa, não realizei nada fora do comum.
Não encontrei a cura para o câncer.
Não inventei a meia-calça que não desfia.
Estou envergonhada de dizer a você que sequer telefonei para James.
Eu sei, eu sei! Lamento. Sei que deveria ter feito isso. Sabia que fugia às
minhas responsabilidades.
Mas me sentia tão vazia e solitária.
Triste e solitária e todas as outras emoções que se enquadram no gênero
"Perda", subespécie "Rejeição".
Mesmo assim, não era desculpa para deixar tudo abandonado.
Mesmo quando, na verdade, você não tem tudo que desejaria ter.
De qualquer jeito, eu realmente me levantei na quinta-feira.
Não apenas isso, mas telefonei para James.
E não estava nem mesmo nervosa.
E era a Adam que devia agradecer por isso.
Porque encarei o telefonema para James com uma atitude de: "Ora! Não pense
que você é algo especial, porque não é. Você não é o único homem que pode fazer
com que eu me sinta triste, solitária e rejeitada. Ah, não! Há milhões de outros que
podem fazer exatamente o que você fez. Não se julgue grande coisa!"
Talvez não fosse uma atitude ideal, do ponto de vista do amor-próprio, mas
mesmo assim funcionava.
Disquei o número de Londres e minhas mãos ficaram firmes e minha voz não
tremeu.
Que interessante, pensei.
James não tinha mais o poder de me reduzir a um destroço trêmulo.
Não vamos perder a cabeça, neste caso.
Com voz segura e confiante, perguntei à recepcionista do seu escritório, em
Londres, se podia falar com ele.
Minha impressão era a de que Londres estava a um milhão de quilômetros de
distância. Tão remota quanto outro planeta. Não dava para imaginar que eu a via
todas as noites, no noticiário. A recepcionista falava de uma distância imensa, uma
perfeita estrangeira.
Espelhando a maneira como eu me sentia. Minha vida com James se tornara
muito distante, também uma perfeita estrangeira.
Ou talvez fosse pelo fato de a recepcionista ser grega.
De qualquer jeito, eu estava perfeitamente calma, enquanto esperava para falar
com ele.
Quero dizer, o que era, afinal, assim tão importante?
Que tinha eu a perder?
Nada.
Como disse alguém certa vez - alguém infeliz, sarcástico, um misantropo:
"Liberdade é apenas mais uma palavra para definir a situação de quem não tem
mais nada a perder."
Até ouvir isso eu pensava que liberdade era ser capaz de ir nadar menstruada.
Como estava mal informada.
Claro que a gente acredita em tudo, quando se tem mais ou menos doze anos,
Você sabia que não pode ter um bebê se fizer sexo em pé?
Honestamente, é verdade.
Mas você sabia que pode ter um bebê se chupar a coisa do homem?
Mas eu tinha certeza de que isso nunca aconteceria comigo, porque eu nunca
faria nada tão repugnante quanto chupar a coisa do homem.
E não acreditava por um só momento que alguém, em alguma parte, fizesse
algo tão repugnante e estranho.
Eu não ouvira a expressão "Ato Antinatural", com a idade de doze anos, mas,
se tivesse ouvido, eu a abraçaria como a uma irmã que não se vê há muito tempo.
Senti vontade de chorar pela criança inocente que eu era, pela idealista menina
de doze anos que eu fora um dia.
Mas, ao mesmo tempo, não sabia o que estava perdendo.
Ah, desculpe, desculpe, você quer saber como foi a conversa com James.
Não contei ainda?
Ele não estava.
Estava numa reunião, ou algo parecido.
E, não, não deixei meu nome.
E, sim, você tem razão, se suspeitar que fiquei um pouco aliviada por não ter
de conversar com ele.
Eu estava numa posição irreprochável.
Telefonara para ele, não?
Desafio qualquer um a dizer que não.
Seria culpa minha se ele não estava disponível?
Não, de fato não era.
Mas isso significava que eu podia parar de me sentir culpada, por algumas
horas.
Então, o estado de ânimo estava elevado por volta da hora do almoço, na
quinta-feira.
Toda feliz, tirei Kate de seu berço e rodopiei com ela.
Que belo quadro deveríamos compor, pensei.
A bela criança sendo amorosamente carregada por sua mãe dedicada.
Kate pareceu assustada e começou a chorar, mas não me incomodei.
Minha intenção era boa.
Meu coração estava no lugar certo.
Mesmo que o centro de gravidade de Kate não estivesse.
"Vamos lá, querida", disse eu. "Vamos vestir nossos melhores macacões e ir à
cidade ver as pessoas."
E, assim, Kate e eu fomos à cidade.
Eu não podia, em sã consciência, comprar mais roupas para mim.
Não depois da minha loucura de sábado.
Mas podia comprar roupas para Kate.
Ah! Não perca tempo tentando fazer sentir-me culpada quanto a isso.
Eu tinha um álibi indestrutível.
A cada dia descobria mais coisas boas sobre Kate. Ela continuava a enriquecer
todos os aspectos da minha vida.
Comprei para ela a mais minúscula e linda jardineira de brim.
Mesmo a menor de todas era grande demais para ela, mas Kate cresceria e
caberia nela.
Era lindíssima.
E comprei para ela o mais fofo macacãozinho azul-claro, com bolinhas azulmarinho
e - vejam só que coisa - um pequeno casaco combinando, com um zíper na
frente e um capuz.
E as meias soquete!
Eu poderia falar durante horas sobre as meias que comprei para minha filha.
Tão diminutas, fofas, aconchegantes e macias, e tudo para cobrir seus
minúsculos, minúsculos, minúsculos pezinhos cor-de-rosa.
Algumas vezes, eu tinha um tamanho surto de amor por ela e queria apertá-la
com tanta força, que chegava a temer por sua segurança.
Depois, perambulamos por uma livraria durante algum tempo.
Minha adrenalina começava a bombear todas as vezes que eu chegava a cem
metros de distância de uma livraria.
Amava os livros.
Quase tanto quanto amava roupas. E olhe que já é muito.
O toque deles e seu cheiro. Uma livraria para mim era como uma Caverna de
Aladim. Mundos e vidas inteiros podem ser encontrados logo atrás das capas
lustrosas. E tudo o que você precisa fazer é olhar.
Então o mundo e a vida inteiros que escolhi para penetrar pertenciam a alguém
chamada Samantha, que aparentemente "tinha tudo". Um palazzo em Florença, uma
cobertura em Nova York, um refúgio vizinho ao Palácio de Buckingham, um semnúmero
de jóias valiosíssimas, uma ou duas editoras, um Lear Jet, a carona de um
namorado, algum Conde ou Duque, ou algo parecido, e um segredo sombrio,
absolutamente essencial, bem como um passado trágico e inconfesso.
Eu apostava que ela fora uma prostituta lésbica, antes de sua sorte mudar.
Não bastava apenas ter sido uma prostituta. Não há nisso nenhum impacto.
Precisa-se de um toque a mais. Algo que sirva de gancho.
O lesbianismo ainda não fora exaustivamente explorado. As pessoas ainda
ficavam meio excitadas com isso.
E o que iria acontecer quando as pessoas parassem de erguer as
sobrancelhas diante do lesbianismo?
Eu tinha horror de pensar nisso.
Pessoas fazendo sexo com animais?
Pessoas fazendo sexo com cadáveres?
Pessoas fazendo sexo com publicitários?
Perspectivas, todas, muito desagradáveis e chocantes.
Eu podia ter comprado um livro "educativo", acho.
Algo de uma das integrantes do trio Bronté. Ou talvez uma coisinha qualquer
de Joseph Conrad. Ele era sempre bom para uma risada.
Mas eu queria algo que não fosse muito pesado.
Assim, apenas para ter certeza de ficar com algo leve, comprei subliteratura.
Depois que saí da loja, estreitando minha filha e meu best-seller com letras
douradas em relevo, aconteceu de eu passar pelo café onde tinha ido com Adam no
sábado anterior e, por acaso, eu tinha uma hora ou duas para ocupar. Então,
simplesmente, aconteceu que me sentei ali e - adivinhe o que aconteceu? -
aconteceu que Adam entrou, apenas uma hora e meia depois que eu chegara.
Que coincidência!
Bom demais para ser verdade, hein?
A que poderia isso ser atribuído, se não à Providência Divina?
Explique, se puder.
Eu não era uma pessoa muito espiritual, mas sabia quando estava em
presença de Deus.
Não estou convencendo você, não é?
Bem, acho melhor explicar tudo direito.
Tinha, eu acho, mais ou menos alimentado uma pequena esperança de que
talvez, apenas talvez, se eu fosse à cidade, seria possível, apenas possível, que
deparasse com Adam.
E, se ele estivera naquele café, especificamente, no sábado, e várias de suas
colegas de turma também estiveram, havia mais do que uma vaga chance de que
ele pudesse passar por ali numa tarde de terça-feira.
Qualquer um sabe que o que todos os estudantes fazem quando não estão se
embriagando e tomando drogas é sentar-se durante várias horas às mesas dos
cafés, repartir entre si uma xícara de café frio e ficar brincando com o açúcar.
E talvez eu tivesse demorado com meu KitKat e bule de chá por mais tempo do
que era estritamente necessário.
Algumas pessoas podiam até ter dito que eu parecia estar esperando por ele.
Acho que, quando ele finalmente entrou, eu não poderia chamar a isso de
fenômeno espiritual ou metafísico.
Poderiam até dizer que eu tramara nosso encontro.
Embora, que droga, não seja justo.
Deus ajuda àqueles que ajudam a si mesmos.
E Deus não pode dirigir um carro estacionado.
Se eu tivesse ficado em casa, na cama, com o chocolate e a Marie Claire, será
que o encontraria?
A resposta só pode ser não.
Eu estava sentada ali, com um olho em Samantha no controle da empresa e o
outro na porta. Embora esperasse seu aparecimento, não estava preparada para o
que senti quando ele realmente chegou.
Ele era tão, ele era tão... tão lindo.
Tão alto, parecendo tão forte. Mas, ao mesmo tempo, com um jeito de menino
bonito.
- Calma, calma - disse eu a mim mesma. - Respire fundo.
Resisti ao impulso de jogar Kate em cima da mesa e correr para me atirar em
cima dele.
Lembrei-me de que já gastara toda a minha cota de neuroses em cima dele e
que podia ser uma boa idéia comportar-me como uma mulher normal e equilibrada.
Que diabo, depois de um pouco de prática, eu até poderia tornar-me uma
delas.
Então fiquei empoleirada ali, mantendo a pose, tentando parecer calma,
equilibrada e sadia.
Finalmente, ele me viu.
Prendi a respiração.
Esperei que recuasse e relinchasse como um cavalo assustado e depois se
dirigisse para a porta, como se tivesse visto uma assombração.
Esperei que corresse feito um coelho através do café, derrubando mesas e
cadeiras, derramando bules de chá e xícaras de café em cima de inocentes
espectadores, com o cabelo em pé, os olhos arregalados e fixos, e gritasse para
qualquer pessoa que se dispusesse a ouvir, apontando como um louco o dedo em
minha direção e na de Kate: "Ela é louca, aquela ali, sabem? Doida de pedra. Não
se envolvam com ela."
Mas ele não fez nada parecido.
Sorriu para mim.
Tenho de admitir que era um sorriso algo desconfiado.
Mas era um sorriso.
- Claire! - gritou, e veio para a mesa. - E Kate - acrescentou. Correto em ambas
as avaliações.
Notava tudo.
Beijou Kate.
Não me beijou.
Mas eu podia suportar isso.
Estava simplesmente eufórica de vê-lo, e mais eufórica ainda que ele quisesse
falar comigo. Realmente, não estava preocupada com qual de nós ele beijou.
- Por que não se senta conosco? - perguntei, amável. Cheia de pose. Cortês. A
maior das anfitriãs, essa era eu.
Boas maneiras impecáveis. As emoções, se na verdade eu tinha alguma que
assim se pudesse considerar, controladas e mantidas em seu devido lugar com
mão-de-ferro.
Meu queixo estava erguido, meu lábio superior rígido, minha expressão era
inescrutável.
Não havia nada à mostra que pudesse assustá-lo e afastá-lo.
- Está bem - ele disse.
Desconfiado. Cauteloso. Observando-me cuidadosamente. Talvez esperando
que eu o acusasse de ter atração sexual por minha mãe.
Vou apenas pegar uma xícara de café - ele disse.
-Ótimo - falei, dando um sorriso magnânimo, irradiando equilíbrio e
descontração por todos os meus poros.
Lá se foi ele.
E eu esperei.
E esperei.
Ah, meu Deus, pensei, triste, ele deve ter escapulido. Não devia querer nada
comigo, absolutamente. Eu parecia estar desenvolvendo uma forte tendência a
passar por essas coisas.
Ele estava provavelmente imprensado contra a minúscula janela do banheiro
masculino, lutando para sair, entre as fedorentas latas de lixo, folhas de repolho e
garrafas vazias de conhaque que são encontradas do lado de fora das saídas dos
fundos de restaurantes e cafés.
Coloquei meu livro dentro da bolsa - sabe que fiquei tão alegre de vê-lo que
esqueci inteiramente de esconder a capa do romance barato? - e tornei a ajeitar
Kate em sua funda.
Pelo menos, tentei.
E fiquei satisfeita.
Não conseguira o que queria, mas pelo menos assumira a responsabilidade
pela minha vida. Tentara ajeitar alguma coisa, tentara fazer algo acontecer.
Não me comportara como uma vítima passiva apenas deixando que a vida
acontecesse comigo.
Assumira o controle.
Não funcionara, mas, e daí?
O importante era tentar.
E da próxima vez que eu encontrasse um homem simpático não iria para cima
dele toda derretida e com jeito de colegial, pensando nele como um namorado e
suspeitando que todas as outras mulheres o cobiçavam.
Eu mal acabara de me organizar para a partida quando ele lepidamente surgiu
a um canto com uma bandeja com café e pãezinhos.
Filho-da-puta!
Eu fora tão adulta, madura e sensata para absolutamente nada, droga.
Sentia-me tão bem com relação a mim mesma, triste mas enriquecida pelos
erros que cometera, e ele voltara e destruíra totalmente isso para mim.
Lá se ia meu contentamento otimista, introspectivo, meditativo.
Filho-da-puta egoísta!
Tive vontade de lhe dizer para ir passear e me deixar em paz. Eu acabara de
aceitar, não fazia nem cinco minutos, a sua perda, e, agora, o que se esperava que
eu fizesse com ele?
Apreciar sua companhia?
Você enlouqueceu?
- Desculpe ter demorado tanto - disse ele. - O caixa teve um acesso e... ei!...
para onde você vai?
Ele parecia realmente surpreso. E, depois, pareceu aborrecido.
- Desculpe - murmurei, sentindo-me mortificada.
Se ele, algum dia, tivera razão de pensar que eu era histérica e neurótica,
aquilo só poderia convencê-lo de que eu era uma completa filha da puta, dada a
acessos de mau gênio.
- Para onde você vai? - perguntou ele, com uma voz que de monstrava ao
mesmo tempo raiva e mágoa. - Lamento ter demorado tanto tempo. Mas pensei que
você esperaria.
-Pensei que você tivesse ido embora - murmurei.
-Mas por quê? - perguntou ele, em total exasperação. - Por que eu iria
embora?
-Não sei - eu disse, sentindo-me nauseada, de tanto constrangimento.
Ah, dessa vez você estragou tudo de uma vez, disse a mim mesma.
- Ouça - disse ele, e bateu com sua bandeja na mesa, fazendo o café respingar
por toda parte.
Dei um pulo de medo.
- Sente-se - disse ele, zangado. Pôs as mãos em meus ombros e me empurrou
novamente para minha cadeira, sem a menor vacilação.
"Meu Deus!", pensei em estado de choque. "Acalme-se."
- Ah, desculpe, Kate - interpôs ele, em tom mais ameno. O rostinho dela deve
ter registrado surpresa com a abrupta mudança. – E agora - disse, de volta outra vez
ao estado de espírito anterior -, que diabo está acontecendo?
- O que quer dizer? - perguntei, com um fio de voz.
Ele, obviamente, tentava manter sob controle uma grande raiva, e era
assustador.
- Por que me trata dessa maneira? - perguntou, ainda zanga do, com o rosto
muito próximo do meu.
Não conseguia acreditar que aquilo estivesse acontecendo. Onde fora parar o
simpático, agradável e compreensivo Adam? Quem era aquele homem furioso no
lugar dele?
-Dessa maneira, como? - perguntei, hipnotizada. Estava com medo dele, mas,
como um coelho apanhado pelos faróis de um carro que se aproxima, não conseguia
fugir do azul zangado dos seus olhos.
-Como se eu fosse algum tipo de canalha.
- Não estou fazendo isso - protestei, surpresa. Não estava, certo?
-Mas que droga, está sim! - ele gritou para mim, com os dedos enterrando-se
em meus ombros. - Está, praticamente desde a primeira vez em que nos
encontramos. Conheci você, gostei realmente de você, queria vê-la, o que há de
errado nisso? - perguntou, furioso.
-Nada - sussurrei.
-Então, por que você se comporta como se eu fosse algum filho-da-puta tipo
Casanova? Por que pensou que eu estava transando com sua irmãzinha? Por que
imaginou que iria embora e deixaria você sentada aqui? Simplesmente me diga por
quê.
As pessoas das outras mesas começavam a lançar olhares para nós, cheias de
interesse, mas Adam não notou e não pensei que fosse exatamente sensato apontálas
para ele, pelo menos em seu atual estado de espírito.
-Não percebe como é insultuoso? - disparou ele para mim.
-Não - disse eu, quase com medo de olhar para ele.
-Pois fique sabendo que é!
-Não sabia o que dizer. Fiquei apenas sentada ali, olhando para ele, seus olhos
azuis penetrando os meus.
De repente, tomei consciência de como eu estava próxima dele. Nossos rostos
estavam separados apenas por centímetros.
Eu podia ver, um a um, os pêlos de sua barba por fazer, a pele ligeiramente
bronzeada e bem esticada sobre as belas maçãs do rosto, a regularidade dos seus
dentes brancos, a sensualidade de sua boca...
De repente, ele ficou muito quieto.
Toda a raiva e a violência pareceram deixá-lo.
Ficamos sentados ali como estátuas, suas mãos em meus ombros. Olhamos
atentamente um para o outro.
Eu estava tão cônscia dele, de sua força e de sua vulnerabilidade.
Havia tensão entre nós, vibrando levemente na imobilidade.
Então, ele se afastou de mim. Esgotado, com um cansaço muito profundo,
ficou sentado ali, com os braços a penderem molemente dos lados do seu corpo.
- Adam - arrisquei. Ele sequer me olhou.
Permaneceu sentado, com a cabeça baixa. Proporcionando-me uma vista de
seus lindos cabelos escuros.
-Adam - tornei a dizer, com um breve toque em seu braço. Ele se enrijeceu
levemente, mas não foi embora.
-Não é você, sou eu - disse eu, sem jeito. Houve uma pausa.
-Que quer dizer? - perguntou ele.
Bem, pelo menos achei que fora o que ele dissera. Era difícil ouvi-lo, porque
sua voz estava toda abafada, já que ele praticamente repousava a cabeça em seu
próprio peito e falava para dentro do seu suéter.
- Quero dizer que o problema é meu - falei. Achava muito difícil expressar-me.
Mas precisava dizer aquilo. Devia aquilo a ele.
Eu o perturbara, e o mínimo que podia fazer era informar-lhe o que se passava
na minha cabeça. Ele disse outra coisa.
- Adam, desculpe, mas não entendi direito - disse-lhe, com um tom de quem se
desculpa.
Ele ergueu a cabeça e me olhou. Até mal-humorado ele era bonito.
- Eu perguntei, qual é o seu problema? - repetiu ele, com irritação.
Outro frêmito de medo correu pelo meu corpo. Eu tinha de fazer aquilo direito.
Mas era muito difícil falar com ele, quando Adam se mostrava tão intimidante.
- É porque sou insegura e desconfiada - eu disse. Ele não disse nada.
Apenas ficou ali sentado, olhando mal-humorado para mim.
- Você não fez nada errado - continuei, vacilante.
Ele fez um pequeno e triste aceno afirmativo com a cabeça, ouvindo minhas
palavras.
Bem, achei que fosse afirmativo.
Parecia-se muito com um aceno afirmativo.
Muito embora fosse muito pequeno e muito triste.
Claro que ele podia apenas estar endireitando a posição de sua cabeça no
pescoço.
Mas foi o suficiente para me encorajar a continuar.
- Achei que você tinha ido embora porque não queria falar comigo - disse-lhe.
- Entendo - disse ele, sem qualquer emoção aparente. Tive vontade de dar-lhe
um soco.
Reaja, pelo amor de Deus!
Diga-me que estou sendo ridícula, diga-me que você sempre quer me ver.
Ele não o fez.
Talvez não gostasse de ser induzido a me elogiar.
Bastante justo.
Talvez fosse hora de eu parar de induzi-lo.
Ou a qualquer outra pessoa, aliás.
Mas, algumas vezes, era tão instintivo quanto respirar.
Não que eu me orgulhasse disso ou coisa parecida, veja bem.
Tentei explicar-lhe.
-Achei que você não queria falar comigo, depois de eu ter sido tão pouco
razoável ao telefone, no domingo à noite.
-Você não foi nada razoável - ele concordou.
-Mas estou assustada - disse eu, triste.
-Com o quê? - ele perguntou, com a voz não tão furiosa.
- Com, com, com... tudo, realmente - disse eu. E, para meu horror, meus olhos
encheram-se de lágrimas.
-Não fiz de propósito, juro que não.
Fiquei tão chocada com minha inesperada umidade ocular quanto ele.
- Desculpe - funguei. - Não estou fazendo isso para que você seja simpático
comigo.
- Ótimo - disse ele. - Porque não funcionaria. Filho-da-puta sem coração,
pensei brevemente, mas depois banida minha mente o pensamento indigno.
-Só respondo a mulheres chorando quando têm menos de dois anos de idade -
ele continuou, meio sorrindo, enquanto tocava o rosto de Kate.
-Ah - eu disse. Fiz uma valente tentativa para rir, embora ain da estivesse
chorando.
-E então, o que a assusta e faz com que seja má comigo? - perguntou ele.
Dessa vez sua voz soava quase gentil.
-Ah, o de costume - disse eu, tentando recompor me.
-Como o quê? - insistiu ele.
-Gostar das pessoas e depois perdê-las, fazer papel de tola, ser magoada,
assustar as pessoas e fazer com que fujam, ser atirada demais ou muito distante... -
disparei. - Quer que eu continue? Poderia fazer isso durante horas.
-Não, está bem - ele disse. - Mas todos temos medo dessas coisas.
-Temos? - perguntei, surpresa.
-Claro - ele me garantiu. - Por que você pensa que é tão especial? Você não é
a única que se sente assim, sabe? E, de qualquer jeito, de que forma estou
assustando você?
-Pensei que você estivesse me jogando contra Helen, numa espécie de
brincadeira - eu disse.
-Mas eu lhe disse que não - falou ele, exasperado. - E lhe disse que podia
entender por que você se sentia assim, embora não gostasse disso.
-Então, por que você é tão sensível a respeito do assunto? - perguntei-lhe,
momentaneamente desviada de minha própria infelicidade. - Pensei que todos os
homens gostassem de ser vistos um pouco como meninos.
- Bem, definitivamente, eu não gosto - ele disse. Parecia triste e pensativo. Eu
sabia que ele não estava apenas pensando em mim e em Helen.
O que acontecera com ele?
Que tipo de dor carregava?
Eu tinha de chegar ao fundo daquilo.
Mas, primeiro, precisava solucionar nossas presentes dificuldades.
Continuei esforçando-me valentemente.
E, depois que falei com você, no domingo à noite, senti que tinha parecido uma
histérica e que exagerara minha reação, e que o assustara e, por causa disso, você
não me telefonaria mais - fui soltando tudo aos arrancos e depois observei-o, com
cuidado, sob meus cílios, para ver como ele reagia.
-Bem... - disse ele, vagarosamente.
Ah, apresse isso, pelo amor de Deus, pensei, desesperada, meus nervos não
agüentam.
- Eu não ia mesmo telefonar para você - ele continuou.
- Ah - eu disse. Então, estava certa.
Nota dez para meu instintos.
Nota zero para meu bem-estar.
Sentia-me como se tivesse levado um coice de cavalo no estômago. De fato,
não é verdade, porque jamais levei um coice de cavalo no estômago. Acha que
estaria sentada aqui agora, conversando com você, se fosse a feliz recebedora de
um coice de cavalo no estômago? A resposta só pode ser não.
Mas eu me sentia do mesmo jeito que me senti quando tinha mais ou menos
dez anos e caí de um muro e aterrissei de barriga para baixo, em cima do meu
estômago, sobre um gramado que fora inteiramente cozido pelo sol de verão, e
estava tão duro quanto concreto. Houve aquela horrível sensação de choque e
náusea, enquanto o ar foi abruptamente forçado para fora do meu corpo.
Era o jeito como eu me sentia agora.
- Não porque não quisesse lhe telefonar - continuou ele, sem perceber como eu
sofria. - Mas porque achei que seria o melhor para você.
-Que quer dizer? - gritei, sentindo-me infinitamente melhor.
-Porque você passou por muita coisa, ultimamente. Eu não que ria perturbá-la
de nenhuma maneira, nem agravar seus problemas.
Que anjinho!
-Você não me perturba - disse-lhe eu.
-É óbvio que sim - disse ele.
-Mas não fazia de propósito - protestei.
-Eu sei - ele disse. - Foi por isso que perdi a cabeça antes - aliás, me desculpe
por isso -, mas só estar em contato com você já parecia deixá-la aborrecida,
perturbada, ou seja lá o que for.
Ondas de alívio me envolviam.
- Desculpe ter sido difícil - disse-lhe eu. - Mas... E aqui respirei fundo.
Eu me arriscava um pouco. Colocando em cena meus sentimentos.
- Prefiro ver você a não vê-lo - consegui finalmente dizer-lhe.
- É mesmo? - perguntou ele, com um tom de esperança, excitação,
infantilidade.
-É.
-Tem certeza?
-Tenho.
-Você confia em mim?
-Ah, Adam - disse eu, meio rindo, meio chorando. - Eu disse que queria vê-lo.
Ninguém mencionou nada a respeito de confiança.
-O.K. - disse ele, rindo também (nenhum sinal de lágrimas). - Mas será que
confia em mim quando digo que quero ver você e não Helen?
-Confio - disse eu, solenemente.
-E se o caixa tiver uma briga com alguém por causa do troco, ti ver um acesso
e sair correndo, de modo que eu precise esperar horas para pagar meu café, você
não vai pensar que dei o fora pelos fundos?
-Não - concordei. - Não pensarei.
-Então, somos amigos? - perguntou ele, de forma muito atraente.
-Somos - concordei com um aceno afirmativo. - Somos amigos.
Embora meu cérebro me dissesse "Com licença, com licenças amigos, você
disse amigos?" Não creio que simples amigos comportem-se da maneira como você
quer fazer com Adam. Laura é sua amiga e você não arranca suas roupas toda vez
em que a vê, e corrija-me se estiver errado, mas não é isso precisamente o que você
deseja fazer com Adam?
-Cale a boca - resmunguei para ele.
-Como? - perguntou Adam, olhando-me alarmado, obvia mente pensando: "Ah,
meu Deus, aí vem ela novamente."
-Nada - sorri para ele. - Absolutamente nada.
-Bem - disse ele. - Agora que esclarecemos todo esse mal- entendido, quando
posso vê-la?
-Ah, realmente não sei - disse eu, de repente toda tímida e infantil com ele.
-Vai fazer alguma coisa no domingo à noite? - ele perguntou.
-Acho que não - eu disse, fingindo pensar no assunto. Embora minha agenda
social se estendesse à minha frente tão vazia e informe quanto o deserto de Gobi.
-Bem, posso preparar um jantar para você? - perguntou ele.
-Claro, seria maravilhoso - eu disse.
-Ótimo - disse ele. - Jenny e Andy viajaram para passar o fim de semana fora,
então temos a casa só para nós.
-Ah - eu disse.
Eu era uma mulher do mundo.
Sabia muito bem que ir para a casa de um homem, da qual todos os outros
residentes estavam ausentes, e aceitar um jantar especialmente feito para a pessoa
significava que algo mais estava sendo oferecido, além de costeletas de porco e
uma torta Floresta Negra.
Que maravilha, pensei.
Não conseguia acreditar em tanta sorte.
- Está bem, Adam, vai ser maravilhoso.
E assim marcamos um encontro para domingo à noite. Ele acompanhou a mim
e a Kate até o carro e lá fomos nós para casa.

CAPÍTULO 19
Na manhã seguinte, a casa parecia a Grande Estação Central.
Helen ia para Belfast passar dois dias numa viagem da universidade e
obviamente acreditava que seus preparativos não apenas deveriam ser uma questão
de último minuto, mas também um grande acontecimento familiar.
Em vez de ser acordada por Kate choramingando, acordei com o som de um
furtivo farfalhar ao pé de minha cama.
Alguém estava no meu quarto e com más intenções.
Sentei-me na cama, sonolenta.
- Quem é? - bocejei. Era Helen.
Eu devia ter adivinhado.
Ela caminhava para a porta com uma braçada das minhas roupas novas.
Ah, Claire! - disse ela, pulando, cheia de culpa, enquanto deixava cair no chão
uma das minhas botas novas. - Pensei que você estivesse dormindo.
É, estou vendo - disse eu, secamente. - Agora, ponha tudo de volta no lugar.
Filha da puta - resmungou Helen, atirando no chão uma grande pilha das
minhas roupas. Estavam obviamente destinadas a Belfast.
Lamento, queridas. Levarei vocês uma outra vez. Ouvi-a descer para a cozinha
e, pouco depois, houve o indefectível começo de altercação. O que havia com ela?
Tem de levar irritação para onde quer que vá.
Kate estava acordada em seu berço, simplesmente deitada ali, olhando para o
teto.
- Por que você não chorou, querida? - eu a provoquei, carinhosa. - Por que não
me acordou e me disse que a enjoada titia Helen estava roubando minhas roupas?
Peguei-a e levei-a para a cama comigo, segurando em meus braços seu
corpinho quente e macio.
Ficamos deitadas na cama algum tempo, alternando sono e vigília, ouvindo
pela metade os sons de uma discussão na cozinha. Na verdade, eu deveria levantarme,
pensei. Talvez Helen fale em Adam, antes de ir embora.
Apenas apertei Kate com mais força. Minha preciosa e bela filha.
Mas então ela começou a pedir para ser alimentada. Saí da cama e me vesti
rapidamente, tropeçando, na correria, na pilha de roupas que estava no chão. E
fomos para o andar de baixo.
Lá, uma pequena briga se desenrolava.
Anna, mamãe e Helen estavam sentadas em torno da mesa, cercadas por
restos de café da manhã - tortas compradas prontas, bules de chá, pacotes de
cereais e embalagens de leite por toda parte.
Mamãe e Helen discutiam em voz alta.
Anna sorria beatificamente e fazia algo esquisito com uma margarida e um
clipe de prender papel.
Não sei nada sobre nenhuma echarpe e luvas verdes - mamãe disse a Helen,
acaloradamente.
Mas eu as deixei em cima da geladeira - protestou Helen. - Então, o que você
fez com elas?
Ora, se você não as tivesse deixado em cima da geladeira, se as colocasse no
lugar certo, saberia onde encontrá-las - respondeu- lhe mamãe.
Em cima da geladeira é o lugar certo - replicou Helen. - É onde sempre deixo
minhas coisas.
- Bom-dia - disse eu, amável. Todas me ignoraram completamente.
Sem qualquer razão óbvia, a porta dos fundos estava aberta, balançando-se, e
rajadas de gélido ar matinal sopravam pela cozinha.
Aquilo era ridículo.
Eu tinha uma criança pequena em casa. Todas morreríamos de pneumonia.
Caminhei rapidamente até lá e, segurando Kate com uma das mãos, consegui
fechar a porta e trancá-la firmemente com a outra.
- Você não devia ter feito isso - disse Anna, misteriosamente. Olhei-a, surpresa.
Eu pensaria que era cedo demais, até no caso de Anna, para se mostrar
mística e etérea.
Por quê? - perguntei com brandura e afeto, preparada para dançar conforme a
música. - Será que a Deusa da Manhã vai me punir, por barrar sua entrada em
nossa cozinha?
Não - disse Anna, olhando-me como se eu tivesse enlouquecido por completo.
Exatamente nesse momento houve uma agitação abafada e frenética do lado
de fora da porta dos fundos.
Alguém ou algo estava muito aborrecido por encontrar a porta trancada.
Usava um linguajar, para a Deusa da Manhã, que vou lhe contar.
Anna suspirou, caminhou pesadamente até a porta e abriu-a.
Papai ficou em pé no degrau, quase inteiramente oculto pela imensa pilha de
roupa lavada que segurava nos braços.
Quem trancou essa maldita porta? - rugiu, através de sua braçada de jeans e
casacos. - Devia logo saber que você tinha algo a ver com isso - disse entre dentes
para a pobre Anna, enquanto ela mantinha a mão na maçaneta da porta.
Não, papai, fui eu - disse-lhe, apressadamente. O lábio inferior de Anna
começara a tremer e ela parecia à beira das lágrimas. - Foi porque estávamos com
frio - expliquei, enquanto papai fixava em mim um olhar magoado. - Não foi porque
eu quisesse trancar você do lado de fora.
Meu Deus, que bando de neuróticos!
Eu era tão normal, comparada com o resto da minha família.
- Certo - declarou papai, atirando todas as roupas em cima da mesa, sem se
preocupar com as torradas meio comidas e as tigelas de cereais abandonadas que
ainda estavam em cima dela. - Quais dessas roupas você quer?
- Ah, Helen, você é tão difícil - suspirou mamãe. - Há um quarto cheio de
roupas lá em cima, mas o que você deseja tem sempre de estar na máquina de lavar
ou no varal.
Helen sorriu como um gatinho. Adorava que lhe dissessem que era difícil. Isso
a fazia sentir-se poderosa. O que de fato era.
Com um sorriso afetado, escolheu algumas peças de roupa do monte em cima
da mesa e entregou-as a papai.
O que tenho eu a ver com isso agora? - perguntou ele, surpreso.
Elas precisam ser passadas a ferro - disse Helen, com uma voz igualmente
surpresa.
Passadas a ferro? - perguntou papai. - Por mim?
Vai me mandar para Belfast com as roupas amassadas? - perguntou Helen,
ultrajada. - Você sabe, sou uma embaixatriz do Estado Livre. Não posso ir a Belfast
parecendo uma mendiga. Pensarão que todos os católicos são sujos e repugnantes.
Certo, certo, certo! - gritou papai, erguendo os braços para se defender do seu
apelo inflamado.
Pobre homem.
Jamais tinha uma chance.
As coisas se acalmaram.
As torradas começaram a ser comidas, o café a ser tomado, a conversa - e
estou usando esta palavra de forma muito livre - recomeçou.
- Adivinhe com quem ficarei em Belfast? - perguntou Helen com um tipo de voz
inocente e melodiosa. Soava por demais casual e blasée.
Eu conhecia esse tom. Pressenti problemas.
Com quem? - perguntou Anna.
Com um protestante - disse Helen, em tom sigiloso e reverente.
Mamãe continuou bebericando seu chá.
- Mamãe, você ouviu o que eu disse? - perguntou Helen, com petulância. -
Disse que vou ficar com um protestante.
Mamãe ergueu os olhos, calmamente.
E daí?
Mas não odiamos todos os protestantes?
Não, Helen, não odiamos ninguém - disse-lhe mamãe, como se falasse com
uma criança de quatro anos.
Nem mesmo os protestantes?
Helen estava decidida a conseguir uma briga, de uma forma ou de outra.
Não, nem mesmo os protestantes.
Mas, e se eu cair sob a influência deles e começar a ficar esqui sita e a fazer
arranjos de flores?
Helen ouvira cantar o galo sem saber onde, e a partir daí chegara a uma vaga
e confusa generalização sobre os protestantes.
Uma mistura curiosa de Belzebu e Miss Marple.
Tinham chifres, claro, e cascos fendidos, e preparavam suas armadilhas.
Bem, e daí, se você fizer isso? - perguntou mamãe, amavelmente.
E se eu não for mais à missa? - arquejou Helen, com fingido tom de horror.
Mas você já não vai mesmo - disse Anna, com um tom perplexo.
Seguiu-se um silêncio um tanto tenso e desagradável.
Felizmente, Kate, sentindo, é óbvio, um estado de espírito desagradável em
torno, amenizou as coisas começando a chorar como um espírito maligno.
Senti que ela tinha um grande futuro diante de si, como embaixadora, ou
trabalhando para as Nações Unidas.
Houve uma grande corrida para preparar sua mamadeira, e Anna e Helen
quase tropeçaram para ajudar.
Papai ocupava-se pegando a tábua de passar roupa e fazendo tudo em grande
estilo, enchendo a cozinha com o vapor do ferro até que ficasse parecendo uma
sauna.
Mamãe permaneceu sentada como se fosse feita de pedra.
Mas, depois de algum tempo, até ela despertou para a atividade. Começou a
limpar a mesa e, resoluta, jogou algumas torradas frias e duras na lata de lixo.
O que foi uma pena, porque eu mais ou menos gostava de torradas frias e
duras. Mas não era boba de deixar minha mãe zangada, pouco depois de ela ter
sido informada do não comparecimento à missa por parte de uma de suas filhas.
Mesmo quando a filha em questão não era eu.
As coisas voltaram ao normal.
Sendo, claro, normal um conceito inteiramente subjetivo.
A normalidade para um homem é, para outro homem, um ambiente doméstico
que não funciona, anárquico, fragmentado, profundamente insalubre.
Helen nunca foi do tipo que deixasse qualquer passo em falso derrubá-la por
muito tempo.
A tagarelice vazia recomeçou dentro de alguns momentos.
- Como será em Belfast? E se eu for assassinada? - cogitou ela.
- Quero dizer, qualquer coisa poderá acontecer comigo. Posso levar um tiro ou
ser atingida por uma explosão de bomba. Esta pode ser a última vez que vocês me
verão.
Todas a olhamos fixamente, paralisadas pela emoção. Até Kate ficou em
silêncio.
Claro, claro que não teríamos tanta sorte assim.
- Ou talvez eu seja seqüestrada - disse ela, em tom sonhador. - Poderá
acontecer comigo o mesmo que com Brian Keenan. E ele também tem duas irmãs
feias! - disse ela, triunfante, encantada por encontrar uma semelhança entre si
mesma e uma vítima de seqüestro.
- A diferença é que tenho quatro irmãs feias - disse, pensativa. - Ora,
esqueçam.
Elas não são feias - disse mamãe, no auge da indignação.
Obrigada, mamãe - sorri para Helen, com ar superior.
Obrigada, mamãe - disse Anna.
Vocês não - disse mamãe, aborrecida. - Estou falando das irmãs de Brian
Keenan.
Ah - disse eu, abatida.
Helen ainda falava sobre ser seqüestrada.
Meu coração confrangeu-se de pena do imaginário seqüestrador.
Qualquer pessoa que seqüestrasse Helen ficaria convencida de que caíra
numa armadilha. Que ela era algum tipo terrível de arma secreta enviada pelo outro
lado para destruí-los.
Nada a assustava.
Podia estar acorrentada em algum porão sujo, com um magro jovem fanático
de rosto pálido, cheio de músculos parecendo cordas e olhos ardentes, carregado de
armas, que ainda assim talvez puxasse uma conversa com ele sobre o local onde o
dito cujo comprara seu suéter.
Ou sobre nada, realmente.
- Acho que terá de me torturar um pouco - diria ela, de improviso. - O que fará?
Acho que poderia cortar minha orelha, e mandá-la pelo correio, para receber o
dinheiro do resgate. Não me importaria tanto com isso. Quero dizer, para que
preciso de minha orelha se ouço com a parte de dentro do ouvido? Não com o
pedaço que fica do lado de fora. Embora surgisse um pequeno problema, se eu
quisesse usar óculos. Se tivesse apenas uma orelha, eles, claro, ficariam
inteiramente caídos para um lado. Mas eu ainda poderia usar lentes de contato. Sim!
Poderia fazer papai comprar para mim algumas daquelas lentes de contato
coloridas. Que tal castanhas? Acha que eu ficaria bem de olhos castanhos?
E o pobre terrorista ficaria exausto e horrorizado com ela. "Cale a boca, sua
filha da puta", poderia dizer. E ela talvez ficasse calada uns rápidos instantes, antes
de começar a falar novamente.
- Essas algemas são lindas. Tenho algemas também, mas são apenas uma
velharia ordinária de plástico. Acho que este deve ser um dos atrativos desse
trabalho: ter permissão para pegar empresta do as boas algemas. Algemar sua
namorada, coisas assim, sabe? Embora deva ser um problema quando você tem um
prisioneiro. Mas eu não me importaria. Você pode tirá-las esta noite, e prometo que
não tentarei fugir...
E prosseguiria interminavelmente, até os terroristas terem um colapso.
Marmanjos chorando, descontrolados:
- Ela é horrível, horrível! Faço tudo que você quiser, mas simplesmente obrigue
essa mulher a parar de falar.
Helen chegaria novamente sã e salva em sua casa, não apenas com o dinheiro
do resgate devolvido intocado, mas com um chicote ganho de presente e um bilhete
de solidariedade para sua família, da parte dos terroristas.
De qualquer jeito, ela finalmente partiu. Algum pobre idiota chamado Anthony,
de sua turma, teve o dúbio prazer de sua companhia na viagem de automóvel de
três horas até Belfast.
Lá se foi ela, sentada na frente, usando uma expressão devota e estreitando
uma garrafa de água-benta.
Não mencionou Adam, antes de partir.
Aquela vaca.
Talvez ele também estivesse indo para Belfast.
Talvez já estivesse lá.
Talvez todas as linhas telefônicas em Rathmines estivessem com defeito e
fosse esse o motivo para ele não ter ligado, à minha procura.
Talvez ele tivesse sofrido um acidente com sua bicicleta e estivesse no hospital
com vários ferimentos.
O importante era que ele não me telefonara.
E não ia telefonar.
Então, agora, o que eu deveria fazer?
O que eu realmente achava peculiar era o fato de mal ter dedicado um único
pensamento a James nos últimos dias.
Minha cabeça estava cheia de Adam, Adam, Adam.
Da mesma maneira como os camareiros do Titanic estavam mais preocupados
com os cinzeiros não esvaziados do bar do que com o enorme buraco do lado do
navio, que deixava entrar milhões de litros de água, eu também estava preocupada
apenas com o que não tinha importância, e ignorava, assim, o que era vital.
Algumas vezes, é mais fácil dessa maneira.
Porque, embora eu não pudesse fazer droga nenhuma com relação ao enorme
rombo, ainda estava ao meu alcance esvaziar um cinzeiro.
Bela analogia.
Mas a conseqüência prática de eu me sentir desse modo foi que passei a
terça-feira vagueando pela casa.
No mundo da lua, mas sem sonhos agradáveis.
No pior sentido da palavra: sentindo-me infeliz, com um ar trágico.
Telefonei para James?
Sinto muito, mas não o fiz.
Estava com um caso grave de autopiedadite.
Fora atacada por uma forma particularmente virulenta de pobre-de-mim-zite.
Não há desculpa, percebi.
Deus sabe que eu não tentava justificar-me.
Mas estava, estava... estava deprimida, que diabo.

CAPÍTULO 18
O tempo fora ficando mais lento, até parar, enquanto eu fora a Mãe Alcoólatra
do Inferno (e a Filha Alcoólatra do Inferno e a Irmã Alcoólatra do Inferno, para ser
perfeitamente exata). Mas, agora que eu começava novamente a viver, o tempo
também começou a trotar depressa e entrou em plena disparada, antes mesmo que
eu percebesse.
Os dias agora passavam voando, como acontece nos filmes em que o diretor
quer transmitir a idéia de uma passagem rápida do tempo, por exemplo, com as
páginas de um calendário sendo viradas rapidamente por um vento forte. Então elas
se soltam e são sopradas para longe. Folhas marrons são sopradas junto com as
páginas, indicando os dias do outono, e depois entra com o vento um pouco de
neve, mostrando a chegada do inverno.
O fim de semana terminou antes que eu percebesse.
Não, claro, que conceitos como a diferença entre o fim de semana e a semana
de trabalho fizessem a mínima diferença para uma pessoa ociosa como eu.
Todo dia era feriado.
Mas de repente era segunda-feira de manhã. James teria voltado do Caribe.
Ou de Mustique. Ou de uma ilha pequena, de propriedade particular, bem próxima
da Costa do Céu. Ou para onde quer que aquele infiel filho-da-puta tivesse ido.
Então, eu tinha de telefonar para ele.
Mas me sentia perfeitamente calma a respeito. O que deve ser feito, deve ser
feito.
Claro que era muito fácil para mim estar calma com relação a James, quando
estava doente de preocupação em relação a Adam.
Seria difícil estar perturbada ao mesmo tempo pelos dois.
Transferência afetiva etc, uma salva de palmas para o Dr. Freud.
Mas, antes de chegar a telefonar para James, eu tinha outra maravilha
reservada para mim, na manhã de segunda-feira.
Meu check-up pós-natal das seis semanas, com o médico.
Os divertimentos pareciam não cessar jamais em minha vida.
Esse era um acontecimento simbólico, como um divisor de águas.
Era uma forma de reconhecimento de que o parto fora um sucesso. Como uma
festa de lançamento dada quando um novo filme é lançado. A diferença é que, na
festa de lançamento do filme, os participantes do elenco e a equipe não têm de sair
colocando seus pés em estribos, enquanto homens estranhos examinam suas
partes íntimas.
A não ser que realmente queiram, claro.
Kate também tinha hora marcada na Clínica para Bebês.
E lá fomos as duas no carro.
Eu estava orgulhosa de mim mesma. Todo dia em que conseguia me arrancar
da cama e funcionar ainda era um pequeno milagre.
A vida, com todos os seus deveres e responsabilidades a serem cumpridos,
começava novamente a ser agradável.
Kate já fora levada à clínica algumas vezes.
Não era nenhuma novidade para ela. Mas eu não estava realmente preparada
para a cacofonia de choros que nos saudou na chegada. Parecia haver ali vários
milhares de bebês berrando, com mães atormentadas e confusas na sala de espera.
Na verdade, algumas mães choravam mais alto que seus filhos.
- Se, pelo menos, ele parasse de chorar - disse uma mulher, com voz
lamurienta, sem se dirigir a ninguém em particular. - Só cinco minutos.
Meu Deus, pensei, horrorizada. Percebi, de repente, como tinha sorte.
Não apenas Kate parecia ser um bebê anormalmente plácido, mas eu tinha
mamãe e papai e, acho, Helen e Anna, para partilhar o encargo de cuidar dela.
Mamãe e papai levaram-na a suas consultas de rotina, quando eu me
comportava como um demônio.
Meu Deus, não consigo nem dizer a você como me senti envergonhada,
naquele momento.
Como podia ter negligenciado minha linda filha de maneira tão terrível?
Jamais aconteceria de novo.
E nenhum homem jamais tornaria a me arrasar da maneira como deixei que
James fizesse.
Senti-me doente só com o pensamento de que não cuidara de Kate da maneira
correta, porque sofria por causa de um homem.
Kate teve sua consulta antes de mim.
Eu a carreguei em seu berço portátil até a sala de exames.
A enfermeira era uma jovem e glamourosa ruiva do condado de Galway.
Por que as enfermeiras são sempre bonitas e sensuais?
Tenho certeza de que existe alguma antiga lenda que explica isso.
Há muito, muito tempo, havia uma tribo de mulheres belas em excesso.
Os homens ficavam enlouquecidos de desejo por elas e todas as outras
mulheres sentiam-se inferiorizadas e horrendas.
Houve tumultos e rebeliões violentas de todos os tipos.
Lares eram destruídos, quando homens, anteriormente bem casados,
apaixonavam-se por essas garotas.
Houve mulheres feias, de outras tribos, que se suicidaram, porque não
poderiam nunca competir com aquelas sereias.
Algo precisava ser feito.
Então Deus decretou que todas as mulheres bonitas tinham de se tornar
enfermeiras e usar sapatos de cadarço, verdadeiramente horrorosos, além de
medonhos uniformes que se alargavam na direção da bainha, fazendo seus
bumbuns parecerem imensos, de modo que, com isso, o poder de atração delas
diminuía bastante.
E assim, até os tempos atuais, as mulheres bonitas têm de se tornar
enfermeiras, para que os perigos de sua beleza sejam diluídos pelos uniformes
horrendos.
Só não sei explicar como é que essa minha pequena fábula se ajusta às top
models e suas roupas reveladoras e lindas.
Ora, deixe pra lá.
A enfermeira fechou a porta com firmeza. Mas o barulho das crianças que
rugiam na sala de espera ainda era perfeitamente audível, entremeado, vez por
outra, com gemidos de: "Apenas cinco minutos; é tudo que eu peço."
- O barulho não a deixa louca? - perguntei-lhe, com curiosidade.
- Absolutamente - respondeu ela. - Nem o ouço mais. Começou a examinar
Kate.
Kate era tão boazinha. Ela sequer chorou.
Estava muito orgulhosa da minha filhinha.
Tive vontade de abrir a porta e dizer, com um jeito de professora de escola
elementar, para todas as crianças ali fora: "Vejam, é assim que vocês deveriam se
comportar. Observem esse modelo de criança, aqui dentro, e imitem o que ela faz."
Observei a enfermeira, enquanto examinava Kate e seus sinais vitais.
Seria bem feito para mim, se houvesse alguma coisa terrivelmente errada com
ela, pensei, com o terror tomando conta de mim.
Mas não, tudo estava ótimo.
A parte culpada de mim estava quase desapontada.
Ela está engordando bastante - disse a enfermeira. - Obrigada - disse eu,
exultante e orgulhosa.
É um bebê perfeitamente saudável - sorriu a enfermeira.
Obrigada - tornei a dizer.
Abri a porta para ir embora e uma nova onda de gritos agudos me deixou tonta.
Abrimos com dificuldade o caminho de volta, em meio à multidão de crianças
com rostos vermelhos de tanto berrar.
Pelo que pude entender, um grupo delas tomava vacinas BCG, e isso
contribuía para a perturbação geral.
Segui meu caminho com cuidado, através da aglomeração ensurdecedora,
carregando Kate em seu berço portátil.
Quando, dando graças a Deus, fechei a porta sobre a algazarra atrás de mim,
a última coisa que ouvi foi aquela pobre mulher gemendo: "Mesmo três minutos. Eu
me conformaria com três."
Então, tivemos de esperar um instante até chegar minha vez de ser atendida
pelo médico.
Li um exemplar de Woman's Own que datava de algum momento na virada do
século (crinolinas estão definitivamente out este outono). Kate dormiu um pouquinho.
Que gracinha de menina.
O médico era um velhote simpático. Terno cinzento, cabelos grisalhos,
maneiras vagamente gentis.
- Olá, ah, sim, Claire, sim, Claire e bebê, ahn, Catherine - disse ele, lendo as
anotações em sua escrivaninha. - Entre e sente-se.
Após um momento, ergueu os olhos para a cadeira diante de si e, como eu não
estivesse lá, seu olhar percorreu ansiosamente a sala, imaginando para onde eu
fora.
Eu colocara o berço de Kate no chão e estava por cima dele, na mesa de
exames, após tirar as calcinhas e colocar meus pés nos estribos, tudo com uma
velocidade que fez a cabeça do médico girar,
Velhos hábitos custam a ser abandonados.
Da próxima vez em que eu fosse ao médico, não importa quais os sintomas,
fosse dor de ouvido ou uma luxação no pulso, teria de fazer um esforço para me
conter, não arrancar as calcinhas e subir na mesa.
O médico fez o que costumava fazer, fosse o que fosse, envolvendo aquela
velha amiga minha: a luva lubrificada.
Lamento se estou sendo repugnante.
Realmente, tenho toda solidariedade pela maneira como você se sente.
Houve um tempo em que eu me sentia prestes a desmaiar só com a idéia de
fazer um exame preventivo.
Agora, após ter engravidado e dado à luz, acho que poderia submeter-me a
uma histerectomia apenas com anestesia local e ainda ficar sentada, alegremente
conversando com o cirurgião sobre o que vira na televisão, na noite da véspera.
Que diabo, por que me preocupar com a anestesia?
Mas esqueço que os outros não tiveram as mesmas experiências sofridas que
eu tive.
-Você se recuperou maravilhosamente - disse-me ele, como se isso fosse uma
grande realização.
-Obrigada - eu disse, satisfeita, sorrindo-lhe por entre minhas pernas.
Sentia-me como se tivesse cinco anos e todas as minhas contas de somar
estivessem certas, na escola.
-Sim, nenhuma complicação aí, absolutamente - ele continuou. - O
sangramento já parou?
(Desculpem, não vou continuar muito tempo falando disso.)
- Sim, parou há cerca de uma semana - disse-lhe eu.
-E os pontos cicatrizaram perfeitamente - disse ele, continuando a examinar e
cutucar.
-Obrigada - sorri novamente.
-Muito bem, pode descer agora - disse-me ele.
-Então, todo o resto está bem? - perguntou, enquanto eu me vestia.
-Ótimo - disse eu. - Ótimo.
-Ahn, quando posso tornar a fazer sexo? - deixei escapar de repente.
(Ora, por que perguntei isso?)
- Bem, suas seis semanas passaram, então a qualquer momento que quiser -
disse ele, cordialmente. - Poderia começar agora mesmo.
Atirou a cabeça para trás e gargalhou alto, depois parou abruptamente,
enquanto visões do Conselho de Medicina e moções para que ele fosse cassado
passavam pelo seu pensamento.
Há uma linha divisória muito fina entre um comportamento aceitável por parte
do médico para com sua paciente e uma insinuação obscena.
Talvez o Dr. Keating ainda não tivesse captado inteiramente a diferença.
Hum, hum - disse ele, acalmando-se. - Sim, a qualquer momento que quiser.
-Vai doer? - perguntei, ansiosa.
-A sensação, de início, pode ser um pouquinho desconfortável, mas não deve
causar propriamente dor. Peça a seu marido para ser especialmente cuidadoso com
você.
- Meu marido? - perguntei ao médico, surpresa. Eu nem sequer pensara em
meu marido.
-Sim, seu marido - disse ele, com igual surpresa na voz. - A senhora é casada,
não, Sra. ah, Sra. Webster? - perguntou ele, consultando suas anotações.
-Sim, claro, sou - disse eu, corando. - Mas estava, ah, sabe, apenas fazendo
perguntas de ordem geral. Não planejava, de fato, ter relações sexuais com
ninguém.
Pensei que, se dissesse a expressão "relações sexuais", em vez da palavra
"sexo", isto poderia ajudar a neutralizar aquela embaraçosa e constrangedora
atmosfera que parecia de repente ter-se criado.
- Ah - disse ele, com esforço.
Silêncio. A perplexidade do Dr. Keating pairava pesada no ar.
É hora de ir embora, pensei.
Vamos, Kate.
Fomos para casa.
- Como foi? - perguntou mamãe, quando abriu a porta para nós.
-Tudo ótimo - eu disse. - Ótimo. A enfermeira disse que Kate está ganhando
um bocado de peso.
-E como vai você? - ela perguntou.
-Aparentemente, não poderia estar melhor - eu disse. - Estou em condições de
primeira ordem. Tenho uma vagina de causar orgulho.
Mamãe me lançou um olhar de desagrado.
-Não precisa ser vulgar - repreendeu-me.
-Não estou sendo vulgar - protestei.
Meu Deus, se era vulgar, ela tinha muita prática no assunto.
-Venha tomar uma xícara de chá comigo, antes de começar a "Neighbours" -
disse mamãe.
-Hã, alguém me ligou enquanto eu estava fora? - perguntei- lhe, hã, muito
casualmente, enquanto caminhava atrás dela até a cozinha.
-Não.
-Ah.
-Por quê? Quem você estava esperando que ligasse? - perguntou ela, olhandome
atentamente.
-Ninguém - disse eu, pondo o berço de Kate sobre a mesa da cozinha.
-Então por que perguntou? - insistiu ela, com um tom de voz que me lembrou
que, embora agisse como tal, não era nenhuma tola.
- E tire a criança de cima da mesa! - disse ela, batendo com força em meu
braço com um pano de prato. - A gente tem de comer aí em cima.
- Ela está limpinha! - protestei, ultrajada. Como ela ousava?
Eu estava sempre lavando Kate.
Ela era inteiramente asséptica.
Não se conseguiria encontrar nela uma só bactéria.
Minha filha era uma zona livre de germes.
Então, Adam não me telefonara, refleti, enquanto bebia meu chá. Fiquei
imaginando se ele ainda estava aborrecido comigo.
Talvez não me telefonasse nunca mais.
Eu não o culparia.
Com aquele comportamento meu, tão neurótico, discutindo tudo.
E eu não tinha seu número de telefone, então não podia ligar para ele.
Assim, aquilo, provavelmente, era o fim de tudo.
O caso que nunca aconteceu.
A história da paixão que não se consumou.
As almas gêmeas separadas pelas circunstâncias.
Os amantes que se amavam a distância.
Embora, pensando bem, ainda não fosse sequer a hora do almoço. Vamos dar
uma chance ao cara.
Mas ele não telefonou.
Fiquei perambulando por ali a tarde inteira, sentindo-me entendida e
insatisfeita.
Não queria fazer nada.
Ler, nem se fala.
E Kate lamuriava-se e chorava, e eu não me sentia lá muito paciente com ela.
De má vontade, cuidei do banho da tarde com mamãe, porque não consegui
encontrar um bom motivo para apresentar a ela, a fim de não fazer isso.
Acho que preferiria sentar-me e ver vários dramas de terceira classe, com os
mesmos atores reaparecendo em cada programa sucessivo, do que entrar em outra
conversa com mamãe sobre como minha formação universitária provocara em mim
delírios de grandeza.
E ela sabia que algo estava errado.
- Você está com um ar triste - disse.
(Embora suas palavras verdadeiras fossem: "Claire, você é como uma árvore
sobre uma fonte abençoada.")
Por que diabo não deveria estar? - respondi asperamente.
Desculpe - disse ela. - Sei que não é fácil para você. Bem, ela estava
inteiramente certa, não é mesmo?
Mas referia-se, obviamente, à minha situação com James. E não à minha falta
de situação com Adam.
- Não, desculpe - disse-lhe eu, sentindo-me horrorosa, por deixá-la
preocupada.
Eram seis horas e a chave de papai estava na porta, quando percebi, com
horror, que não telefonara para James.
Droga, droga, droga.
Tivera realmente a intenção de telefonar, mas, por causa de todas as coisas
que estavam acontecendo - o grande evento de ir ao médico e o evento principal de
Adam não telefonar -, eu simplesmente esquecera por completo.
Resolvi que na manhã seguinte seria minha primeira providência.
O desastre que foi a hora do jantar afastou meus pensamentos das coisas por
algum tempo.
Helen veio para casa com papai e queria comida do Mac Donald's.
Não, Helen! - gritou papai. - McDonald's só em feriado.
Ora, que estupidez! - ela gritou em resposta. - Outras famílias, famílias
normais, recorrem a ele em dias comuns.
Como ela podia ser cruel.
Então, o resultado final foi que Helen acabou conseguindo o que queria, e
papai saiu dirigindo como um piloto do Long Prix, com uma longa e complicada lista
de pedidos para o McDonald's.
Helen rugiu atrás dele:
- Diga para não colocarem picles no Big Mac! Mas ele já partira.
Desavergonhadamente, grudei-me a Helen a noite inteira, com a esperança de
que ela dissesse alguma coisa sobre Adam.
Claro, eu pegaria o touro à unha e simplesmente perguntaria o número do
telefone dele, desde que ela não estivesse saindo com Adam nem nada parecido.
Mas, mesmo assim, não tive coragem de fazer isso.
Acreditara que ele não tinha nenhum interesse por ela.
Mas não estava segura, absolutamente, de como Helen se sentia quanto a ele.
Após o jantar que, a propósito, o pobre papai trouxera todo errado - picles na
torta de maçã da mamãe, cheeseburgers em vez de Big Macs com queijo (o que,
claro, deu lugar à acusação de "sovinice"), Coca Cola simples, em vez de Diet -
papai mandou Helen ir para seu quarto estudar.
Pobre papai.
Ele devia estar fazendo algum tipo de curso de auto-afirmação.
O que foi bastante surpreendente, porque Helen obedeceu, com o mais
superficial dos protestos.
Chamou papai de intolerável e fez alusões a uma semelhança entre o regime
da casa e o da Alemanha nazista.
Mas, assim mesmo, foi para o quarto.
Quase um milagre.
Dei-lhe alguns minutos e, depois, peguei Kate e ambas subimos e batemos em
sua porta.
Houve uma grande confusão. Ela parecia estar enfiando alguma coisa na
lateral da cama.
- Ah, meu Deus, Claire, não faça isso! Pensei que fosse papai! - exclamou ela,
com seus olhos grandes e arregalados no rosto pálido.
Recuperou uma revista chamada Crimes verdadeiros, ou algo parecido, do
espaço entre sua cama e a parede.
Você estuda qualquer coisa, algum dia de sua vida? - perguntei-lhe, curiosa.
Nãããão... - respondeu ela, com desdém.
E se você perder o ano? - perguntei-lhe, sentando me na cama.
Vamos, deixe-me carregá-la - disse Helen, tomando Kate dos meus braços. E
disse: - Não vou perder.
Como sabe?
Simplesmente sei - ela me garantiu.
Ah, meu Deus, se no meu tempo eu tivesse sua confiança.
- Então, como é a universidade? - perguntei-lhe, desejando que ela falasse
sobre Adam.
- Ótima - ela disse, parecendo surpresa com meu interesse. Não disse nada,
absolutamente nada, sobre Adam.
E, de fato, eu não podia, simplesmente não podia perguntar.
Então ouvi o telefone tocar.
Era a primeira vez naquele dia.
Saí da cama e desci a escada como um relâmpago lubrificado.
Graças a Deus não perguntei a Helen o número de Adam, parabenizei-me,
aliviada. Eu teria aberto o jogo inteiramente, e agora não havia nenhuma
necessidade!
- Alô - disse eu, tentando dar à minha voz um tom agradável, não-neurótico e
de quem se desculpa, tudo ao mesmo tempo.
Desculpe, Adam, jamais tornarei a ser mesquinha com você.
- Sim, alô, posso falar com Jack Walsh? - perguntou uma voz. Meu primeiro
pensamento foi: por que, pelo amor de Deus,
Adam queria falar com papai?
Mas, depois, percebi que não era Adam, absolutamente, quem estava ao
telefone.
Filho-da-puta!
Como ousava?
Fazer-me praticamente quebrar meu pescoço, descendo aquela escada
apenas para não ser ele, absolutamente.
- Sim, aguarde um pouco, Sr. Brennan. Vou chamá-lo para falar com o senhor -
disse eu.
E subi de volta a escada, arrastando me, no auge da infelicidade.
Muito mais devagar do que descera.
Voltei para o quarto de Helen.
Com o rabo entre as pernas, como era o caso.
Ainda tinha a maior necessidade dela.
Ela brincava com Kate e não parecia inclinada a comentar meu vôo de desafio
à morte pela escada abaixo.
Era uma das melhores coisas de se estar com alguém tão egoísta quanto
Helen.
Era muito raro ela notar alguma coisa que não estivesse acontecendo consigo
mesma.
Exatamente naquele momento Anna chegou e entrou no quarto, uma mistura
de cabelos flutuantes, saia bate-enxuga e aspecto distraído.
Fiquei encantada de vê-la.
Não nos cruzávamos desde algum dia da semana anterior.
Ela caminhou pelo quarto cor-de-rosa e fofo de Helen com as botas que
partiam o coração de mamãe, e sentou-se ao nosso lado na cama.
De sua bolsa (bordada, coberta de espelhos e contas), tirou cerca de cem
barras de chocolate e começou eficientemente a comer tudo.
Eu nunca vira nada igual àquilo.
Só poderia supor que, de alguma maneira, tinha relação com as drogas.
- Anna, você está com... hã... "fissura"? - perguntei, sentindo-me uma velha
careta e certinha.
Estava constrangida por usar uma gíria como "fissura".
Humm - ela fez um sinal afirmativo com a cabeça, emitindo o som através de
uma boca entulhada o máximo possível de choco late com passas e biscoitos. -
Hummmffff - ela gesticulou irada mente, quando Helen começou a rasgar os papéis
das barras e praticamente a cheirar tudo. - Consiga os seus próprios, Helen - ela
conseguiu afinal dizer, quando sua boca ficou momentaneamente vazia.
Dê-me apenas este Bounty e uma barra de Mintcrisp e não vou pegar mais.
Mentia, claro.
Anna concordou.
Pobre Anna.
Passei o resto da noite atirada na cama de Helen, comendo chocolate, ouvindo
pela metade a briga bem-humorada entre Helen e Anna, esperando que Adam
telefonasse.
Mas, adivinhe só o que aconteceu: ele não telefonou.
Não importa, disse a mim mesma, ele não disse que me telefonaria.
Com certeza telefonará amanhã.
Sem dúvida, telefonará dentro dos próximos dias, tentei confortar a mim
mesma.
É óbvio que ele realmente gosta de você.
Mas, por baixo de toda a minha bravata, eu sabia que ele não me telefonaria.
Não sei como, mas simplesmente sabia.
É óbvio que minha capacidade para pressentir coisas negativas melhorara
levemente desde que James me deixara.
O pouquinho de prática que eu adquirira deve ter ajudado.

CAPÍTULO 17
Laura apareceu, no domingo à tarde, e nos descontraímos bebendo chá,
comendo biscoitos de chocolate recheados (os de Michael) e brincando com Kate.
Brincar com Kate consistia, principalmente, em alimentá-la, botá-la para arrotar
e trocar suas fraldas.
Laura usava uma camiseta suja e manchada de tinta que supus pertencer ao
seu amante adolescente.
Ela parecia jovem, contente e feliz.
Tinha bons motivos.
Fizera sexo quatro vezes na noite anterior, histórias com as quais ela tentava
divertir-me, mas não parávamos de ser interrompidas por mamãe ou papai.
- Alguma notícia de James? - perguntou, tendo desistido da idéia de passar a
tarde falando de coisas picantes, após papai sair da sala pela vigésima vez.
Ele entrou, fez um cumprimento com a cabeça para Laura e começou a tirar as
almofadas do sofá e arredar as poltronas, resmungando alguma coisa sobre o fato
de não ter lido o Independent - se Helen o tivesse levado, ele a mataria.
E já que era ele quem pagava os jornais, então por que era o único que não
conseguia lê-los?
Voltou cerca de três minutos depois para ver se o fogo acendera direito e teve
uma grande discussão, principalmente consigo mesmo, sobre os méritos do carvão
fóssil.
("Aquece melhor, embora custe mais caro.")
Laura e eu apenas ficamos sentadas ali, enroscadas no sofá, Kate no colo de
Laura, e todas nós, até Kate, com um ar entediado, enquanto esperávamos que ele
terminasse sua diatribe e saísse.
Logo que saiu, chegou mamãe, em teoria para nos oferecer chá, mas na
prática para ver se eu tinha trazido escondido os bolos Jaffa. Perguntou pelo pai de
Laura.
- Geoff Prendergast é um homem maravilhoso - disse a Laura. - A quem você
terá puxado?
Depois, mamãe saiu, levando os bolos Jaffa.
Alguma notícia de James? - perguntou Laura novamente, enquanto a porta da
sala de estar tornava a se fechar.
Ele está fora - disse eu, sumariamente. - Mas vou telefonar- lhe amanhã.
Não queria falar sobre James.
Pelo menos, não naquele momento.
Estava cheia daquilo.
De esmiuçar repetidas vezes toda a história, tentando entendê-la,
preocupando-me com o que fazer.
Como dizem em Nova York: "Supere isso e, se não puder superar, supere o
vício de falar a respeito."
Sábio conselho.
Laura ficou na casa por mais de uma hora, antes de abordar o assunto Adam.
Fiquei pasma por ela ter demorado tanto.
Então, qual é a história entre você e o jovem Lochinvar*? - perguntou ela, de
modo totalmente casual, enquanto massageava as costas de Kate em movimentos
circulares.
Quem? - perguntei. Deliberadamente obtusa.
O lindo Adam - disse ela, com leve irritação.
Que é que tem ele? - perguntei.
Bem, antes de mais nada, ele é louco por você e, depois, é absolutamente
lindo. Se fosse uns cinco ou seis anos mais jovem, tal vez eu mesma me
interessasse.
Laura, ele não é louco por mim - protestei.
Claro que só disse isso para que Laura insistisse que Adam era de fato louco
por mim, para eu poder ter novamente aquela quente e deliciosa sensação em meu
estômago.
* Lochinvar: galã mencionado no poema Marmion, do autor escocês Sir Walter Scott (1771-1832).
Ele é louco por você - repetiu ela. - E, além do mais, você sabe disso muito
bem.
Mas, e daí? - perguntei. - Mesmo que ele seja louco por mim, se bem que não
temos nenhuma prova disso, o que acha que devo fazer?
Coma ele! - disse ela.
Aquela não tinha um pingo de vergonha.
Laura! Pelo amor de Deus, sou casada! - berrei para ela.
Ah, sim? - perguntou ela, com ar de superioridade. - E onde está seu marido?
Fiquei calada.
Claire - disse ela, afetuosa, após ficarmos sentadas em silêncio durante cinco
tensos minutos. - Tudo o que estou dizendo é que ele é um belo homem e parece
realmente gostar de você. Você passou por um período difícil e, mesmo se as coisas
finalmente tornarem a funcionar com James, talvez, enquanto isso, você devesse se
divertir um pouquinho.
O que está acontecendo por aqui? - perguntei. - Todo mundo me encoraja a ter
um relacionamento com Adam. Até minha própria mãe!
Sua mãe lhe disse para comer Adam? - gritou Laura, pasma.
Bem, não exatamente com essas palavras - disse eu. - Mas foi o que ela quis
dizer.
Então, o que está detendo você? - perguntou Laura, encantada. - Você tem a
bênção de sua mãe. É um excelente augúrio.
Pensei, por alguns momentos.
É - suspirei. - Acho que devia.
O quê?! - bradou Laura. - Está falando sério?
Pelo amor de Deus - ergui minha voz para ela. - Não é exatamente isso que
você me diz para fazer?
Eu sabia que isso aconteceria. Tinha certeza.
As pessoas estão sempre encorajando-se mutuamente a fazer coisas que
sabem que a outra pessoa não fará. E, depois, levam o maior choque quando a
pessoa realmente faz.
Eu mesma sou culpada disso.
Anos a fio, encorajei papai a comprar para ele uma calça jeans.
- Honestamente, papai, ficaria linda em você - dizia eu, mui tas vezes.
E papai respondia:
Ah, deixe disso, estou velho demais.
Não, papai, não está.
No dia em que papai apareceu usando uma Wrangler azul-marinho, dura como
uma tábua, com a bainha uns 20 centímetros dobrada para cima, sorrindo entre
tímido e orgulho, o choque quase me matou.
Sim, eu sei - disse Laura, parecendo um pouquinho aborrecida. - Mas é que
parece que isso combina muito pouco com você. Quero dizer, você é sempre tão
leal.
Laura, dificilmente se poderá achar que serei desleal com James se transar
com Adam, não é? - perguntei-lhe, amável.
Pude ver como ela estava chocada.
Embora eu tivesse um verniz de avançada, fora sempre Claire, a Constante.
Meu verniz de devassidão era fino como uma folha de papel, praticamente
transparente, na verdade.
Fiz o jogo do "vamos nessa" mais vezes do que desejo mencionar, mas meu
coração não tomava parte.
Sempre quis ser uma chata, instalada com um homem, mas fiz o maior esforço
possível para esconder isso, porque era considerada a coisa mais insultante que se
pode dizer de alguém - que ela só quer mesmo se instalar com um homem.
Poucas pessoas sabiam meu vergonhoso segredo.
- Claire, você gosta desse tal de Adam? - perguntou ela, preocupada.
Eu me divertia notando que Adam passara de "o lindo Adam" para "esse tal de
Adam" numa questão de minutos.
Claro que tenho uma paixonite por ele - disse-lhe eu, rindo do seu horror. - Ele
é delicioso, ou você não notou?
Bonito, concordo - disse ela, cautelosamente. - Mas o que você sabe a respeito
dele?
Sei que ele é legal e me faz sentir inteligente, bonita e desejável.
Claire, não se esqueça de que você está muito vulnerável neste momento.
Você está convalescendo.
É mesmo? - perguntei. Achei que minhas palavras soavam muito astutas.
De qualquer jeito - perguntei novamente, com grande curiosidade -, o que faz
você? Primeiro, me encoraja a ter um caso com ele e, depois, quando digo que sim,
começa a criticar meu comporta mento?
Desculpe, Claire - disse ela, com humildade. - É isso mes mo que estou
fazendo. Foi apenas porque pensei que podia ser bom para seu ego saber que ele
se sente atraído por você. Mas não pensei, nem por um segundo, que você tomaria
mesmo qualquer atitude. A tal ponto você é o tipo da mulher de um homem só, que
me choquei um pouco.
Laura, no momento sou mulher de homem nenhum - lembrei-lhe.
Eu sei, mas você ama tanto James que... Não sei... Não imaginei que
pensasse em qualquer outra pessoa.
As coisas mudam, as pessoas mudam - eu disse. - Não sei mais como me
sinto a respeito de James. Só sei que é maravilhoso estar com Adam.
Laura recompôs-se, de repente.
- Bem, se é assim, você não poderia escolher melhor pedaço de homem para
ter um caso. Ele é tão bonito. E tão simpático. Inteligente também - acrescentou,
como um segundo pensamento.
Isso era bom, vindo de Laura, que geralmente está mais preocupada com o
órgão entre as pernas do homem do que com a massa entre suas orelhas.
E é melhor começar a treinar - sorriu ela. - Não lhe prescreveram exercícios
para melhorar o tônus muscular? Ginástica pélvica ou coisa parecida. Sexo com
Adam não deve ser brincadeira.
Obrigada, Laura - disse eu, secamente. - Você me faz parecer um peixe na
rede.
Depois que Laura foi embora, não consegui sossegar. Não havia ninguém por
perto. Anna fizera outro dos seus números de desaparição. Helen, aparentemente,
estava na casa de Linda. Embora eu estivesse satisfeita com isso.
Sentia-me tão culpada com relação a Adam, que não creio que pudesse
encará-la.
Tinha a convicção de que Adam não era seu namorado.
Mas talvez fosse uma boa idéia tentar certificar-me disso, por via das dúvidas.
Mas sentia que não agüentaria enfrentar o fato de que ele era mesmo
namorado dela. Porque, o que pensaria eu dele, se fosse verdade?
Que era algum tipo de maluco que se divertia destruindo lares, colocando uma
irmã contra a outra e separando famílias?
Se Adam fosse namorado de Helen e ela descobrisse que eu me encontrava
com ele, nós dois combinando tudo, e não apenas uma vez, mas duas, então o
maior massacre da história da Irlanda pareceria uma manhã de Natal, em
comparação com o banho de sangue que sem dúvida se seguiria.
Acaso eu me sentia desleal com Helen por me encontrar com Adam?
Sim, claro que sim.
Mas não muito.
Se Adam fosse o namorado de Helen, então eu recuaria imediatamente e não
teria mais nada a ver com ele.
Esse detalhe era fácil de decidir.
Mas, e se Adam não fosse o namorado de Helen, e esta o desejasse?
Bem, se Adam a desejasse também, então se aplicaria o mesmo princípio de
antes: eu recuaria imediatamente e nada mais teria a ver com ele.
Mas, se Helen desejasse Adam e Adam não desejasse Helen e se, delicioso
pensamento, Adam me desejasse, então, como seria?
Essa era dura.
Eu amava Helen.
Sabe Deus o motivo, mas amava.
E não queria fazer nada que a desgostasse.
Não, realmente não queria.
E não apenas porque eu tinha medo dela.
A melhor coisa que eu podia fazer era conversar com ele a respeito de tudo
isso.
Simplesmente perguntar-lhe, de forma direta, o que havia entre ele e Helen.
E, se houvesse uma história, passar então para uma nova fase de
preocupação.
A conclusão final foi a de que, se eu não me arriscasse, nunca saberia.
Jamais me imaginara dizendo isso, mas a vida realmente é curta demais.
Devemos agarrar nossas oportunidades com as duas mãos.
E era isso que eu faria com Adam.
É isso mesmo, você me ouviu direito, o duplo sentido está aí - vou agarrá-lo
com as duas mãos.
- Meu Deus, Claire - mamãe reclamou, quando mudei mais uma vez o canal da
televisão. - O que há de errado com você? Não pode ficar sentada quieta? Parece
até que está com uma pulga na calcinha.
- Desculpe, mamãe.
Exatamente naquele momento, o telefone tocou.
Meu Deus, Claire, meu pé! - ganiu papai, como um cachorro com a cauda
presa numa porta, quando corri para atender e esmaguei vários dos seus
metatarsos.
Alô - arquejei para dentro do fone.
Alô, seu pai está aí? - perguntou uma voz arrastada do outro lado do fio.
- Papai - chamei. - Papaaai! É a tia Julia, para você. Droga, pensei.
Isso significava que papai ficaria no telefone durante horas.
Era impossível tirar tia Julia do telefone, quando ela ligava bêbada.
Geralmente, ela ligava para se desculpar por ter feito algo como trapacear num
jogo de beisebol - um jogo que ocorrera há mais ou menos uns 45 anos.
Por que estaria eu querendo tanto o telefone livre, imaginei, desviando-me
lepidamente de papai, que passou por mim manquejando, mal-humorado, a caminho
do fone?
Alguém dissera que me telefonaria?
Estaria eu esperando algum telefonema?
Não, definitivamente não.
Mas um cálido brilho de esperança dentro de mim pensava que talvez, apenas
talvez, Adam telefonasse.
Ele não dissera que o faria.
Mas eu sentia que talvez o fizesse.
Sentei-me no vestíbulo para bisbilhotar sem a menor vergonha a conversa de
papai com tia Julia.
Em geral, era uma escuta interessante, embora levemente bizarra. Quanto
tempo demoraria aquela conversinha?
- Agora, Julia, escute o que digo - falou papai, agitado.
Ah, meu Deus, deve ter sido um jogo muito importante, para ele ficar tão
perturbado.
- Molhe uma toalha e jogue em cima imediatamente! - ele rugiu ao telefone.
Ah, Deus do céu, pensei, ao perceber que tia Julia estava apenas tentando
destruir sua casa com um incêndio e não telefonava para uma longa conversa à toa,
cheia de remorso e desculpas.
- Não, debaixo da torneira, Julia, debaixo da torneira! - berrava papai.
Com que intuito teria ele proposto molhar a toalha? Melhor não pensar a
respeito.
- Agora, Julia, vou desligar o telefone, e você vai fazer a mesma coisa - disse
papai, lenta e cuidadosamente, como se falasse com uma criança de quatro anos. E
vai discar 999 e chamar o corpo de bombeiros. E depois me telefonará novamente, e
me dirá o que fez, e se eles já estão a caminho.
Bateu violentamente o telefone e se apoiou na parede.
-Meu Deus - disse, com um aspecto exausto.
-O que ela fez agora? - perguntou mamãe, que aparecera no vestíbulo.
De alguma forma, incendiou uma das bocas do fogão e o fogo se espalhou -
suspirou papai. - Meu Deus, será que isso vai terminar algum dia?
O telefone tocou.
-Deve ser ela ligando novamente - disse papai, enquanto mamãe atendia.
-Alô - disse mamãe.
E então seu rosto mudou.
- Sim, ela está aqui. Quem quer falar, por favor? É Adam, para você - disse ela,
entregando-me o receptor com o rosto sem nenhuma expressão.
- Ah - disse eu, pegando o receptor de sua mão, cheia de alívio. Era isso que
eu estivera esperando a noite inteira, sem ter cons ciência.
-Alô - disse eu, encantada, mas tentando esconder isso, na frente de mamãe e
papai.
-Claire - disse ele, com sua linda voz. - Como vai você?
-Estou ótima - disse eu, um tanto desajeitada. Mamãe e papai ainda estavam
em pé no vestíbulo, ambos olhando para mim.
-Sumam! - sussurrei para eles, agitando meu braço livre.
-Estamos diante de uma maldita emergência! - bradou papai. - Saia desse
telefone!
-Dentro de um minuto - disse-lhe eu.
- Mas só um minuto - respondeu ele, ameaçador. E então os dois saíram.
-Desculpe - disse eu a Adam, enquanto mamãe e papai volta vam a
contragosto para a sala de estar. - Uma pequena crise em família.
-Estão todos bem? - perguntou ele, ansioso.
-Ótimos - disse eu.
Quem se sentia ansiosa agora era eu. Estaria ele preocupado por causa de
Helen? De sua namorada Helen?
- Claire - continuou ele -, espero não estar incomodando você com meu
telefonema. Quero dizer, não quero que você sinta que estou incomodando o tempo
todo. Se for o caso, basta me dizer que eu paro.
Me incomode o quanto quiser, pensei.
- Não, Adam, claro que não me incomodo que você me telefone. Gosto de falar
com você.
- Ótimo - ele disse. Podia ouvir o sorriso em sua voz. Sentei-me no chão e
comecei a me preparar para uma hora, aproximadamente, de conversa agradável.
Quando fiz isso, ouvi o ruído da chave de alguém na porta da frente.
Ah, meu Deus - eu disse, quando ouvi Helen berrar:
Estou em casa. Quero comida! Senão denuncio vocês por negligência.
-Que é isso? - perguntou Adam.
-Helen está aqui - eu disse.
-Ah, é ela? Diga que mandei lembranças.
-Não vou dizer, não - disparei eu.
-Por quê? - perguntou ele, com voz chocada.
Helen passou por mim no vestíbulo. Piscou o olho e me deu um sorriso
encantador.
- Oi, Claire, suas botas são lindas - disse ela, e seguiu em frente. Algumas
vezes, em geral quando menos espero, ela pode ser tão doce e encantadora que eu
tenho vontade de matá-la.
- Por quê? - perguntou Adam, novamente.
Agora é hora de esclarecer essa coisa de uma vez por todas, decidi.
Se Adam está colocando a mim e a minha irmãzinha no mesmo saco, então é
minha chance de acabar com isso.
Estava começando a botar fumaça pelo nariz.
Aquela maldita cara-de-pau dele.
Só porque é extremamente bonito acha que pode sair por aí tirando casquinhas
de todas nós, pensei, recorrendo a um dito favorito meu, e que rapidamente me
levou a uma fúria hipócrita.
- Ouça, Adam - disse eu, bruscamente, logo que pude ouvir Helen, mamãe e
papai discutindo na sala de estar e sabia que era seguro falar. - Não sei realmente
como perguntar isso. Na verdade, nem mesmo sei o que deveria dizer.
- Pelo amor de Deus, o que é? - perguntou ele, veemente. Vá adiante, fale com
ele, encorajei a mim mesma.
Você tem todo o direito de saber.
Mas eu já começava a perder minha coragem.
- Ouça, talvez não seja da minha conta, mas você é namorado da Helen? -
consegui, finalmente, perguntar.
Seguiu-se um silêncio.
Ah, meu Deus, pensei. Ele está mesmo saindo com Helen. E estava apenas
sendo bonzinho comigo porque sou à irmã mais velha rejeitada de Helen. E agora
ele sabe que estou interessada nele.
Droga, droga, droga. Deveria ter mantido fechada minha boca idiota.
Arruinei tudo, porque não tenho nenhuma paciência.
-Claire - ele disse, finalmente, com a voz cheia de pasmo -, do que diabo você
está falando?
-Você sabe - eu disse. Sentia-me uma perfeita idiota, porém bem mais aliviada.
-Não - ele disse, com uma voz um tanto fria. - Eu não sei.
-Ah - disse eu, realmente constrangida agora.
-Então, você pensa que sou namorado de Helen? - perguntou ele, impassível.
-Bem, achei que podia ser... - respondi, mortificada.
-E exatamente o que você pensava que eu fazia, perguntando se podia me
encontrar com você? - continuou ele, agora quase com desprezo na voz. - E então?
- cobrou, enquanto eu permanecia em silêncio. - Ou você pensa que sou
extremamente grosso ou extremamente cínico - disse ele. - E não tenho certeza com
qual das duas coisas estou mais ofendido.
Mesmo assim, eu não disse nada. Principalmente porque não sabia o que
dizer. Sentia-me terrível.
Adam tinha sido sempre tão decente e respeitoso comigo. Eu não tinha
nenhuma prova de que ele tivesse o que quer que fosse a ver com Helen.
Eu o magoara por duvidar das suas intenções.
-Claire - disse ele, parecendo exausto. - Claire, Claire, Claire, ouça. Não sou
agora, nem jamais fui, no passado, namorado de sua irmã Helen. E também não
quero ser. Ela é uma moça ótima - ele acrescentou, apressadamente -, mas não é
para mim.
-Ouça, Adam - gaguejei. - Sinto muito, realmente, mas não sabia...
-Também sinto - disse ele. - Esqueço o tempo todo o que você passou. Você
foi muito magoada. Quem poderia culpá-la por pensar que somos todos uma porção
de filhos da puta, com duas caras?
Meu herói, pensei, derretendo - me toda.
Eu estava com essas frases na ponta da língua. Ele me salvara do suplício de
dizê-las a ele e me arriscar. Que sujeito!
Como podia estar tão identificado com o que eu sentia? Talvez ele seja um
transexual, pensei, alarmada. Provavelmente, este é seu grande segredo sombrio.
Que ele nasceu mulher. Ou é uma mulher aprisionada num corpo de homem - e que
corpo de homem!
-Claire - ele continuou, arrancando-me da especulação sobre sua sexualidade.
- Não sei que tipo de impressão você formou de mim, mas, obviamente, não é a que
eu esperava.
-Não... Adam... - protestei fracamente. Tinha tanta coisa para dizer e não sabia
por onde começar.
-Dê-me apenas um minuto - disse ele. - Apenas ouça o que vou dizer. Está
bem?
Sua voz soava tão honesta e juvenil, como poderia eu resistir?
-Claro - disse eu.
-Tenho uma porção de amigas mulheres, mas não entro muitas vezes nessa de
romance. Praticamente nunca, na verdade. Bem, praticamente nunca, em
comparação com as outras pessoas do meu ano na universidade, mas talvez,
apenas, elas sejam especialmente prolíficas.
-Isso é ótimo - eu disse, ansiosa para que ele agora calasse a boca.
Você não precisa explicar nada para mim, desejei dizer-lhe.
Eu sabia agora que ele não era namorado de Helen, e isso já era o bastante
para me animar a ir em frente.
Sentia-me mortificada por causa das minhas maneiras teatrais e das
acusações anteriores. Agora, queria apenas esquecer aquela coisa toda.
Pobre sujeito!
Só me conhecia há alguns dias e já tivéramos várias briguinhas.
Que diabo o fazia pensar que eu era digna de tanto incômodo?
Mas, antes que eu começasse a pensar nisso, papai reapareceu no saguão,
com um rosto que parecia uma tempestade.
-Claire! - gritou. - Saia do telefone, AGORA!
-Você tem de desligar? - perguntou Adam.
-Tenho - eu disse. - Sinto muito.
Não queria terminar a conversa até saber que tudo estava bem. Que Adam não
estava aborrecido comigo por eu pensar que ele era algum tipo de Lotário, destruidor
de lares. *
* Lotário [Lothario]: libertino que seduz a heroína Calista em The Fair Penitent, do poeta e dramaturgo
inglês Nicholas Rowe (1674-1718).
Também não deixaria de me agradar algum tipo de indicação de que, além de
não desejar um romance com Helen, como ele tão delicadamente colocara, ele
poderia desejar ter um romance comigo.
Como diria mamãe, eu queria ficar numa boa.
-Ah, quase me esqueci por que liguei para você - ele disse.
-Por que foi? - perguntei eu.
Diga-me que você realmente se sente atraído por mim. Vá em frente, diga,
diga, eu o instiguei, silenciosamente.
-Há um bom filme às onze horas. Tenho certeza de que você gostaria dele.
Não deixe de vê-lo, se não estiver muito cansada.
-Ah - eu disse, perdendo inteiramente o pique. - Bem, obrigada.
Um maldito filme! Pelo amor de Deus!
- Vejo você em breve - disse ele.
Não, espere, desejei gritar, não desligue já, já. Converse comigo por mais um
minuto. Dê-me seu número de telefone, para eu poder ligar para você. Posso vê-lo
amanhã? Ou melhor, amanhã, não, posso vê-lo esta noite?
- Claire! - papai rugiu ameaçadora mente da sala de estar.
- O.K., tchau - disse eu, desligando. Sentindo-me, entre outras coisas,
completamente exausta. Houve um surto de desordem na sala de estar, no
momento em que o telefone foi desligado.
Papai e Helen brigavam à porta.
Papai queria falar logo com tia Julia, para ver se o incêndio estava sob
controle.
Enquanto Helen tinha outros planos para o telefone.
Tenho de telefonar para Anthony - ela gritou. - Preciso de uma carona para
Belfast, na terça-feira.
Bem, o incêndio da tia Julia é mais importante - insistia papai.
Deixe a casa dela ser destruída pelo fogo - disse Helen. - Isso vai servir de
lição para ela. O álcool.
Caridosa até o fim, Helen é assim. Afastei-me da batalha pelo telefone.
Fui para o andar de cima e levei o berço de Kate para o quarto de mamãe.
Sentei-me para ver o filme recomendado, na pequena televisão que havia ali.
Era o mínimo que eu poderia fazer, depois de ter sido tão mesquinha com
Adam.
E seria capaz de discutir o filme com ele, da próxima vez em que o
encontrasse.
Se houvesse uma próxima vez.
Fui para o andar de cima e levei o berço de Kate para o quarto de mamãe.
Sentei-me para ver o filme recomendado, na pequena televisão que havia ali.
Era o mínimo que eu poderia fazer, depois de ter sido tão mesquinha com
Adam.
E seria capaz de discutir o filme com ele, da próxima vez em que o
encontrasse.
Se houvesse uma próxima vez.

CAPÍTULO 16
O dia seguinte trouxe-me a percepção clara e definida (não que eu já não
tivesse notado) de como minha vida se alterara para sempre, por ter tido Kate.
Principalmente uma das áreas mais importantes da minha vida.
Falo, claro, da área das compras.
Minha antiga vida de consumidora fora-se para sempre, como o orvalho matinal
ao sol do meio-dia.
Fim daquela história de entrar correndo numa loja de roupas, escolher nos
cabides mais ou menos trinta peças e depois, calmamente, passar seis horas ou
mais experimentando tudo na cabina, admirando-me.
Nada disso!
Você ficaria de queixo caído com a diferença que faz ter uma criança amarrada
à sua frente.
A facilidade de movimentos fica bastante reduzida.
Para não mencionar o medo terrível que eu tinha de que alguém esbarrasse
em Kate e a machucasse.
Ou, pior ainda, a acordasse.
Não fora tão ruim naquele dia no supermercado, onde mães civilizadas e
serenas deslizavam através dos espaçosos corredores. Confiava que elas não me
dariam encontrões nem esbarrariam em Kate.
Mas agora tratava-se de um sábado à tarde, numa loja de roupas, pelo amor
de Deus!
Aquelas moças que estavam ali comprando com certeza eram mercenárias de
folga do serviço de derramamento de sangue e tumulto, em algum lugar como a
antiga Iugoslávia.
Barra pesada, sabe. Uma loucura.
Eu não podia relaxar e simplesmente procurar alguma coisa para usar.
Tinha tanto medo de que Kate levasse uma pancada na cabeça, ou uma
cutucada em suas frágeis costelinhas, de algum demônio de compradora tentando,
por todos os meios possíveis, alcançar um vestido.
De qualquer jeito, eu mal sabia o que procurava, já que perdera tão
inteiramente minha identidade.
Fiquei em pé à porta de uma loja, um pouquinho aturdida, desviando-me e me
abaixando repentinamente diante das clientes que passavam, imaginando se eu
fazia o tipo jovem, de jeans e suéter, ou adulto, o tipo de saia até o tornozelo e
colete.
Quero dizer, quem era eu, agora?
Fazia tanto tempo que não comprava roupas de verdade.
Que não fossem macacões de gravidez, quero dizer.
Ou que não tivessem cinturas extensíveis e ajustáveis, de velcro. Ou
quilômetros e quilômetros de tecido.
De fato, fazia apenas uma semana desde que eu voltara a usar calcinhas
normais.
Deixe-me explicar.
Talvez você não saiba, mas não se volta à vida normal e, o que é mais
importante, às roupas normais, no momento em que se dá à luz.
Não, de jeito nenhum!
Demora muito tempo, antes que cessem certos processos corporais. Não
quero usar um tom desnecessariamente sangrento aqui, mas basta dizer que Lady
Macbeth é pinto.
Não venha falar comigo de sangue em toda parte, dona!
E, por causa disso, precisei usar aquelas engraçadas calcinhas tipo malha de
papel. Eram horríveis e imensas.
Com prendedores nas axilas.
Mas estou feliz de anunciar que, semana passada, voltei às calcinhas normais.
É isso aí, repito: voltei às calcinhas normais.
E o resto das minhas roupas?
Eu não era mais uma mulher grávida.
Era apenas uma mulher.
Então, o que usaria?
Tinha tão pouca coisa para me definir, agora.
Demoraria séculos até eu voltar ao emprego, então não precisava comprar
roupas para trabalhar.
Não tinha sequer isso para me guiar.
Fazia compras apenas para mim mesma.
Quem quer que eu fosse.
Peguei alguns vestidinhos num cabideiro e fui empurrando as hordas de
pessoas para chegar ao provador, praticamente curvada por cima de Kate, para
protegê-la.
Um novo choque me aguardava.
Onde, pelo amor de Deus, poria Kate?
Ela não era exatamente uma sacola de academia, que você apenas atira no
chão e não se incomoda se alguém ficar em cima dela.
Uma rápida meia-volta e retornei para o lugar de onde havia saído, abrindo
caminho através da massa com a cabeça abaixada e investindo para a frente, de
maneira que parecia um pouquinho com um touro.
Comprei uma porção de coisas, de qualquer jeito, mesmo sem ter
experimentado nada. Eu precisava comprar alguma coisa.
Afinal, tinha uma reputação a manter.
Houve um tempo em que meu nome era uma lenda entre as Mulheres Que
Compram.
Um tempo em que não havia coisas como escolher entre o par preto e o par
verde. Não existiam coisas como ficar em pé, angustiada, com o indicador
pressionado contra meu rosto, a testa franzida, numa consternação infantil.
Nada disso, eu comprava os dois pares.
E, além da questão de manter minha reputação, eu não tinha absolutamente
nada para usar. E precisava impressionar um homem.
Paguei tudo com o cartão de crédito.
Ou suponho que deveria dizer que James pagou.
Fiquei inteiramente pasma porque o alarme não disparou, quando a funcionária
me entregou os pacotes, passando os sobre o balcão, nem policiais e cães enormes
entraram correndo na loja e me arrastaram para fora.
Porque tinha certeza de que gastara quilômetros acima do limite.
Depois da minha compra um tanto desanimada, embora prolifera, saí para me
encontrar com Adam, que era, afinal, meu verdadeiro motivo para vir à cidade.
Para ser perfeitamente honesta, as compras foram apenas um pretexto.
Uma astuta manobra.
Fui seguindo com dificuldade pela rua, os braços protetoramente em torno de
Kate.
Ondas sucessivas de transeuntes vinham em minha direção.
Toquem em minha filha e mato vocês, pensei ferozmente, olhando com raiva
para todos.
Que, em sua inocência, pareciam muito surpresos e assustados.
Além da ansiedade quanto à possibilidade de Kate se machucar, tomei
consciência de outra sensação engraçada em meu estômago.
Indigestão?
Com um curioso choque, percebi que a sensação engraçada era de borboletas.
Borboletas que dançavam uma quadrilha em minhas entranhas. Obviamente,
tinham empurrado para trás as mesas e cadeiras e faziam tudo em grande estilo.
Dando os braços, rodopiando, levantando as pernas para o alto, soltando gritos de
alegria e trocando de par, revivendo, em suma, uma euforia de antigamente.
Ah, meu Deus, pensei, com a percepção tornando-se clara, então é oficial.
Estou interessada em Adam.
Ou deveria dizer: ESTOU INTERESSADA EM ADAM!!!!!!!!!
Será que as trombetas celestiais deveriam ter tocado? Deveria eu ver o mundo,
de repente, cor-de-rosa? Deveria eu ter de caminhar ou na verdade correr pelo resto
do caminho e, no final, encontrá-lo em câmera lenta? E ser lentamente abraçada por
ele, nós dois girando interminavelmente e sorrindo como alegres idiotas?
Mas não: sendo eu, tinha de marchar direto para a preocupação.
Relutante, arrastei os pés pelo resto do caminho, com a cabeça trabalhando
em alta velocidade.
Por que tinha de sentir essa paixonite por ele?
Que tipo de pessoa era eu?
Eu amava James e fazia apenas seis semanas, bem, quase sete, desde que
tínhamos rompido, então não deveria eu ainda me manter fiel a ele?
Eu me sentia muito desleal.
Mas por que diabo deveria me sentir?
James divertia-se; por que eu não deveria fazer o mesmo?
Mas não era assim tão simples.
Nunca consegui fazer sexo sem me envolver emocionalmente.
Mas, novamente, quem falou alguma coisa sobre fazer sexo?
Ah, meu Deus!
Estava tão perturbada.
Não conseguia entender tantos sentimentos diferentes.
Tão confusa.
Estava, sim, atraída por Adam. Mas me sentia muito culpada a respeito, porque
isso, a meu ver, me tornava uma pessoa muito fútil, quando se supunha que eu
continuasse apaixonada por James.
Mas estaria eu apaixonada por James?
Tinha medo de pensar nisso. Era um assunto sério demais para minha cabeça
naquele momento.
E então me senti zangada com James. Por que eu não podia flertar com Adam
e me divertir um pouco?
Mas, então, sentia-me novamente culpada, porque Adam era uma pessoa, uma
boa pessoa, e merecia coisa melhor do que ser tratado por mim como uma espécie
de bálsamo para o ego.
Um pouco como ir ao cabeleireiro.
Ou depilar as pernas.
E, depois, fiquei novamente zangada, porque não pensava em Adam dessa
maneira. Sentia uma emoção verdadeira ao conversar com ele e estar em sua
companhia. Embora só o conhecesse há poucos dias.
O que me levava claramente de volta à pergunta de como eu poderia estar com
uma paixonite por alguém que só conhecia há poucos dias, quando ainda amava
James.
Ah, mas que droga, pensei, desesperada.
Tinha de esvaziar minha cabeça desses pensamentos inquietantes. Não
poderia lidar com eles, naquele momento. Estava prestes a me encontrar com o
homem pelo qual me sentia atraída, portanto tinha de me preocupar com coisas
inteiramente diferentes.
Como, por exemplo: será que estava com boa aparência?
Ou será que ele se sentia atraído por mim?
E o que faria eu, a fim de levá-lo para a cama?
Coisas importantes.
Endireitei os ombros e me preparei para Adam.
Vi-o em pé na frente da cafeteria onde eu deveria encontrá-lo.
Meu estômago deu um pequeno salto.
Ele estava tão bonito.
- Olá - ele sorriu. - Você está apenas quinze minutos atrasa da. Obviamente,
está desenvolvendo uma tendência para isso.
- Cale a boca - sorri. - Desculpe. Era maravilhoso estar com ele.
- Alô, anjo - disse ele, olhando para Kate, acomodada na pequena mochila a
que, por motivos óbvios, chamam "canguru".
Embora eu preferisse pensar que ele apenas usava isso como desculpa para
olhar meus peitos.
Kate não disse nada.
E entramos para tomar café, abrindo caminho a cotoveladas através das
hordas de gente agitada.
Era sábado à tarde e a loucura estava à solta.
Era como se as pessoas sofressem de algum tipo de doença mental.
A síndrome das compras ou algo parecido.
Tenho certeza de que existe um complicado nome médico para isso.
Suponho que deva ser algo parecido com o Mistral que desce de vez em
quando sobre as vilas de... será da Itália? Todos os homens batem em suas
mulheres, os cães uivam, as galinhas não põem ovos e as mulheres gritam e
choram (bem, muito justo - afinal, estão sendo espancadas pelos maridos) e se
recusam a fazer qualquer trabalho doméstico.
Como se toda a vila de repente sofresse de TPM e um estranho veneno
destruísse as colheitas.
A loucura do Mistral é café pequeno, em comparação com o alvoroço daquela
particular tarde de sábado.
Certa vez, li que as compras surtem um imenso efeito sobre os níveis de
adrenalina.
Fazem subir o nível da pressão e provocam oxidação excessiva do sangue, os
olhos das pessoas se projetam para fora, além de todos os tipos de outros efeitos.
Fazia completo sentido para mim - toda aquela excitação!
Aparentemente, os níveis de açúcar no sangue também são afetados.
É por isso que todos precisam de um chá forte e doce ou café e um Club Milk
(ou coisa parecida) depois ou até mesmo durante a orgia de compras.
Um pouco como o cigarro depois do sexo, eu acho.
Como resultado das compras excessivas, Dublin estava cheia de loucos com
excesso de oxidação no sangue, olhos projetados para fora, faces vermelhas (em
conseqüência da alta pressão sangüínea), com centenas de sacolas de compras
presas às mãos e punhos, e carteiras cheias de cartões de crédito, assanhados e
irrequietos depois de tanta atividade.
Então, se é uma xícara de café que você está procurando, como Adam, Kate e
eu estávamos, espere sentado. Ficamos no meio do apinhado café, enquanto
lamentáveis criaturas de olhos fundos perambulavam de um lado para o outro
carregando bandejas com café e rosquinhas. Obviamente estavam ali há várias
semanas e ainda não tinham conseguido uma cadeira.
Mas Adam, sendo Adam, encontrou a única mesa que fora desocupada nas
últimas três semanas aproximadamente. Era uma das muitas vantagens de ter por
perto um homem alto.
E, depois de se certificar de que Kate e eu estávamos confortavelmente
sentadas, saiu para pegar o café.
Que herói!
Voltou em tempo recorde, com uma bandeja superlotada de pãezinhos doces.
- Não sabia de que tipo você gostava - explicou. - Então peguei um de cada.
- Ah, Adam - disse eu. - Você não devia ter feito isso! Você é um estudante
pobre.
Estava tão comovida que me sentia à beira das lágrimas. Ele provavelmente
gastara, em pãezinhos para mim, sua bolsa de estudos para o período de verão
inteiro.
E jamais conseguiria comer todos - menti.
-Bem, não se preocupe com isso - disse ele, sorrindo, e com uma aparência
realmente linda. - Tenho certeza de que comerei tudo que você deixar.
Depois, sentou-se e voltou toda a sua atenção para mim.
-Como vai você? - perguntou. E conseguiu fazer a pergunta soar como se ele
estivesse realmente interessado.
-Ótima - disse eu, sorrindo com timidez e me sentindo inteiramente tola e
infantil.
-O que era aquilo?
No momento em que a gente percebe que está com uma paixonite por alguém,
logo se transforma numa completa idiota. Bem, pelo menos isso acontece comigo.
-Quer que eu segure Kate para você um pouquinho? - perguntou ele.
-Se quiser - eu disse, tirando-a do canguru e passando-a para os braços
carinhosos de Adam.
Cachorrinha de sorte!
Que pena que ela ainda não pode falar, lamentei. Se falasse, eu poderia,
depois, interrogá-la detalhadamente sobre como era, exatamente, estar nos braços
de Adam.
Ficamos ali sentados, conversando ociosamente, enquanto as marés de
humanidade, com seus níveis flutuantes de açúcar, remoinhavam, fluíam, enchiam e
vazavam em torno de nós. Adam, Kate e eu éramos um oásis de calma no caos de
Dublin.
Como se nós três estivéssemos em nosso pequeno mundo.
Na verdade, não falamos muito. Apenas ficamos sentados num silêncio
descontraído, bebendo café, comendo os pãezinhos, minhas compras espalhadas
por toda parte em torno de nós.
Adam estava ocupado brincando com Kate, admirando-a, examinando seus
minúsculos dedinhos e tocando seu rostinho bonito.
Ele tinha no rosto uma expressão de deslumbramento tão intenso, quase de
ânsia, que fiquei ligeiramente alarmada.
Que Laura, que nada, pensei, quem assedia crianças é Adam!
- Você já se deu conta - disse ele, pensativo, falando comigo, mas ainda
olhando para Kate - de que, se as pessoas não soubes sem, pensariam que sou o
pai da Kate? Sabe, somos exatamente uma família nuclear típica, como dizem meus
compêndios de antropologia, fazendo compras numa tarde de sábado.
Ergueu os olhos para mim e sorriu.
E, embora eu própria estivesse pensando quase a mesma coisa, senti-me um
pouco, não sei, estranha, sim, estranha e triste, por Adam dizer isso.
Desleal, foi como me senti.
Estava satisfeita porque Adam parecia gostar muito de Kate.
Mas Adam não era o pai de Kate.
James sim.
E James não estava ali.
Era tudo tão curioso, confuso, estranho e triste.
Por que Adam não poderia ser o pai dela?
Ou por que o pai dela não poderia dar atenção à filha?
- Gostaria de ter filhos? - perguntei a Adam. - Não quero dizer agora, mas, você
sabe, algum dia.
Ele parou o que estava fazendo e ficou sentado, imóvel, por um minuto.
Depois, virou-se e olhou para mim.
Havia uma expressão tão estranha em seu rosto.
Parecia triste. Quase desnorteado.
Mas, antes que ele me respondesse, fomos interrompidos por vozes de moças.
"Ei, vejam só, é Adam." "Que ótimo, onde?" "Adam, como vai você?" "Ah, oi,
Adam, onde você se meteu a noite passada?"
Três belas jovens, obviamente colegas de classe de Adam, haviam chegado à
mesa e se aglomeravam em torno dele.
Como as mulheres costumavam fazer.
Eram como belos pássaros exóticos.
Muito coloridos e barulhentos.
Soltaram altos "ohs!" e ahs! para Kate e depois perderam completamente o
interesse por ela, quando descobriram que não era filha de Adam.
Mas por que deveria ser?, me perguntei. Adam nos apresentou a todas.
- Esta é Kate - disse ele, levantando sua pequena mão cor-de-rosa e fazendo-a
acenar para as moças.
Era uma coisa tão linda, minha menininha e aquele belo homem, que pensei
que meu coração fosse partir-se.
Por que James não poderia estar aqui para fazer isso?, pensei.
Mesmo quando estou feliz, a tristeza fica apenas a um segundo de distância.
E esta é Claire - ele continuou.
Oi - sorri corajosamente para as moças, com sua pele jovem e translúcida e
suas roupas avançadas, tentando não me sentir uma velha bruxa.
E essas são...
E ele disse três nomes que poderiam ter sido Alethia, Koo e Freddie. Ou talvez
Alexia, Sooz e Charlie.
Ou, quem sabe, Atlanta, Jools e Micki.
Nomes estranhos. Nomes maneiros.
E eu juraria que eram inventados.
Nomes que traziam uma porção de kk, quando deveriam trazer cc, zz ou ss.
Nomes que, eu tinha total certeza, não constavam de suas certidões de
nascimento.
Sabia que seus nomes verdadeiros eram algo como Mairead, Dymphna e
Mary. Vocês sabem, nomes simpáticos e comuns.
Nomes saudáveis.
Mas, com o risco de ofender Maireads, Dymphnas e Marys, nomes não muito
glamourosos.
Aquelas belas moças que haviam caído em cima de Adam pareciam precisar
de nomes glamourosos para combinar com suas glamourosas aparências.
As três, de certa forma, pareciam a mesma pessoa.
Todas tinham cabelos curtos.
E quero dizer cabelos muito curtos mesmo.
Sooz/Koo/Jools era quase totalmente careca.
E Atlanta/Alexia/Alethia parecia um patinho nada feio, com seu pequeno boné
de cabelos louros e fofos.
Para ser honesta, ela se parecia um pouco com Kate.
O que significa que Adam, o suspeito pedófilo, é provavelmente louco por ela,
pensei, amarga.
Eu sentia um pouco de ciúme.
E tanto ele quanto elas falavam de uma festa qualquer onde haviam estado na
noite da véspera.
Desejei que elas fossem embora para poder ter Adam novamente todo para
mim e Kate.
Tentei ser crescida e adulta com relação àquelas três lindas jovens
reivindicando a atenção de Adam.
Meu rosto doía, de tanto eu tentar fingir que também me divertia com aquilo,
que não me importava de ser ignorada, enquanto elas conversavam e riam com
simpatia e naturalidade.
Parecia que as três se instalavam para uma longa estadia.
Meu coração afundou até minhas (novas) botas, quando todas as três puxaram
cadeiras e se reuniram em torno de nossa minúscula mesa, cada uma praticamente
sentando-se no joelho de Adam.
Elas sequer tinham trazido uma xícara de chá para tomar.
Mas, realmente, eu não estava julgando ninguém.
Sabia como era ser um estudante pobre.
Eles precisam economizar seu dinheiro para a cerveja e as drogas.
Claro que eu entendia.
Mas, quando Freddie/Charlie/ Micki começou a comer um dos pãezinhos, um
dos meus pãezinhos, quase explodi em prantos.
Queria bater o pé e gritar histericamente, como uma criança num acesso de
mau gênio: "Este pãozinho é meu. Adam comprou-o para mim."
Engoli em seco, com raiva.
Eu estava totalmente deslocada ali.
Era tolice pensar que alguém como eu poderia ter qualquer lugar na vida de
uma pessoa como Adam.
Ele era jovem e bonito e tinha uma vida plena e feliz.
Senti-me cansada, velha, tola e idiota.
Enquanto Adam continuava a conversar animadamente com as moças,
levantei-me e tornei a colocar em seu lugar o canguru onde carregava Kate.
Depois, inclinei-me e tirei-a um tanto bruscamente dos braços de
Adam (Quero minha filha de volta!), interrompendo uma animada conversa
sobre alguém chamada Olivia Burke que, aparentemente, fizera sexo oral em
Malcolm Travis na festa da noite anterior, bem diante dos convidados.
Apesar da minha compaixão por mim mesma e da minha infelicidade, fiquei
satisfeita de ouvir que Adam não condenava o comportamento de Olivia Burke.
Reservou sua censura para Malcolm, porque este, segundo parecia, tinha uma
namorada firme, chamada Alison. E Olivia não sabia de sua existência.
- Aquele sujeito é tão baixo - disse Adam. - Está desrespeitando as duas
mulheres ao mesmo tempo, comportando-se dessa maneira.
É isso aí, cara!
Kate começou a chorar, quando a tomei dos braços de Adam. Não tirei sua
razão.
Adam virou-se e me olhou com uma expressão de surpresa no rosto.
Você não vai embora, vai?
Sim, acho que vou - eu disse, tentando falar com um tom casual. - Kate está
cansada e logo precisará trocar a fralda.
Virei-me para as lindas moças.
- Tchau. - Fiz um aceno com a cabeça. - Prazer em conhecer vocês.
Pelo menos, eu não poderia jamais ser acusada de grosseira, pensei,
hipocritamente.
- Tchau - disseram elas, em coro. - Tchau, Kate. Depois, senti-me
envergonhada.
Eram moças boazinhas. Eu era a única com o problema.
Ciumenta e insegura.
Infantil, hipersensível e mimada.
Lá fui eu, com dificuldade, sobrecarregada com um bebê, sacolas e imensas
quantidades de sentimentos maltratados, tentando manter um aspecto digno e
despreocupado, enquanto abria caminho através das multidões implacáveis.
Pude sentir os olhos de Adam em mim, mas recusei-me a olhá-lo de frente.
Ele me alcançou antes de eu ter percorrido dois metros. Para ser inteiramente
honesta - nem sempre uma coisa fácil -, era exatamente o que eu queria que ele
fizesse.
Claire - disse ele, num tom surpreendido. - Para onde você vai?
Para casa - murmurei.
Esperava, ansiosamente, que ele não tivesse percebido o quanto eu estava
enciumada.
Ouça, desculpe - disse ele, olhando dentro dos meus olhos. - Elas irritaram
você?
Não - protestei. - Não, elas eram simpáticas.
Você não precisa ser educada - disse ele, olhando-me com uma expressão
preocupada. - Sei que devem ter parecido garotinhas tolas para uma mulher como
você.
- Não, Adam, honestamente, elas são ótimas - insisti. Eu me sentia realmente
péssima.
Não gostara de estar com Alexandria, Zoo e Gerri, ou quaisquer que fossem
seus malditos nomes, porque estava com ciúme delas, não porque fosse muito
madura e desdenhosa.
Ali estava Adam atribuindo-me todos os tipos de motivos nobres.
Rotulando-me de inteligente quando, na realidade, eu era uma fedelha imatura
e mimada que exigia atenção da maneira mais infantil.
Honestamente, elas são uns amores - disse ele. - Eu queria ficar apenas com
você e Kate, mas não sabia como impedi-las de se sentarem conosco sem ser
grosseiro - explicou.
Não tem problema - insisti. - Ouça, é melhor eu ir - disse, enquanto outra
pessoa com uma bandeja esbarrava em mim e dava sinais de irritação, por eu estar
em pé no meio de uma passagem.
Tem certeza? - perguntou ele, muito próximo de mim.
- Tenho - garanti-lhe. Mas não me movi. Queria ficar ali, perto dele. Apenas por
um momento. Queria que ele me beijasse.
Mas havia muito pouca chance de que isso acontecesse, com vários milhares
de pessoas movimentando-se em torno de nós. Para não falar no fato de que Kate
provavelmente sufocaria, em seu canguru, se Adam masculamente me arrebatasse
em seus braços.
Quer que eu caminhe com você até seu carro? - perguntou ele.
Não, Adam, realmente não há necessidade.
Vejo você em breve - disse ele, gentilmente.
Certo - dei-lhe um pequeno sorriso. Um sorriso simpático.
Verdadeiro.
E ele colocou suas mãos em meus ombros e me puxou para si (porém, com o
maior respeito pelo conforto de Kate), e deu o mais leve dos beijos em minha testa.
Fechei os olhos, rendendo-me ao momento.
E prendi a respiração, porque mal podia acreditar que aquilo estivesse
acontecendo.
Sua boca era quente e firme.
Ele cheirava a sabonete, e a pele macia e quente.
Em meio ao burburinho de vozes que nos cercavam no café, ouvi alguém dizer:
Vejam, são aqueles dois novamente. Uma voz disse:
Que dois?
- Você sabe, os dois que estavam brigando em frente à Switzer, ontem.
As vozes eram das moças que tinham adorado testemunhar o pequeno diálogo
entre Adam e eu, na véspera. Meu Deus, fora mesmo ainda ontem? Elas
continuaram a conversar sobre nós em voz alta.
Ah, sim, eles. Bem, parece que fizeram as pazes.
Ah, mas que merda!
Abri os olhos e olhei para Adam. Ambos começamos a rir.
- Só falta agora o sujeito da cerveja - disse ele.
- Nesse caso, agora vou mesmo - disse-lhe eu. Passei pelas moças a caminho
da saída.
- Tenho certeza de que ela não estava com um bebê ontem - disse uma delas.
- Você acha que é dele? - a outra queria saber. Continuei a caminhar.
Minha testa não parou de formigar até eu chegar a uns cem metros de casa.
Sim, sim, eu sei.
Um beijo na testa dificilmente pode ser classificado como sexo ardente.
Não posso citar para você riem mesmo um único filme sueco que tenha sido
feito sobre um beijo na testa.
Mas aquele foi tão cheio de desejo e ternura, e, à sua casta maneira, tão
erótico, que acabou sendo muito melhor do que sexo ardente.
Bem, acho que, pelo menos, tão bom quanto.

CAPÍTULO 12
O dia seguinte amanheceu luminoso, frio e ventoso.
Sei disso porque estava acordada ao amanhecer.
Era um típico dia de março.
A chuva finalmente cessara.
Mas não há simbolismo nenhum no fato, absolutamente.
Vamos encarar a realidade: a maldita chuva tinha de parar, mais cedo ou mais
tarde.
Depois de dar a Kate sua mamadeira, sentei-me com ela na cama, enquanto a
fazia arrotar. Logo se tornou claro para mim que, embora eu tivesse sorte bastante
para ser arrastada para longe do lodo da infelicidade, esta recém-descoberta
liberação trazia consigo certas responsabilidades.
A véspera tinha sido muito boa.
Bom divertimento, de fato.
Mas, e o pensamento me veio espontaneamente, a vida é mais do que simples
divertimento.
Um homenzinho que aparece sempre em minha cabeça, segurando um letreiro
em que proclama: "O Fim Está Próximo", naquele dia proclamava: "A Vida É Mais
Do Que Apenas Divertimento".
Ele trabalha para o "departamento" da minha consciência.
Eu o detesto.
Esse miserável filho-da-puta.
Aparece sempre com seu letreiro e estraga as coisas para mim, especialmente
quando estou fazendo compras e ele proclama coisas como: "Você Já Tem Quatro
Pares de Botas" ou "Como Justifica Você Um Gasto de Doze Libras Com Um
Batom?"
Ele arruína minhas compras. Ou deixo de comprar o artigo em questão.
"Desculpe", gaguejo, enquanto a balconista pára e coloca os sapatos de volta na
caixa, fixando em mim um olhar assassino. "Mudei de idéia."
Ou então compro mesmo, mas me sinto tão culpada que todo o prazer
desaparece.
De qualquer jeito, hoje o miserável desmancha prazeres lembrou-me de que eu
tinha de fazer muito mais com minha vida do que andar me pavoneando num
supermercado, enquanto apresentava a Kate caixas de mousse de chocolate
congelada. Que tipo de sistema de valores eu lhe transmitia?
Ou, então, fazendo o jantar para minha família. Ou nutrindo uma paixonite
estranha pelo namorado da minha irmã.
Aproximei-me da janela com Kate nos braços e ficamos olhando para o jardim
que Michael tão caprichosamente deixava de cuidar.
Eu me sentia um pouco como um condenado que está prestes a enfrentar um
pelotão de fuzilamento.
Um pouco melancólica.
Era tempo, para mim, de enfrentar a realidade.
Tempo de ser adulta e responsável.
Algo em que eu nunca fora boa de jeito nenhum.
Ao primeiro sinal de qualquer problema em minha vida, a Responsabilidade vai
e se tranca no banheiro do meu cérebro, recusando-se a sair. Não importa o quanto
o Dever e a Obrigação tentem bajulá-la e convencê-la. Ela permanece firmemente
enfurnada lá, sentada no chão, toda curva, até o trauma e o drama passarem.
Eu tinha de fazer várias perguntas.
Do tipo horroroso.
Envolvendo dinheiro e a custódia de nossa filha e o lar conjugai.
E juro por Deus que era tão doloroso. Meu cérebro se encolhia, quando eu
refletia sobre cada assunto.
Era a primeira vez, desde que eu observara as costas de James, enquanto ele
saía do quarto do hospital, que eu examinava os aspectos práticos da nossa
separação.
Por exemplo: deveríamos, James e eu, nos encontrar para pensar na venda do
nosso apartamento?
Deveríamos partilhar nossas posses igualmente, entre nós dois?
Isso seria extremamente divertido.
Por exemplo, será que arrastaríamos nossas três peças de mobiliário para o
meio da sala e serraríamos o sofá pela metade, levando cada um de nós um
pedaço, com a espuma e o enchimento caindo, e mais uma poltrona combinando?
Você sabe, esse tipo de coisa.
Honestamente, eu não sabia como iríamos dividir a maioria dos nossos bens.
Porque não pertenciam a mim e não pertenciam a James. Pertenciam a um ilusório
terceiro personagem: "nós".
A pessoa ou a energia, ou como queiram chamar a isso, era formada pela
união de James e eu. E isto era muito maior do que a soma das suas partes.
Como desejei poder encontrar o "nós" desaparecido!
Se pelo menos eu pudesse localizá-lo e atraí-lo de volta, com ofertas de todos
aqueles maravilhosos bens. Como algum terrível animador de programa de auditório
de terceira categoria, com jogos e competições.
Vejam essa maravilhosa televisão.
É de vocês. Agora, ficam?
Dêem uma olhada na cozinha planejada.
Bonita, não é? Bem, pode ser toda sua, basta você voltar.
Embora eu suponha que não haveria prêmios do nível de uma cozinha
planejada, num programa de auditório de terceira categoria.
A pessoa tem sorte se ganhar sua passagem de ônibus para casa.
Mas desejei que fosse assim fácil conseguir de volta o "nós" de James e Claire.
Ou que tudo o que eu tivesse de fazer fosse colocar um anúncio no noticiário
noturno, dizendo algo como "Será que o 'nós' de James e Claire, cuja última notícia
é a de que estava viajando (digamos) pela área de Kerry, poderia entrar em contato
com o Gardaí, em Dublin, para urna mensagem urgente?"
Mas parecia que o "nós" não estava apenas ausente. Estava morto.
Assassinado por James.
E morreu sem deixar testamento.
Em teoria, o Estado herda todas as posses que pertencem ao "nós".
Na prática, claro, nada é tão surrealista e ridículo quanto o que aconteceria.
Agora, quer fazer o favor de me passar a serra?
Você percebe que eu acreditava firmemente na existência de apenas uma
maneira de lidar com situações desagradáveis - e qual era minha atual situação, se
não desagradável? E essa maneira era respirar fundo, encará-las com equilíbrio e
sem subterfúgios, olhá-las de frente, de cima para baixo e mostrar-lhes quem é que
mandava.
Faça a fineza de pegar o touro pelos chifres.
Tenha a bondade de engolir o sapo.
Se alguém fosse pedir meu conselho sobre a maneira de como lidar com
alguma coisa da qual tivesse pavor, seria exatamente o que lhe diria para fazer.
Eu acreditava firmemente nisso.
E talvez um dia eu até aceitasse meu próprio conselho e de fato o seguisse.
Você vê, embora eu honestamente acreditasse que essa era a melhor maneira
de abordar situações difíceis, jamais tivera a coragem de fazer isso.
Era mestra em driblar tarefas enfadonhas.
Eu poderia adiar para a Irlanda.
Capitã Claire Webster, nascida Walsh, Chefe do Adiamento, apresentando-se
para o serviço, senhor!
Meu lema era: "Sempre deixe para amanhã o que está programado para hoje.
E se puder evitar fazer isso até a próxima semana, então ainda melhor."
Um simpático e vigoroso pequeno lema, com muito conteúdo, era no que eu
gostava de pensar.
Para resumir minha atitude, deixe-me apenas dizer-lhe que não creio que, em
toda minha vida, eu tivesse jamais lavado a louça na noite de um jantar.
Sempre prometia a mim mesma que sim.
Aquele despertar, com uma ressaca, diante de pratos sujos e de uma cozinha
que parecia um campo de batalha, era um espetáculo horrível demais para
contemplar.
Mas você sabe como é.
O final da noite já passou, e a mesa está repleta de pratos meio cheios de
sobremesa derretendo-se, que eu mais ou menos abandonara.
Agora, em minha defesa, devo dizer que até esse ponto em geral sou uma
anfitriã modelo, uma verdadeira máquina de atender meus convidados,
transportando pratos, travessas e talheres da cozinha para a sala e vice-versa, como
se estivesse numa esteira rolante.
Mas meu senso de hospitalidade diminui em proporção direta ao número de
copos de vinho que tomo.
Então, por volta da hora da sobremesa e do café, em geral estou descontraída
em excesso (ah, está bem, bêbada demais, se você insistir em dar o nome ao boi) e
não sinto mais necessidade nenhuma de limpar a mesa.
Se a mesa caísse à minha frente, sob o peso da louça por tirar, eu
simplesmente gargalharia.
Se meus convidados quisessem uma mesa limpa, sinto muito, mas teriam de
limpá-la eles próprios.
Sabiam onde ficava a cozinha.
Esperavam por um convite com bordas douradas?
No meio da mesa havia sempre uma tigela de frutas inteiramente intocada.
E qual é o problema? Frutas são lindas.
Sempre comprava frutas e ninguém jamais as comia. Sobremesa protestante,
como Judy as chamava. Meus amigos diziam que era muito desagradável da minha
parte insultá-los oferecendo-lhes como sobremesa algo como uma banana ou
laranja. Que a idéia deles de uma sobremesa decente, ou melhor, sua única idéia de
uma sobremesa, era alguma coisa explodindo com gorduras saturadas, açúcar
refinado, creme de leite, álcool, claras de ovos e colesterol.
O tipo de sobremesa que faz as artérias da pessoa contraírem-se alguns
centímetros, só de olhá-la.
Tinha certeza de que desenvolveram essas atitudes em suas infâncias
carentes.
Provavelmente, foram obrigados a comer gelatina e creme após cada jantar,
por mais ou menos 20 anos.
Deus sabe que eu era solidária com eles. Também passara por esse inferno da
gelatina.
Mas esperar que descascassem e comessem o dito pedaço de fruta com uma
faca e garfo equivalia a uma ordem minha para que saíssem de minha casa e não
voltassem nunca mais.
Então o resultado final era que eu sempre comprava frutas e meus convidados
jamais as comiam. Se entendem o que quero dizer.
E a visão da mesa era sempre obscurecida por uns mil copos, vários deles
virados, com seus conteúdos, fosse vinho branco, gim e tônica, café irlandês ou
Baileys, espalhando-se rapidamente, misturando-se e confraternizando uns com os
outros na toalha de mesa, a formar pequenos mares em torno das ilhas de sal Saxa,
que alguma pobre alma conscienciosa (em geral James) atirara em cima para deter
a trilha de devastação provocada pelo alastramento das hordas de vinho tinto
derramado.
E eu estaria em meu vigésimo segundo Sambuca e recostada nas duas pernas
de trás de minha cadeira, ou sentada no joelho de James contando, a todos quantos
quisessem ouvir, como eu o amava.
Não tinha nenhum pudor.
Minha seriedade não chegava a ser judiciosa, mas eu estava de bem com o
universo. E, de alguma forma, eu geralmente descobria que estava realmente
relaxada e descontraída em excesso para pensar em limpeza.
- Não é incômodo nenhum - dizia eu, com voz pastosa, recusando
pretensiosamente com um aceno bêbadas ofertas de ajuda e fazendo a cinza do
meu cigarro voar para dentro da tigela de creme ou para a frente da camisa branca
de James (eu geralmente começava a fumar nessa etapa da noite, embora tivesse
deixado de fumar há muito tempo). - Amanhã de manhã faço isso no máximo em dez
minutos.
E o mais triste de tudo era que, na ocasião, eu quase acreditava nisso.
E, louca que era, jamais parava de esperar que as fadas da lavagem da louça
aparecessem no meio da noite e fizessem uma blitz no local. Podem ficar com o
novo par de sapatos e o dinheiro que tenho debaixo do meu travesseiro. Basta que
lavem o chão da minha cozinha.
Todas as manhãs, após uma festa, eu cambaleava até a cozinha e, por um
segundo, fazia uma pausa, com minha mão na maçaneta da porta, tendo uma bela e
cálida fantasia de que, quando a escancarasse, aquele lugar estaria reluzente, com
o sol brilhando nas superfícies polidas, todos os copos, pratos, tigelas, caçarolas e
panelas areadas e guardadas (nos armários corretos. Queria que aquelas fadas fossem
tão inteligentes quanto diligentes).
Em vez disso, enquanto abria caminho, cautelosamente, através dos
destroços, era difícil encontrar até um copo inteiro para minhas tão necessárias duas
pílulas de Disprin, quanto mais um copo limpo.
E, já que falamos de jantares festivos, gostaria de ter a resposta para algumas
perguntas.
Por que, nesses jantares, alguém sempre rasga e tira todo o papel dos rótulos
das garrafas de vinho, de modo que, quando você desce de manhã, a mesa está
coberta de pequenos e desagradáveis fragmentos grudentos de papel, que aderem
a tudo?
Por que sempre uso a manteigueira como cinzeiro?
Por que pelo menos uma pessoa sempre diz, em geral bem tarde da noite,
devo admitir: "Qual seria o gosto de Dubonnet com Guinness?" ou "O que
acontecerá se eu acender meu copo de Jack Daniels?"
E então tentam descobrir.
Apenas como registro: o Guinness faz o Dubonnet coalhar da maneira mais
repugnante, e o Jack Daniels explode como um poço de petróleo no Kwait, do tipo
que nem Red Adair consegue conter, e chamusca a pintura do teto da sala de jantar,
causando bolhas.
Então, agora você sabe.
Realmente, não aconselho isso.
Mas, caso se sinta realmente compelido a fazer essas coisas, tente não fazêlas
em sua própria casa.
Deixe que algum outro pobre idiota tenha de pegar a escada, os jornais para
forrar o chão, os rolos e pincéis.
Para ser justa com James - embora nem devesse, é um filho-da-puta - ele era
sempre muito bom em matéria de trabalho caseiro e especialmente para limpar tudo,
depois dos mencionados jantares festivos. Nunca ficava tão bêbado quanto eu,
então, no mínimo, estava em condições físicas de remover a maior parte da
carnificina da mesa de jantar e levá-la para a cozinha, de modo que, de manhã, pelo
menos a sala estava razoavelmente apresentável. A não ser, claro, quanto ao teto
chamuscado pelo Jack Daniels. Mas eu sabia, ao menos, que podia pintar tudo.
Mais uma vez.
Sobrara um pouco de tinta do último jantar.
E havia o inevitável par de corpos de gente com ressaca, em geral encontrados
em estado de barba por fazer e cabelos desgrenhados (refiro-me exatamente às
mulheres) no sofá da sala de estar. De fato, era quase tão difícil livrar-me delas
quanto do chamuscado no teto. Ou das queimaduras de cigarro no tapete.
Ficavam deitadas ali metade do dia, gemendo e pedindo xícaras de chá e
Paracetamol, e dizendo que, caso se mexessem, vomitariam.
De qualquer jeito, eu estava fazendo tudo de novo.
Ou seja, adiando.
Eu me esforçava ao máximo para evitar fazer o que devia.
Tentar fazer-me pensar sobre os aspectos práticos de não estar mais com
James era como tentar fazer-me olhar diretamente para o sol num dia muito claro.
Também era difícil.
Ambas as coisas faziam meus olhos lacrimejarem.
Acho que seria melhor eu pensar no problema da custódia de Kate. Mas será
que era um problema? James não demonstrara o mínimo interesse por ela. E, afinal,
ele era (uuuuuú, xoooooô!) o adúltero. E, por causa disso, sendo ele o malfeitor e
tudo mais, supus que a custódia me seria automaticamente concedida.
Mas, em vez de me sentir triunfante com isso, não me sentia sequer aliviada.
Não era nenhuma vitória.
Queria que James gostasse de nossa filha.
Queria que minha filha tivesse um pai.
Preferiria muito que James me levasse ao tribunal, partisse para duras disputas
em baixo calão e que me caluniasse, chamando-me de lésbica, de mulher de baixa
moral (nenhum fundamento para calúnia aqui, lamentavelmente) ou o que fosse.
Porque, tentando ficar com a custódia de Kate através do recurso de denegrir meu
nome, ele pelo menos demonstraria que se importava com ela.
Abracei ferozmente Kate. Sentia-me tão culpada. Porque, de alguma forma, em
alguma parte, sem que eu sequer soubesse o que fazia, eu cometera algum erro e,
por causa disso, a pobre Kate, pequena transeunte inocente, tinha de passar sem
seu pai.
Eu, simplesmente, não conseguia entender James.
Será que ele não tinha a menor curiosidade com relação a Kate?
Não fazia sentido para mim.
Seria pelo fato de Kate ser uma menina?
Se o bebê fosse menino, será que James teria tentado acertar as coisas
comigo?
Quem sabe?
Eu apenas procurava entender uma situação sem sentido.
E nosso apartamento?
Nós o havíamos comprado juntos e estava em nome dos dois. Então, o que
faríamos?
Vendê-lo e dividir a soma obtida?
Ou eu compraria a parte dele, e moraria lá com Kate?
Ou eu venderia minha parte a James e deixaria que morasse lá com Denise?
De jeito nenhum!
Fosse lá o que acontecesse, eu não deixaria James levar outra mulher para o
lar que eu construíra.
Preferia, primeiro, destruir o prédio com um incêndio.
Bem, talvez não o prédio inteiro. Eu não tinha nenhuma disputa específica com
as pessoas que moravam nos dois andares abaixo de nós. Por que perderiam seus
lares? Só porque meu marido estava levando sua amante, sua paixonite, para o lar
do casal?
Mas, sem dúvida, pelo menos o apartamento todo eu incendiaria. Gillian e Ken,
as pessoas que moravam diretamente abaixo de nós, teriam de suportar uma ou
duas chamas lambendo seu teto.
Só passando por cima do meu cadáver.
Sabem, todas as vezes que eu ouvia pessoas dizerem apaixonadamente isso,
achava que estavam sendo mediterrâneas, de sangue quente. Que só faziam uma
cena, exagerando tudo.
E, até aquele momento, eu sabia que diria aquilo, eu própria, milhares de
vezes, mas jamais falaria sério. Mas agora eu falava sério, realmente.
Só passando por cima do meu cadáver ele levaria Denise para meu lar.
E quanto ao dinheiro? Como, pelo amor de Deus, eu conseguiria sustentar
Kate e a mim mesma com meu salário?
Mal sabia quanto ganhava.
Era praticamente nada, em comparação com o que James recebia.
O salário dele era o que segurava as pontas, desde que nos casamos.
Então, agora eu ficaria pobre.
Sentia-me como se saísse perambulando, fosse dar numa sacada e
percebesse, de repente, para meu horror, que não havia chão nenhum debaixo de
mim. Apenas uma porção de espaço ilimitado, vazio, esperando pela minha queda.
A idéia de ficar sem dinheiro era aterrorizante.
Sentia-me como se não fosse nada.
Como se eu fosse apenas uma mulher sem rosto flutuando num grande e hostil
universo, sem âncora nenhuma para me prender a alguma coisa.
Por mais que deteste admitir isso, sentia-me menos do que um ser humano,
sem meu marido e seu gordo salário.
Detestei a mim mesma por ser tão insegura e dependente. Deveria ser uma
mulher dos anos 90, forte, atrevida, independente. O tipo de mulher que tem pontos
de vista bem definidos, vai para o cinema sozinha, preocupa-se com o meio
ambiente, sabe trocar um fusível, faz sessões de aromaterapia, possui um jardim de
ervas, fala fluentemente o italiano, tem uma sessão de hidroginástica uma vez por
semana e não precisa de nenhum homem para escorar seu frágil senso de autoestima.
Mas o fato é que eu não era assim.
Gostaria de ser.
Talvez me tornasse.
Parecia que eu não tinha escolha.
O que aconteceu foi que me vi diante de um fato consumado.
Mas, naquele tempo, eu estava mais para o tipo de esposa da década de 50.
Estava perfeitamente feliz por ser uma dona-de-casa, enquanto o marido saía
para ganhar o dindim.
E, se o marido estava preparado para partilhar as tarefas domésticas, bem
como para ganhar a parte do leão do dindim, melhor ainda.
Acho que queria, ao mesmo tempo, assoviar e chupar cana.*
Mas, e aí, o que você faria com seu bolo, a não ser comê-lo?
Colocar numa moldura?
Usar como amuleto?
Colocá-lo dentro da gaveta das calcinhas, para perfumar?
Este deve ser com certeza um dos ditos mais idiotas que já ouvi.
Como James e eu iríamos separar os fundos de nossa conta bancária comum?
Seria como tentar separar gêmeos siameses. Do tipo que tem unidos todos os
órgãos vitais. Coração, pulmões e fígado. Seria impossível.
Eu quase desistiria de todos os direitos ao dinheiro para evitar a inevitável
disputa. A única coisa que me impedia de cancelar qualquer dinheiro meu na conta
bancária era a idéia de ver James gastando-o com Denise. Comprando flores para
ela, entradas de teatro, roupa íntima cara. Eu lamentava, mas não via como poderia
deixar dinheiro meu financiar um esquema desses. Opunha-me a ele por princípio,
Era moralmente errado.
Além disso, na véspera eu vira, no shopping, um par de sapatos realmente
bons, e os queria para mim.
Não posso descrever a sensação de imediata familiaridade que circulou entre
nós. No momento em que bati meus olhos neles, senti-me como se já os possuísse.
Só poderia supor que haviam sido meus em outra encarnação. Que eram meus
sapatos quando eu era uma criada na Bretanha medieval ou uma princesa no antigo
Egito. Ou talvez eles fossem a criada ou a princesa, e eu fosse os sapatos. Quem
pode saber? Fosse como fosse, estávamos destinados a ficar juntos.
E eu não tinha nenhum acesso imediato a dinheiro. Assim, precisava lançar
mão do meu dinheiro na Inglaterra.
Por mais sórdido e desagradável que fosse.
Minha cabeça girava vagarosamente com tudo isso.
Mais ou menos como girara na noite da véspera, quando mamãe começou sua
conversa sobre Cher e Ike.
* To have the cake and eat it: Expressão idiomática equivalente a tirar vantagem de duas alternativas
mutuamente excludentes.
Nem de longe imaginava eu, naquele dia quente de abril, três anos antes,
quando me casei com James, que nossa união terminaria dessa maneira.
Que algo que começara como um divertimento tão bom, tudo tão cheio de
alegria e entusiasmo, pudesse terminar em dor de cotovelo e disputas legais.
Que eu me veria diante de tantos clichês.
Discutindo sobre dinheiro e bens.
Sempre pensara que James e eu seríamos diferentes. Que, mesmo que nos
casássemos, não haveria motivo para agir de forma previsível, que diabo!
Divertimento, amor e paixão sempre seriam as coisas mais importantes para
nós.
Eu jurara que nunca chegaria o dia em que eu entraria num quarto e diria a
James, sem sequer olhar para ele: "Os azulejos do banheiro estão se soltando. É
melhor você dar uma olhada neles."
Ou, novamente, lançando-lhe apenas o mais apressado dos olhares: "Espero
que você não esteja pensando em usar aquele suéter no jantar dos Reynolds."
Da mesmo maneira como jurara não ser o tipo de mulher que, cheia de
determinação, saía correndo ao redor da mesa da cozinha, comendo o que sobrara
das refeições dos seus filhos.
Ou o tipo de mulher que chamava o marido diretamente de "papai". Não no
sentido: "Não, querido, deixe a navalha, essa é do papai". Embora eu também não
seja lá muito observadora dessas coisas.
Mas, sim, no sentido: "Vamos tomar o sorvete agora, papai?" Como se seu
marido e você tivessem cessado de significar qualquer coisa um para o outro por si
mesmos. Como se não existissem mais como pessoas. Tudo o que eram, agora,
limitava-se a pais e filhos. Seu amado não era mais seu amado. Era, simplesmente,
o pai dos seus filhos.
Eu prometera a mim mesma que jamais me transformaria na mãe de todo
mundo.
Por melhores mulheres que elas sejam, sem dúvida.
Estava espantada de ver como fora arrogante.
E ingênua.
O que, pelo amor de Deus, me fizera pensar que seria diferente?
Não percebera que milhares de mulheres, antes de mim, haviam feito um pacto
consigo mesmas de não deixar nunca que se perdesse a magia do seu casamento?
Da mesma maneira como prometeram ferozmente a si mesmas que nunca
deixariam seus cabelos grisalhos aparecerem, nunca deixariam seus seios caírem,
nunca teriam rugas.
Mas, mesmo assim, aconteceu.
A vontade delas não era forte o suficiente para combater o inevitável, para
fazer voltarem as ondas do tempo.
E nem a minha.
Tornei a deitar Kate em seu berço e fui tomar um banho de chuveiro. Na
verdade, estava obviamente podendo enfrentar essa história de viver, pensei comigo
mesma, orgulhosamente.
- A limpeza - disse a Kate, sentindo-me muito virtuosa aos meus próprios olhos,
achando que era uma Boa Mãe - está próxima da Divindade. E lhe direi o que é
Divindade quando você for um pouco mais velha.
No chuveiro, não conseguia parar de pensar em James. Não de uma maneira
piegas ou amarga. Apenas lembrando como fora ótimo. Realmente, embora ele me
magoasse de uma maneira corno nunca imaginei, não podia esquecer simplesmente
como fora maravilhoso viver com ele.
Logo que conheci James e saíamos com outras pessoas, às vezes eu o
observava, através de uma sala, conversando com alguém. Sempre pensava comigo
mesma como ele era sensual e bonito. Especialmente quando estava com um
aspecto muito sério, parecendo mesmo um contador. Isso sempre me fazia sorrir.
Mas, pela expressão dele, dava para perceber que não achava graça.
Mas, deixe que lhe conte, eu sabia que ele era inteiramente diferente do que
aparentava.
E me dava uma emoção imensa saber que, quando a festa, ou o que fosse,
tivesse terminado, meu homem voltaria para casa comigo. Queria que fosse sempre
assim.
Vira um número suficiente de mulheres casadas engordarem e se tornarem
pouco atraentes e falarem com seus maridos como se fossem "fazem - tudo". E isso
me deixava muito triste.
De que adianta estar casada, quando toda magia se foi? Quando os únicos
pontos de contato entre os dois são o estado de decadência e as coisas por
consertar em sua habitação? Ou quando seus filhos não vão bem na escola?
Nesse caso, tanto faz estar casada com uma furadeira Black and Decker,
quanto com um livro sobre psicologia infantil.
De qualquer jeito, eu ainda não conseguia entender aquilo.
Eu o amava.
Desejara que desse certo.
Tentara profundamente tornar as coisas bonitas.
Para ser franca, isso não era verdade, em absoluto.
Não tive de me esforçar para tornar as coisas belas. Elas simplesmente eram
belas sem que eu fizesse o menor esforço.
Bem, eu achava que eram.
Pensei que a busca da Pessoa Certa tivesse terminado para nós dois. Que eu
encontrara um homem que me amava incondicionalmente. Ainda melhor do que o
amor incondicional que minha mãe tinha por mim, porque infelizmente esse amor
incondicional tinha certas condições ligadas a ele.
E ele me fazia rir da mesma maneira que minhas irmãs ou amigas podiam
fazer-me rir. Mas era ainda melhor, porque em geral eu não acordava na mesma
cama que minhas irmãs e amigas.
Então as oportunidades para dar uma boa risada com James eram muito mais
numerosas e em lugares muito melhores.
E sobre lugares muito melhores também, eu acho.
Sabe, pensava que, se alguém fosse ter um caso, esse alguém seria eu.
Não que eu achasse que teria, se entende o que quero dizer.
Mas era sempre eu quem falava alto, a desordeira considerada altamente
divertida.
E a opinião popular considerava James o sensato e confiável.
Quieto, reservado, dono de uma férrea determinação.
Esse é o problema com homens que usam ternos e óculos para perto e que
fixam em você um olhar sincero dizendo coisas como:
"Bem, num período de inflação baixa, uma aplicação com taxa fixa é sua
melhor escolha", ou "Eu venderia as ações do Tesouro e compraria títulos do
Governo", ou alguma declaração parecida.
Somos ludibriados no sentido de pensar que eles são chatos de galochas
totalmente inofensivos.
E acho que até eu caí um pouco nessa com James.
Achava que podia comportar-me bem ou mal, de qualquer jeito que me desse
na veneta, e ele sorriria tolerantemente para mim
Que ele se divertia comigo.
Não exatamente se divertia. Assim, parece que ele se colocava numa posição
de superioridade e menosprezo.
Mas eu o divertia, com certeza.
Ele, sem dúvida, me achava ótima.
E, por outro lado, com James eu me sentia acobertada, segura e protegida.
O próprio fato de saber que podia dar um verdadeiro espetáculo e que ainda
assim James continuaria a me amar garantia que eu não desse um verdadeiro
espetáculo.
Não me embriagava mais tantas vezes.
Mas, mesmo nos tempos em que sim, quando acordava na manhã seguinte
com uma dor de cabeça latejante e me encolhia diante dos poucos fragmentos do
que podia me lembrar da noite anterior, ele se mostrava muito carinhoso.
Ria gentilmente, ia pegar copos d'água para mim, inclinava-se e beijava minha
testa latejante, enquanto eu jazia como um cadáver na cama, e dizia coisas
tranqüilizadoras, como: "Não, benzinho, você não foi detestável. Foi muito
engraçada." E: "Não, querida, você não foi arrogante. Deixou todo mundo às
gargalhadas." E: "Sua bolsa vai aparecer. Provavelmente ficou debaixo de alguns
casacos, na casa de Lisa. Vou telefonar para ela agora." E: "Claro que você pode
tornar a encarar essas pessoas. Quero dizer, todo mundo estava alto. Você não era
a mais bêbada, não imagine uma coisa dessas".
E, numa ocasião realmente terrível, a pior "manhã seguinte" que já tive, eu
acho - as promessas de nunca mais tornar a beber foram abundantes, garanto-lhes -
"Depressa, meu anjo, sua audiência é às nove e meia. Não pode atrasar-se, porque
o advogado disse que seu juiz é um completo filho-da-puta."
Agora escute, espere um minuto. Apenas me deixe explicar. Por favor, ouça
tudo que tenho para dizer.
Sim, fui presa uma noite, mas não porque estivesse fazendo algo ilegal. Eu
estava simplesmente no lugar errado, na hora errada. Aconteceu que eu estava por
acaso num lugar qualquer que era um clube de bebida sem licenciamento. Eu não
tinha a menor idéia de que as pessoas que administravam o lugar praticavam algum
ato criminoso.
Além do preço que cobravam pelo vinho.
E dos casacos que os leões-de-chácara usavam.
Só os casacos já mereciam dez anos de confinamento na solitária.
Não sei como consegui me envolver naquilo. Tudo que sei com certeza é que o
pessoal bebia e a animação corria solta.
Quando vimos os policiais entrarem no clube e todos começarem a esconder
suas bebidas debaixo de suas mesas, Judy, Laura e eu achamos aquilo
divertidíssimo.
- Parece o tempo da Lei Seca - comentamos, às gargalhadas.
Decidi que contaria minha piada favorita a alguns dos policiais, que é a
seguinte: "Quantos policiais são precisos para quebrar uma lâmpada?" A resposta,
claro, é: nenhum. A lâmpada caiu pela escada abaixo.
Um dos policiais ficou muito ofendido com isso e me disse que, se eu não me
comportasse, ele me prenderia.
"Prenda-me, então", sorri para ele, atrevida, e estendi ambos os pulsos para
que me colocasse as algemas. Obviamente, não acreditava que fossem policiais de
verdade, mas apenas strippers.
Por isso, ninguém ficou mais surpreso do que eu quando o policial fez
exatamente isso.
Claro que percebi que ele estava apenas cumprindo seu dever.
Não guardei ressentimentos. Não fui amarga.
Que filho-da-puta!
Devo admitir que fiquei muito, mas muito surpresa mesmo.
Tentei dizer-lhe que eu era apenas uma jovem mulher suburbana, de classe
média. Que tinha até conseguido um homem para se casar comigo e que ele era
contador. Contei-lhe isso para que soubesse que eu estava do mesmo lado que ele.
Reparando os erros, combatendo a injustiça e tudo o mais.
E que, prendendo-me, ele esculhambava o estereótipo que todos têm de uma
pessoa bêbada e desordeira.
Então lá fui eu no camburão, espiando Laura e Judy pela janela, com lágrimas
nos olhos.
"Chamem James", disse para elas, apenas com movimentos dos lábios,
enquanto me levavam embora.
Tinha certeza de que ele saberia o que fazer.
E sabia. Pagou uma fiança para mim e me conseguiu um advogado.
E não creio que em toda, mas em toda minha vida, eu tenha ficado tão
assustada com alguma coisa.
Estava convencida de que me espancariam até me arrancarem uma confissão
e eu seria condenada à prisão perpétua, jamais tornando a ver James, meus amigos
ou minha família.
Jamais tornaria a ver o céu azul, a não ser do pátio de exercícios, pensei,
sentindo uma pena imensa de mim mesma. Nunca mais tornaria a usar roupas
bonitas. Teria de usar aqueles horríveis vestidos de saco da prisão.
E teria de me tornar uma lésbica. Teria de me tornar a namorada da Senhorita
Grandalhona, para ela me proteger de todas as outras moças, com suas garrafas de
Coca Cola quebradas.
E eu tinha um diploma, mas isso não valia grande coisa.
E teria de começar a fumar novamente.
E eu não sabia imitar direito o sotaque australiano.
Estava desesperada.
Então, quando James chegou à delegacia e me tirou de lá, com a fiança, ou
"me ajudou a fugir", como prefiro chamar aquilo, eu não consegui acreditar que não
houvesse, do lado de fora, câmeras de televisão e multidões delirantes carregando
faixas.
Mas apenas outro camburão, que parou cantando os pneus e raspando o meiofio.
Cerca de cinco bêbados saíram aos tropeços.
James levou-me para casa.
Conseguiu com um amigo a indicação de um advogado e telefonou para ele.
Acordou-me de manhã, quando eu não podia abrir os olhos por causa da
terrível sensação de desgraça iminente.
Ele limpou meu batom e me disse que poderia ser melhor, para meu caso, se
eu não parecesse uma garota de vida airada.
Fez-me usar uma saia comprida e uma blusa de gola alta, pelo mesmo motivo.
Sentou-se na saia do tribunal segurando minha mão, enquanto eu esperava
que chegasse minha vez.
Ele cantarolava canções para mim, enquanto eu ficava ali sentada, pálida e
cheia de náusea, com o choque e a ressaca.
Achei muito confortadoras as canções que ele cantarolava.
Até entender algumas palavras de uma delas.
Algumas coisas sobre quebrar pedras e estar numa leva de detentos
acorrentados.
Virei-me para ele e lancei-lhe um olhar fuzilante e choroso, pronta para lhe
dizer que fosse embora e tomasse no rabo, se achava minha aflição assim tão
divertida.
Mas nossos olhos se encontraram.
E simplesmente não consegui evitar.
Comecei a rir.
Ele tinha razão.
Toda aquela situação era tão ridícula, que só mesmo rindo.
Os dois rimos feito colegiais.
O juiz nos lançou um olhar terrível.
- Isto vai custar mais dez anos em sua sentença - riu James, e nós dois
tornamos a explodir em gargalhadas.
Saí com uma multa de 50 libras, que James pagou, rindo. - Você mesma vai
pagar, da próxima vez - ele sorriu para mim.
Eu não conseguia acreditar em sua atitude. Se alguém me acordasse às duas
da manhã para me dizer que James fora preso, eu ficaria horrorizada. Tinha certeza
de que não acharia a situação engraçada do jeito como ele achou.
Pediria a mim mesma, seriamente, que pensasse no tipo de homem com quem
me casara.
Não seria indulgente, não daria um apoio tão completo e perdoaria tudo, como
fez James.
Na verdade, ele sequer perdoara, porque em nenhum momento, nem por um
segundo, agiu como se eu tivesse feito alguma coisa errada.
Então, agora, se tosse presa novamente, eu não teria ninguém para segurar
minha mão no tribunal e me fazer rir.
Para não falar no fato de eu mesma ter de pagar a maldita multa.
Algumas vezes ele era tão carinhoso. Quando eu acordava no meio da noite,
para me preocupar, como costumava fazer, ele era maravilhoso.
-O que há de errado, querida? - perguntava ele.
-Nada - dizia eu, incapaz de colocar em palavras aquela ansiedade horrível,
sem nome, flutuando livremente.
-Não consegue dormir?
-Não.
-Quer que faça você dormir?
-Quero, por favor.
-E eu, finalmente, caía num sono pacífico, com a canção de ninar que era, para
mim, o som calmante da voz de James, explicando reduções de impostos através do
uso de dinheiro em obras de caridade, ou a nova regulamentação do IVA
estabelecida pela União Européia.
Fechei a torneira do chuveiro e me enxuguei.
Melhor telefonar para ele, disse a mim mesma.
Voltei para meu quarto e comecei a me vestir.
Telefone para ele, ordenei a mim mesma, severamente.
Depois que tiver alimentado Kate, respondi, com um jeito vago e irresoluto.
Telefone para ele!, tornei a dizer a mim mesma.
- Quer que a criança morra de fome?, perguntei, tentando fazer minha voz soar
ultrajada. Telefonarei para ele depois que a alimentar.
Não, você não fará isso. Telefone para ele AGORA!
Eu estava usando novamente meus antigos truques.
Adiando, evitando responsabilidades, fugindo de situações desagradáveis.
Mas estava com tanto medo.
Sabia que tinha de conversar com James sobre dinheiro, o apartamento e tudo
isso. Não estava negando essa realidade nem por um minuto. Mas sentia que, no
momento em que realmente falasse com ele sobre essas coisas, elas se tornariam
reais.
E, se fossem reais, isto significava que meu casamento tinha terminado.
E eu não queria isso.
- Ah, meu Deus - suspirei.
Olhei para Kate, deitada em seu berço, macia, gorducha c cheirosa em seu
pequeno macacão cor-de-rosa.
E senti que tinha de telefonar para James.
Eu podia ser uma fraca, pusilânime, servil e covarde o quanto quisesse, desde
que agisse por conta própria, mas devia aquele telefonema à minha bela filha, para
definir seu futuro.
- Certo - disse eu, resignada, olhando-a. - Você me pegou. Vou telefonar para
ele.
Fui para o quarto de mamãe a fim de usar o telefone lá.
Comecei a discar o número do escritório de James em Londres e fiquei
completamente tonta.
Estava ao mesmo tempo excitada e assustada.
Em poucos instantes, ouviria a voz dele.
E não podia esperar.
Estava febril e trêmula pela expectativa.
Falaria com ele, com meu James, meu melhor amigo.
Só que, claro, ele não o era mais, não é?
Mas algumas vezes eu me esquecia. Só por um segundo.
Tornou-se muito difícil para mim respirar. Minha respiração não parecia capaz
de ir até o fundo.
O telefone fez a ligação e começou a chamar.
Uma tal emoção me dominou que pensei que talvez vomitasse.
A recepcionista atendeu.
- Ah, posso falar com o Sr. James Webster, por favor? - perguntei, com voz
vacilante. A sensação que tinha nos lábios era de ter tomado uma injeção para
anestesiá-los.
Houve alguns cliques na linha. Falaria com ele num momento. Prendi a
respiração.
De qualquer forma, minha respiração já não estava lá muito regular.
Outro clique.
Era a recepcionista de volta.
- Desculpe, o Sr. Webster está fora, esta semana. Outra pessoa pode ajudar?
O desapontamento foi tão doloroso que mal consegui gaguejar:
- Não, está bem, obrigada.
E desliguei o telefone.
Fiquei sentada na cama de mamãe.
Realmente, agora não sabia o que fazer.
Fora um tremendo suplício telefonar para ele. Uma coisa muito dura de fazer. E
também, involuntariamente, eu me entusiasmara com a idéia de falar com ele. E ele
nem sequer estava lá.
Mas que decepção.
Eu tinha galões de adrenalina correndo pelo meu corpo, provocando gotículas
de suor em minha testa, tornando minhas mãos molhadas e trêmulas, deixando-me
tonta, e simplesmente não sabia o que fazer com isso.
E então a idéia me ocorreu: onde estava James?
Por favor, não me diga que saíra de férias.
De férias?
Como poderia sair de férias, quando seu casamento estava sendo destruído?
Fora destruído, na verdade.
Talvez ele esteja num curso, pensei, desesperada.
Esbocei a idéia de telefonar novamente para a recepcionista e perguntar-lhe
onde estava James.
Mas me detive. Não ia jogar fora o minúsculo pedacinho de orgulho que me
sobrara.
Talvez ele esteja doente, pensei. Talvez esteja com gripe.
Provavelmente eu receberia bem a notícia de que estava com câncer terminal.
Qualquer coisa, menos ele ter saído de férias.
A idéia de que ele levava sua vida sem mim, a idéia de que ele, na verdade,
aproveitava essa nova vida, era profundamente desagradável.
Por um lado, claro, eu sabia que ele levava uma vida sem mim. Quero dizer,
todas as provas estavam ali. Ele morava com outra mulher, não entrara em contato
comigo, nem mesmo para ver como ia Kate. Mas, mesmo assim, acho que eu jamais
parara de esperar que ele estivesse ansiando por mim, sentindo terrivelmente minha
falta e que, finalmente, voltasse.
Mas, se tivesse saído de férias, então não seria este o caso.
Ele não deve preocupar-se com nada neste mundo, pensei, com minha
imaginação disparando. Provavelmente, viajou com a amante para algum balneário
exótico. Está bebendo Piñas Coladas no sapato de Denise. Sua vida ao som de
rolhas de champanha espocando e fogos de artifício explodindo, em meio a música
e pessoas alegres, usando chapéus festivos enfeitados com bandeirolas, e que
passavam por ele dançando conga, na maior algazarra.
Enquanto eu congelava naquele clima de março, estava convencida de que
James vivia na maior curtição, em algum balneário muito caro do Caribe, onde
dispunha de 14 valetes, uma piscina particular e um ar que cheirava a botões de
jasmim.
Eu não tinha a menor idéia de como eram botões de jasmim. Sabia apenas que
apareciam com regularidade nesse tipo de roteiro
Ah, meu Deus, pensei, engolindo em seco. Certamente não esperara me sentir
daquele jeito.
E agora, que fazer?
Mamãe entrou no quarto trazendo nos braços um monte imenso de roupas
recém-passadas a ferro.
Parou, surpresa, quando me viu.
Que há de errado com você? - perguntou, olhando para meu rosto pálido e
infeliz.
Telefonei para James - disse-lhe, e explodi em lágrimas.
Ah, meu Deus! - exclamou ela, colocando a pilha de roupas em cima de uma
cadeira e aproximando-se para sentar-se a meu lado.
O que ele disse? - perguntou ela.
Nada - solucei. - Não estava lá. Aposto que saiu de férias com aquela cadela
gorda. E aposto que voaram de primeira classe. E aposto que têm uma banheira de
hidromassagem.
Mamãe me abraçou.
Algum tempo depois, parei de chorar.
- Quer que eu a ajude a guardar a roupa? - perguntei com minha voz meio
lamurienta e chorosa.
Isso a fez parecer realmente preocupada.
-Você está bem? - perguntou ela, ansiosa.
-Claro - disse eu. - Estou ótima.
-Tem certeza? - perguntou novamente, ainda não convencida.
-Tenho - insisti, um pouco aborrecida.
Eu estava ótima.
Era melhor acostumar-me a sentir essa perturbação, decidi.
Porque aconteceria muito. No mínimo, até eu aceitar o fato de que tudo estava
realmente terminado com James.
Muito bem, eu me sentia péssima naquele momento.
Magoada e chocada.
Mas, dentro de algum tempo, esses sentimentos não me feririam tanto. A dor
desapareceria.
Então, eu não iria para a cama por uma semana.
Levantaria a cabeça e tocaria as coisas para adiante.
E telefonaria para ele na segunda-feira.
Seria realmente uma boa ocasião para falar com James.
Ele estava destinado a se sentir mesmo infeliz nessa segunda-feira, de volta ao
trabalho, com a tristeza de depois das férias e ainda atordoado com a diferença de
fuso horário.
Eu tentava alegrar-me fingindo que ficaria satisfeita de vê-lo infeliz.
E, se eu não me aprofundasse muito na idéia, funcionaria por um tempinho.
- Tudo certo, mamãe - disse eu, com determinação. - Vamos guardar essas
roupas.
Fui decidida até a pilha de roupas recém-passadas, em cima da cadeira.
Mamãe pareceu um pouquinho espantada, quando comecei tão rapidamente a
separá-las.
Peguei uma braçada e disse a ela:
-Vou colocar estas na cômoda de Anna.
-Mas... - começou mamãe.
-Nada de mas - disse-lhe eu, em tom tranqüilizador.
-Não, Claire... - disse ela, com ansiedade.
-Mamãe - insisti muito comovida por sua preocupação, mas decidida a me
recompor e a ser uma filha zelosa -, estou ótima agora.
-E saí do seu quarto dirigindo-me para o de Anna. A porta do quarto de mamãe
fechou-se atrás de mim. Por isso, a voz dela estava abafada quando ela me
chamou.
- Claire, pelo amor de Deus! Como vou explicar a seu pai que as cuecas dele
estão na cômoda de Anna?
Eu estava de joelhos em frente à cômoda de Anna.
Fiz uma pausa para ver o que estava fazendo.
Eu não estava colocando as cuecas de papai na cômoda de Anna, estava?
Estava, sim.
Percebi que era melhor tirá-las dali. Porque não havia nenhuma maneira de
Anna não perceber que havia alguma coisa fora do comum, quando trocasse suas
calcinhas e se descobrisse usando enormes cuecas samba-canção.
Supondo-se, claro, que ela de fato trocasse suas calcinhas.
Ou, afinal, pensando bem, que usasse mesmo calcinhas.
Tinha certeza de que já a ouvira falar sobre roupas - especialmente roupas de
baixo - como sendo uma forma de fascismo. Uma vaga conversa sobre a
necessidade de que o ar circulasse, o fato de a pele precisar respirar e os canais se
sentirem liberados e sem restrições, levaram-me a suspeitar, conseqüentemente,
que calcinhas e seu uso talvez não figurassem em boa posição na lista de
prioridades de Anna.
Com um suspiro martirizado, peguei de volta a pilha de cuecas.

CAPÍTULO 13
Aquela noite, estava combinado que eu me encontraria com Laura para
tomarmos uma bebida.
É melhor dar a você um pouco dos antecedentes deste caso.
Laura, Judy e eu fomos para a universidade juntas. E somos amigas desde
então.
Judy morava em Londres.
E Laura em Dublin.
Eu não via Laura desde que fugira de Londres sem um marido e com um bebê,
mas falara com ela pelo telefone algumas vezes.
Disse-lhe que estava deprimida demais para vê-la.
E, como ela é uma boa amiga, não ficou aborrecida comigo. Disse-me que não
me preocupasse, que eu acabaria por me sentir melhor e então nos encontraríamos.
Disse-lhe que nunca me sentiria melhor e jamais tornaria a vê-la, mas que fora
maravilhoso conhecê-la.
Tinha a impressão de que ela telefonara para mamãe algumas vezes, no mês
passado, para fazer discretas perguntas sobre o estado do meu coração (ainda
partido, no último check-up), da minha saúde mental (ainda muito instável) e da
minha popularidade (no pior estado de todos os tempos).
Mas ela não me incomodara e eu lhe era muito grata por isso.
Agora, sentia-me bem melhor, de modo que telefonei para ela e sugeri que nos
encontrássemos na cidade, para tomarmos uma bebida.
Laura pareceu encantada com a idéia.
- Vamos encher a cara - disse, entusiasmada, pelo telefone.
Não tenho certeza se era uma sugestão ou uma previsão.
De qualquer forma, era um desfecho previsível.
- Acho que vai ser bom - concordei, tomando como parâmetro nossos
encontros nos dez últimos anos.
Mas eu estava alarmada.
Esquecera-me de que Laura era uma hedonista desenfreada. Ela poderia ter
ensinado algumas coisinhas àqueles imperadores romanos.
Mamãe disse que estava encantadíssima de ficar tomando conta de Kate.
Depois do jantar (pastelão de carne congelado, esquentado no microondas, na
verdade até gostoso), fui para o andar de cima, a fim de tentar aprontar-me para
minha primeira incursão social desde que meu marido me deixara.
Uma ocasião e tanto.
Um pouco como perder minha virgindade, fazer minha Primeira Comunhão ou
me casar. Algo que só acontece uma vez.
Não tinha absolutamente nada para usar.
Comecei a lamentar muito e a me sentir muito tola, na verdade, com minha
atitude de mártir ao deixar todas as minhas belas roupas em Londres. Comportandome
como um condenado a caminho das galés, chorando dramaticamente, dizendo
que minha vida tinha terminado e que no lugar para onde eu ia não precisaria de
roupas.
E ia apenas para Dublin.
Não para a vida após a morte.
Honestamente, fui patética.
Deveria ter sabido que mais cedo ou mais tarde eu me sentiria quase normal
novamente.
Não loucamente feliz, nada tão maravilhoso assim, veja bem.
Mas capaz de enfrentar a situação.
Diante do fato de que todas as minhas boas roupas estavam numa cidade
diferente, eu não tinha outra opção a não ser me apropriar indevidamente de
algumas das coisas de Helen.
Ela ficaria aborrecida.
Não havia como negar isso.
Mas ela já estava aborrecida comigo, de qualquer jeito, pela suposta atração
que eu sentira por seu namorado; então, o que eu tinha a perder?
Pensamentos em torno de castigos que vêm a galope.
Comecei a vasculhar freneticamente os cabides de Helen. Puxa vida, ela tinha
algumas roupas realmente lindas.
Senti a seiva subir, os velhos humores começarem a fluir.
Adorava roupas.
Era como um homem que estivesse morrendo de sede no deserto e
inesperadamente tropeçasse com uma geladeira cheia de 7 Ups super gelados.
Tinha passado tempo demais enfiada naquela camisola.
Descobri naquele seu armário um vestidinho de cor vinho tipo avental. Esse vai
ficar muito bem, pensei, enquanto me enfiava febrilmente nele.
Voltei para meu quarto e me olhei no espelho e, pela segunda vez em dois
dias, fiquei surpresa e deliciada com o que vi.
Parecia mais alta, mais esguia, mais jovem.
Nem um pouquinho uma mãe solteira.
Ou uma esposa abandonada.
Seja lá como se imagine a aparência delas.
Com umas meias de malha de lã e minhas botas, eu estava com um aspecto
agradavelmente infantil (ah!) e inocente (duplo ah!).
E, se o avental era um pouco curto demais para mim, expondo um trecho
alarmante das minhas coxas, porque Helen era bem menor do que eu, isso era
melhor ainda.
Mais pensamentos sobre males que não duram para sempre e dias em que a
araruta vive seu esplendor de mingau.
E, agora, sugestões da minha mãe, que entrara para conversar comigo,
enquanto eu me aprontava, em torno de uma burra velha que estava pensando
seriamente em comer capim novo.
Comentários alusivos, da minha parte, à mouquidão de certos ouvidos diante
de palavras nécias.
Outra alusão da parte dela, com relação a paus que nascem tortos e à
impossibilidade de endireitá-los.
Rapidamente, tentei lembrar de outro provérbio, mas não consegui.
Basta, mas que merda!, disse-lhe eu.
Já houvera alusões suficientes para uma noite inteira. Agora, era preciso um
pouquinho de conversa aberta.
Depois, apliquei a maquilagem. Estava muito excitada porque ia sair. Tinha
esquecido como era divertido.
Em geral, adorava sair.
Normalmente, era uma pessoa muito sociável.
Quando meu marido ainda não me deixara, era muito divertido circular.
Jamais rejeitava um convite.
Precisamos nos divertir enquanto podemos, sempre digo, porque ficaremos
mortos por um longo período.
Haverá, na próxima vida, uma porção de tempo para ficar em casa e passar a
ferro nossas roupas de trabalho para a semana seguinte.
Geralmente, eu era uma das primeiras a chegar a uma festa.
Invariavelmente, uma das últimas a sair.
Uma generosa porção de base energicamente esfregada em meu rosto tirou a
branca palidez do inverno.
Eu era adepta da escola de aplicação de maquilagem que valoriza a
quantidade tanto quanto a qualidade.
E, embora um bronzeado moreno seja considerado símbolo de status dos anos
80 e inteiramente deslocado nos 90, adeptos do natural e do fashion, envergonhome
de dizer que queria estar bronzeada mesmo assim.
Está bem, está bem, uma exposição tão excessiva ao sol pode nos provocar
câncer de pele e, pior ainda, deixar-nos uma pele como a das australianas. Mas eu
achava que um rosto macio e bronzeado parecia muito saudável e atraente.
E de que adiantava nos protegermos do câncer de pele, obsessivamente
evitarmos o sol e andarmos por aí parecendo cadáveres, quando amanhã
poderíamos ser atropelados por um ônibus?
De qualquer jeito, eu não estava morena. Simplesmente queria estar. Acho que
é quase tão ruim quanto.
E me sentia perfeitamente à vontade para usar maquilagem, a fim de falsificar
esse tom. Então, não se poderia descrever meu aspecto maquilada como pálido e
interessante.
Interessante, talvez, mas não pálido.
Duas faixas de blush, uma em cada maçã do rosto.
Na verdade, isso ficou meio assustador, até eu esfumar tudo.
Tive certeza de ouvir mamãe resmungando qualquer coisa que soou como
"palhaço de programa infantil" e dei uma brusca meia-volta, mas ela se limitou a ficar
examinando suas unhas, com um ar inteiramente desinteressado.
Eu devia ter imaginado isso.
Um pouco de batom intenso para garantir que, embora eu estivesse usando um
vestido infantil, não poderia ser confundida com nada que não fosse uma mulher.
Mulher.
Amava essa palavra.
Eu era uma mulher.
Tive vontade de dizê-la em voz alta. Mas, espantosamente, mamãe não saíra
correndo do quarto quando falei "merda". Ainda estava sentada na cama, enquanto
eu punha minha maquilagem, e senti que já a alarmara o suficiente, no decorrer do
mês passado.
Mas era uma palavra tão evocativa.
Mulher.
Tão voluptuosa. Tão sensorial.
Ou seria sensual?
Sempre confundo as duas coisas.
De volta para as coisas mundanas.
Delineador cinzento e rímel preto fizeram meus olhos parecerem realmente
azuis.
E, com meu cabelo recém-lavado e brilhante, fiquei muito satisfeita com o
efeito geral.
Claro que mamãe não ficou.
-Vai usar uma saia com essa blusa? - perguntou.
-Mamãe, você sabe perfeitamente bem que isso é um vestido e não uma blusa
- disse-lhe eu, calmamente.
Nada que ela pudesse dizer ou fazer me impediria de me sentir bem com
relação a mim mesma.
- Pode ser um vestido em Helen - ela reconheceu. - Mas é curto demais para
ser outra coisa que não uma blusa em você.
Ignorei-a.
- E você o pediu a Helen emprestado? - perguntou ela, obvia mente fazendo
tudo para acabar com meu bom humor. - Porque quem vai ouvir os desaforos de
Helen sou eu. Você nem vai ligar. Estará na cidade com seus barulhentos amigos,
enchendo a barriga de Malibu e Lucozade, ou seja lá o que você bebe. E eu estarei
aqui, ouvindo os gritos da minha filha mais nova, me dizendo o que um cachorro não
escuta. E, no momento, estamos na lista negra de Helen.
- Ah, cale a boca, mamãe - falei. - Vou deixar um bilhete para Helen explicando
que peguei o vestido emprestado. E, quando tiver minhas roupas de Londres,
também posso emprestá-las a ela.
Silêncio da parte de mamãe.
-Está certo? - perguntei a ela.
-Está - ela sorriu.
E acrescentou de má vontade:
- E você está linda.
Pouco antes de sair do meu quarto, a fim de ir para o andar de baixo, um brilho
em cima da penteadeira atraiu meu olhar. Era minha aliança. Tinha esquecido de
recolocá-la no dedo, depois de tomar meu banho de chuveiro. Estava ali piscando
para mim, obviamente louca para sair de casa um pouquinho. Então fui até lá e a
peguei, mas não a pus. Meu casamento terminou, pensei, e talvez comece a
acreditar nisso, se não usar mais minha aliança. Coloquei-a novamente em cima da
penteadeira.
Claro que ela ficou furiosa - simplesmente não conseguia acreditar que eu não
a usaria. E, depois, ficou perturbada. Mas não cedi aos seus desejos. Não podia
permitir-me nenhum sentimentalismo. Decidi sair antes que começassem as
recriminações.
- Desculpe - disse eu, sumariamente, virando as costas, apagando a luz e
saindo do quarto.
Papai estava assistindo golfe na televisão, quando me aproximei dele para
pedir seu carro emprestado.
Acho que lhe dei um pequeno susto, quando afinal consegui arrancar sua
atenção dos homens que usavam as calças daquele urso do programa infantil,
Rupert.
Você está muito elegante - ele disse, com um ar espantado. - Para onde vai?
Para a cidade, me encontrar com Laura - respondi-lhe.
Bem, não vá deixar que depredem o carro - disse ele, alarmado.
Papai viera de uma pequena cidade a oeste da Irlanda e, embora vivesse em
Dublin há 33 anos, ainda não acreditava nos dublinenses. Achava que todos eram
pés-de-chinelo e vândalos.
E parecia pensar que o centro de Dublin era como Beirute. Com a diferença de
que Beirute era muito melhor.
- Não vou deixar que o depredem, papai - disse-lhe eu. - Vou colocá-lo num
estacionamento.
Mas isso também não o acalmou.
- Não deixe de pegá-lo antes da meia-noite - disse ele, muito agitado. - Porque
todos os estacionamentos rotativos fecham a essa hora. E, se você não o pegar,
terei de ir a pé para o trabalho de manhã.
Não lhe disse, mas quase o fiz, que ele não teria de ir a pé para parte alguma
de manhã, se eu deixasse o carro abandonado e as autoridades o levassem para o
depósito municipal. Que nada o impediria de tomar emprestado o carro de mamãe
ou de usar algum transporte público.
- Não se preocupe, papai - tranqüilizei-o. - Agora, dê-me as chaves.
Ele as entregou, relutante.
E não mude a estação de rádio. Não quero ligá-la de manhã e ficar surdo com
música pop.
Se mudar, volto para a outra novamente - suspirei.
E, se ajustar o assento para a frente, não deixe de movê-lo novamente para
trás. Não quero entrar de manhã e pensar que ganhei uma porção de quilos de
noite.
Não se preocupe, papai - disse-lhe eu, pacientemente, enquanto pegava meu
casaco e minha bolsa. - Até mais tarde.
É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que tomar
emprestado o carro de papai.
Enquanto eu fechava atrás de mim a porta da sala de estar, ouvi-o me
chamando.
- Para onde você vai sem uma saia? Continuei caminhando.
Foi terrível deixar Kate. Era a primeira vez que eu saía sem ela e foi
verdadeiramente angustiante. Na verdade, eu quase a levei comigo, mas, quando
me compenetrei de que ela passaria tempo suficiente em pubs barulhentos e cheios
de fumaça quando fosse mais velha, achei que não havia motivos para começar
desde já.
Por favor, dê uma olhada nela a cada quinze minutos - disse eu a mamãe, toda
chorosa.
Claro - respondeu ela.
Cada quinze minutos - enfatizei.
Pode deixar - ela disse.
Não vai esquecer? - perguntei, ansiosa.
Não - respondeu ela, começando a se mostrar um pouco impaciente.
Mas, e se você estiver vendo alguma coisa na televisão e se distrair? - insisti.
Não vou esquecer! - gritou ela, com uma voz que demonstrava claramente seu
aborrecimento. - Sei tomar conta de uma criança, e você sabe disso. Consegui criar
cinco filhos.
Eu sei - disse a ela -, só que Kate é especial.
Claire! - falou mamãe, irritada. - Mas que droga, quer fazer o favor de se
mandar?
Tudo bem, tudo bem - eu disse, rapidamente verificando se a babá-eletrônica
para bebês estava ligada. - Já vou.
Divirta-se - disse mamãe.
- Vou tentar - disse eu, com o lábio inferior tremendo. A viagem de carro até a
cidade foi um pesadelo.
Você sabia que, se escutar com atenção suficiente, tudo soa como choro de
bebê?
O vento nas árvores, a chuva no teto do carro, o zumbido do motor.
Eu estava convencida de que podia ouvir Kate chorando por mim, fracamente,
a quilômetros de distância.
Era insuportável.
Quase dei a volta no carro e voltei para casa.
Se não fosse o Bom Senso aparecer de repente como convidado na minha
cabeça, provavelmente era o que eu teria feito.
Você está sendo ridícula - disse o Bom Senso.
Obviamente, você não é mãe - repliquei.
Não - admitiu o Bom Senso. - Não sou. Mas você precisa entender que não
pode ficar com ela todos os momentos, durante o resto da vida dela. E quando você
voltar para o trabalho e ela tiver de ficar com uma babá? Ora, como é que você vai
enfrentar essa situação? Pense nessa saída como um bom exercício.
Você tem razão - suspirei, acalmando-me por um momento. Depois, o pânico
tornou a tomar conta de mim. E se ela morresse? E se ela morresse aquela noite?
Exatamente então, como um oásis no deserto, vi uma cabina telefônica. Dei
uma virada no carro, para grande aborrecimento dos motoristas atrás de mim.
Buzinaram alto e gritaram coisas para mim, aqueles filhos da puta sem coração.
Mamãe - disse eu, com voz trêmula.
Quem é? - perguntou ela.
Sou eu - disse, sentindo-me prestes a explodir em prantos.
Claire? - perguntou ela, com uma voz ultrajada. - Mas que diabo você quer?
Alguma coisa aconteceu com Kate? - perguntei, sem fôlego.
Claire! Pare com isso! Kate está ótima!
É mesmo? - perguntei, mal ousando acreditar nisso.
Está, sim - disse ela, com uma voz mais simpática. - Ouça, depois fica mais
fácil, sabe. A primeira vez é a pior. Agora vá, divirta- se, prometo que lhe telefono, se
alguma coisa acontecer.
- Obrigada, mamãe - disse eu, sentindo-me bem melhor. Voltei para o carro,
dirigi até a cidade e o estacionei (sim, num estacionamento rotativo) e segui até o
pub para encontrar Laura.
Ela já estava lá quando cheguei.
Foi maravilhoso vê-la. Eu não a via há meses.
Disse-lhe que estava linda, porque estava mesmo. E ela me disse o mesmo.
Embora eu não tenha certeza se era verdade.
Ela disse que parecia uma bruxa velha.
Eu disse que eu parecia um cachorro.
Eu disse que ela não parecia uma bruxa velha.
Ela disse que eu não parecia um cachorro.
Terminadas as amabilidades, fui pegar algumas bebidas para nós.
Havia milhões de pessoas no pub. Ou, pelo menos, era o que parecia. Mas
Laura e eu tivemos bastante sorte e conseguimos assentos.
Acho que devo estar envelhecendo. Havia um tempo em que eu alegremente
ficaria ali em pé, com o caneco de cerveja na mão, no meio de todas aquelas
pessoas, sendo arrastada de um lado para outro, como um sargaço pela maré. Sem
me importar com o fato de que a pessoa com quem supostamente eu conversava
achava-se agora a vários metros de distância, e que a maior parte do conteúdo de
meu caneco estava sendo derramada em meu pulso.
Laura queria saber tudo a respeito de Kate. E fiquei felicíssima de lhe contar.
Quando eu era mais jovem, prometi a mim mesma que jamais me transformaria
numa pessoa que chateia todo mundo só falando de bebês. Você sabe, aquele tipo
de pessoa que não pára de falar sobre seu bebê, como ele sorriu pela primeira vez
naquele dia, e como é lindo e tudo isso, enquanto as pessoas a seu redor mudam a
toda hora de posição em suas cadeiras e se contorcem de tédio. Fiquei um pouco
alarmada ao descobrir que era exatamente o que eu estava fazendo. Mas não podia
deixar de fazer. É diferente quando o bebê é nosso.
A única coisa que posso dizer, em minha defesa, é que você saberá o que
quero dizer quando tiver um.
Talvez Laura estivesse morrendo de tédio, mas deu uma impressão muito
razoável de estar interessada em Kate.
Estou louca de vontade de vê-la - disse. Corajosamente, pensei eu.
Por que não vem no fim de semana? - sugeri. - Passaremos uma tarde juntas e
você poderá brincar com ela.
E, depois, Laura quis saber como era dar à luz. Discutimos o assunto com
sangrentos detalhes, durante algum tempo.
Até que Laura começou a parecer meio suada e fraca.
E então, claro, passamos para o principal item da agenda. O verdadeiro
assunto da noite. A atração principal. O aparecimento do astro.
James.
James Webster, o Incrível Marido Desaparecido.
Laura já sabia de todos os detalhes.
Através de várias fontes - minha mãe, Judy e uma porção de amigos. Então,
ela realmente não precisava saber o que acontecera. Estava mais interessada em
saber como eu me sentia agora e o que planejava fazer.
Não sei, Laura - disse-lhe eu. - Não sei se volto para Londres ou se fico aqui.
Não sei o que fazer com meu apartamento. Realmente, não sei o que fazer a
respeito de nada.
Você precisa mesmo falar com James - sugeriu-me ela.
- Claro, eu sei, nem precisa dizer - falei. Com um leve tom de amargura, devo
admitir.
Então, por algum tempo, discutimos minhas responsabilidades. E arriscamos
palpites quanto ao que seria meu futuro.
Mas fiquei algo infeliz de falar a respeito, então mudei de assunto e perguntei a
Laura com quem ela estava transando, no momento.
Era muito mais divertido falar disso, permitam-me dizer.
O feliz beneficiário dos atuais favores sexuais de Laura era um estudante de
arte de dezenove anos!
Dezenove?! - soltei um berro estridente, num decibel que fez os copos se
espatifarem nas mãos de vários espantados bebedores, num pub a cerca de um
quilômetro de distância. - Dezenove?! Está falando sério?
Estou - ela riu. - Mas é um desastre, realmente. Ele não tem um tostão; então,
tudo o que podemos fazer é sexo.
Mas você não poderia pagar para os dois saírem? - perguntei.
Poderia, eu acho - disse ela. - Mas o aspecto dele é tão maltrapilho que eu
teria vergonha de levá-lo a qualquer parte.
Será que ele está sempre coberto de tinta? - perguntei.
Está, sim - ela disse. - Mas não é apenas isso. Ele parece ter apenas um
macacão. E nenhum par de meias. E quanto menos se falar sobre as cuecas dele,
melhor.
Ugh - eu disse. - Isso parece mesmo terrível.
Ah, não, não é, realmente - Laura me garantiu. - Ele é louco por mim. Acha que
sou linda. E meu ego fica nas alturas.
Então, vocês realmente só fazem sexo? - perguntei, intriga da. - Quero dizer,
não conversam, coisas assim?
Na verdade, não - disse ela. - Honestamente, não temos nada em comum. Ele
é de uma geração diferente. Ele aparece. Transamos, rimos um pouco. Ele me diz
que sou a mais bela mulher que ele conheceu em toda sua vida - provavelmente sou
a única mulher que ele conheceu -, e vai embora de manhã. Em geral levan do um
par de minhas meias soquete, me pede o dinheiro da passagem de ônibus e se
manda. É maravilhoso!
Deus do céu, pensei, olhando para Laura com franca admiração.
Você é uma mulher tão anos 90 - disse-lhe eu. - Você é tão calma.
Na verdade, não - disse ela. - Estou apenas tirando a barriga da miséria. A
fome é a melhor cozinheira, como você sabe.
- Então ele é seu namorado? - perguntei. - Quero dizer, você andaria pela
Grafton Street de mãos dadas com ele?
- Deus do céu, não! - disse ela, com uma expressão horrorizada. - E se
encontrasse alguém conhecido? Não, não, o anjinho é apenas uma medida
temporária. Está mantendo a cama quente até aparecer o Homem Certo. Embora eu
não consiga imaginar por que este está demorando tanto.
Embora eu estivesse muito feliz de ver Laura, tinha muita consciência de que
aquela era minha primeira saída social como mulher solteira, em cinco anos.
E era minha primeira saída social sem minha aliança. Eu me sentia vulnerável
e nua sem ela. Apenas quando deixei de usá-la percebi como me sentia segura com
ela. Vocês sabem, ela faz uma declaração, diz alguma coisa como: "Não estou
desesperada por um homem, porque já tenho um. E, realmente, tenho. Basta
olharem para minha aliança de casamento".
Laura rompera com seu namorado, Frank, mais ou menos um ano antes.
Então, apesar do amante adolescente de Laura, éramos, para todos os efeitos,
duas mulheres solteiras bebericando vinho num apinhado pub do Centro, numa noite
de quinta-feira, em março.
Fiquei imaginando se os homens poderiam farejar o nosso desespero.
Fiquei imaginando se haveria desespero para ser farejado.
Será que eu estava dando a Laura minha atenção integral? Ou uma parte dela
se voltava para a multidão, examinando-a, em busca de homens atraentes? Estaria
eu tomando notas de quantos homens me haviam lançado olhares de admiração
desde que chegara?
Nenhum, na verdade, só para ficar bem claro.
Mas óbvio que eu não os estava contando, nem nada.
Ri de alguma coisa que Laura me disse.
Mas não podia ter certeza se estava realmente rindo.
Talvez quisesse mostrar aos homens no pub que estava perfeitamente feliz e
bem ajustada, e não me sentindo um quarto de pessoa, sem um homem.
Meu Deus, mas eu estava realmente começando a ficar deprimida. Sentia-me
como se usasse um letreiro a néon em cima de minha cabeça, dizendo:
"Recentemente Jogada Fora", em tons brilhantes, de rosa e roxo, e depois: "Não
Vale Nada Sem Um Homem", em luzes laranja e vermelhas.
Toda a minha autoconfiança se fora.
Nunca pensara que me sentiria tão estigmatizada.
Quando James e eu éramos casados e felizes, eu freqüentemente saía com
amigas para tomar umas bebidas em pubs e não tinha nenhum pensamento
maldoso a respeito.
Por que isso se tornara, de repente, um problema?
Laura notou que eu começara a murchar como uma planta morrendo, e me fez
as perguntas de rotina. Chorosa, tentei contar-lhe como me sentia.
Não se preocupe - disse-me ela, compreensiva. - Quando Frank me deixou por
aquela garota de vinte e um anos, senti-me tão envergonhada. Como se a culpa
fosse toda minha por ele ter caído fo ra. E achei que, sem ele, eu não tinha o menor
valor. Mas isso passa.
Será que passa mesmo? - perguntei, com os olhos cheios de lágrimas.
Honestamente, passa - ela me garantiu.
Sinto-me tão rejeitada - tentei explicar-lhe.
Eu sei, eu sei - disse ela. - E você tem a impressão de que todas as outras
pessoas sabem disso.
Exatamente - eu disse, sentindo-me satisfeita de não ser a única pessoa a ter,
algum dia, sentido isso. - Está bem - disse eu, enxugando os olhos. - É hora de mais
bebidas.
Abri caminho às cotoveladas através da feliz multidão e finalmente cheguei ao
bar. Fiquei ali em pé, sendo empurrada e tendo cotovelos enfiados em meu rosto e
bebidas derramadas em minhas coxas, enquanto tentava atrair a atenção do
barman. Exatamente quando estava chegando à conclusão de que teria de abrir
meu vestido e mostrar a ele meus peitos, para que me notasse, alguém colocou as
mãos em minha cintura e a apertou.
Só faltava essa! Alguém se aproveitando de uma mulher solteira de uma certa
idade.
Ultrajada, virei-me tão rapidamente quanto pude, no espaço confinado, pronta
a prender alguém por assédio sexual.
E dei de cara, por assim dizer, com o peito de alguém.
Era o belo Adam.
Adam, que podia ou não ser o namorado de Helen.
O júri ainda não dera o veredicto.
Olá - ele sorriu, simpático. - Vi você, do outro lado do bar. Precisa de alguma
ajuda?
Ah, olá - disse eu, mantendo a compostura, mas sentindo- me encantada de
me encontrar com ele. Que sorte Laura ter escolhi do aquele pub, pensei.
Adam, estou satisfeitíssima de encontrar você - disse eu. - Ainda nem fiz meu
pedido. O barman me detesta.
Ele riu.
E eu ri. Esquecera inteiramente que devíamos estar nos sentindo
constrangidos um com o outro, depois da pequena cena em meu quarto, em que ele
praticamente sugeriu que fizéssemos bebês.
Adam disse:
- Vou pedir as bebidas para você.
Dei-lhe o dinheiro e lhe pedi para pegar dois copos de vinho tinto e o que ele
estava bebendo, fosse o que fosse.
Orgulhava-me de me lembrar de onde viera. Eu não me esquecera das minhas
raízes. Também fora, no passado, uma estudante pobre. Lembrei-me de ter visto
pessoas praticamente acendendo seus cigarros com notas de cinco libras e
desejando com toda força que me pagassem uma caneca de Carlsberg, só uma
caneca. Adam enfiou-se no bar. Minha face praticamente repousava em seu peito.
Podia sentir seu tênue cheiro a sabonete. Ele tinha um cheiro tão fresco e limpo.
Ironicamente, disse a mim mesma para me controlar. Estava começando a me
comportar como Blanche DuBois. Ou a louca velha alcoólatra de Crepúsculo dos
Deuses, seja qual for seu nome. Ou qualquer das incontáveis velhas bruxas que são
a atração em qualquer história sobre Beverly Hills, mulheres com o rosto muitas
vezes esticado, consumidas pela luxúria que sentem por homens muito mais novos.
Triste e patético. E eu não queria ser assim.
Naturalmente, com a rapidez de um raio, Adam conseguiu as bebidas. Os
barmen tratam com respeito sujeitos como ele. Não ligam é para mulheres como eu.
Especialmente aquelas cujos maridos lhes deram o fora.
Como todos os outros homens do mundo, o barman obviamente sabia que eu
era uma perdedora.
Adam entregou-me dois copos de vinho e depois disse:
- Aqui está seu troco.
Ah, não tenho mãos livres - eu disse, indicando os dois copos de vinho.
Não tem problema - e deslizou sua mão para dentro de um bolso lateral do
vestido que eu estava usando.
Apenas por um segundo sua mão repousou em cima do osso do meu quadril.
Eu podia sentir seu calor através do tecido do vestido.
Prendi a respiração.
Acho que ele também.
Depois, ele soltou o dinheiro, que tilintou dentro do meu bolso.
O que você esperava que eu fizesse? Que lhe desse uma bofetada por tomar
liberdades? Quero dizer, o rapaz tinha de me dar meu troco, e eu não tinha mãos
livres. Ele fez exatamente a coisa certa.
Embora eu achasse que pessoas assim tão atraentes devessem carregar
licenças. Deveriam passar por uma espécie de exame para provar que se pode
confiar em seu comportamento responsável, mesmo sendo tão lindas.
E não era apenas por ele ser bonito. O que, inegavelmente, era. Mas também
era tão grande e viril.
Ele fazia com que eu me sentisse uma frágil mulherzinha.
Era a reprise da síndrome da camisola grande demais.
Ele perguntou:
Com quem você está? E eu respondi:
Com minha amiga Laura. E ele perguntou:
Posso ficar com vocês? Eu disse:
Claro.
Por que não?, pensei. Ele é divertido e simpático, e Laura gostará dele.
Embora ele talvez fosse um pouco velho para ela.
Ele me conduziu através do pub apinhado de gente. Devo dizer que as
pessoas me tratavam com muito mais respeito tendo-o por perto.
Não creio que eu tenha tido mais de uma gota de álcool derramada em cima de
mim, em minha viagem de volta do bar, ao contrário de uma cervejaria inteira, na
viagem de ida.
Muito injusto, claro, mas assim são as coisas.
Passamos por um grupo de pessoas que pareciam conhecer Adam.
Adam, para onde você vai? - perguntou uma das moças. Loura. Boca cor-derosa
fazendo beicinho. Muito jovem. Muito bonita.
Encontrei uma velha amiga - disse-lhe ele. - Vou tomar uma bebida com ela.
Rapidamente examinei o grupo para me certificar de que Helen não estava ali.
Graças a Deus não estava.
Porém notei uma mulher mais velha entre eles, com expressão muito ansiosa,
enquanto Adam passava adiante do pequeno grupo que formavam. Será que era a
pobre apaixonada Professora Staunton?
Percebi vários olhares hostis. Todos das moças. Foi quase engraçado.
Fodam-se, pensei, bem-humorada.
Se soubessem que nada tinham a temer da minha parte.
Meu marido me jogou fora, tive vontade de contar a elas, e ele era apenas
medianamente bonito. Não era como Adam. Então, que interesse poderia ter em
mim um Adônis como Adam?
E, além disso, ainda amo meu marido.
Mesmo sendo infiel, como ele é.
Levei Adam até a mesa e o apresentei a Laura.
Ela corou.
Então, ele surtia esse efeito em todas as mulheres que conhecia, observei. E
não apenas nas mulheres da minha família.
De alguma maneira, Adam encontrou um assento desocupado.
Ele era desse tipo de sujeito.
Você é um terrível loroteiro - sorri para ele.
Por quê? - perguntou ele, arregalando os olhos azuis e parecendo todo
inocente, como um garotinho.
Disse àquela pobre garota que sou uma velha amiga - falei.
Bem, você é mesmo - disse ele. - Você é velha. Quero dizer, "mais velha do
que eu", "velha" de alguma maneira - consertou ele, apressadamente, quando notou
que meus olhos começaram a se estreitar. - E só sei disso porque perguntei a Helen
quantos anos você tem. Pensei que fosse muito mais jovem.
Limitei-me a olhá-lo.
Tenho de admitir, pensei, que ele se redimiu.
- E muito embora - continuou ele - só tenhamos nos visto uma única vez
considero-a uma amiga.
Não resta dúvida, pensei: ele realmente se redimiu.
Foi nessa etapa que Laura, mais tarde, contou-me que ela tirou sua calcinha e
levantou a saia, mas nenhum de nós dois notou. Não creio nisso nem por um
segundo.
Mas acho que entendo o que ela queria dizer.
A noite deu uma melhorada radical com a chegada de Adam.
Sem dúvida eu me sentia muito mais feliz.
Envergonha-me admitir, mas eu me sentia muito mais confortável com um
homem por perto.
Como se, de alguma forma, isso me valorizasse.
Honestamente, eu sabia como isso era triste e patético. E pretendia mudar de
atitude.
Mas era ótimo estar perto de Adam.
Além de todo o resto, ele tinha uma boa conversa.
Laura perguntou-lhe como havia me conhecido. E Adam respondeu:
- Estou na universidade com Helen.
Laura me lançou um olhar que dizia muito. Alguma coisa como: "Ah, não, um
estudante de merda. Teremos de fingir que estamos interessadas em qualquer
assunto chato que ele esteja estudando."
Mas Adam a desarmou.
Ele parece ter o hábito de fazer isso.
Tudo bem - ele sorriu para Laura. - Você não precisa me perguntar o que estou
estudando.
Ah - disse ela, um tanto constrangida. - Nesse caso, não perguntarei.
Houve uma curta pausa.
Bem - disse Laura -, na verdade, estou curiosa, agora.
Não era minha intenção - riu Adam. - Mas, já que você perguntou, estou no
primeiro ano, fazendo Inglês, Psicologia e Antropologia.
Primeiro ano? - perguntou Laura, erguendo as sobrancelhas, obviamente
aludindo ao comportamento dele, que, digamos, nada tinha de infantil.
Exatamente - disse Adam. - Sou um estudante maduro.
Pelo menos, é o que me dizem. Não me sinto nem um pouco maduro. Só
quando me comparo com os colegas de turma, eu acho.
São terríveis? - perguntei, desejando que ele dissesse que sim.
Terríveis, não - disse ele. - Apenas jovens. Acho que alguém tem de ser. Quero
dizer, todos têm 17 ou 18 anos, acabaram de sair do secundário e estão indo para a
universidade apenas para adiar suas responsabilidades por mais alguns anos. Não
que tenham grande interesse em aprender. Ou que amem os assuntos que
escolheram.
Laura e eu ficamos visivelmente envergonhadas quando ele disse isso. Laura,
Judy e eu tínhamos sido bons exemplos dos tipos preguiçosos, vadios, sem a menor
vontade de estudar, mimados e indulgentes que ele descrevia.
- Que coisa terrível para você - murmurei. Laura e eu trocamos um sorriso de
cumplicidade.
E por que você só foi para a universidade agora? - perguntei-lhe.
Bem, nunca quis ir antes. Nunca soube realmente o que que ria fazer quando
deixei a escola. Então, fiz todas as coisas erradas - disse ele, misteriosamente. - E,
recentemente, tornei a endireitar minha vida. Estava um pouco fora dos eixos -
continuou ele, ainda mais misteriosamente. - E agora estou preparado para a
universidade. Realmente a adoro.
É mesmo? - perguntei, impressionada com sua maturidade e determinação.
- É, sim - confirmou ele. Depois, continuou, algo hesitante:
Acho que foi sorte eu ter esperado. Porque agora posso real mente apreciá-la.
Acho que todos deveriam ser obrigados a sair e trabalhar por alguns anos, antes de
decidir se desejam estudar mais.
Foi isso que você fez? - perguntei-lhe. - Trabalhou?
Mais ou menos - disse ele, abruptamente, sem querer, era óbvio, dizer mais
nada.
Muito, muito estranho.
Então Adam, limpíssimo do jeito que é, tem um Passado.
Bem, era o que ele parecia dar a entender.
Aposto que está tentando mostrar-se bem misterioso e criar um mito em torno
de si mesmo, pensei, impiedosamente. É provável que tenha trabalhado como
funcionário público nos últimos seis anos.
Provavelmente no departamento menos glamouroso do mundo, como o de
licenciamento para criação de gado, se é que existe isso.
Laura fez a Adam a segunda pergunta que todos fazem aos estudantes. (A
primeira é: O que você está estudando?)
- O que você deseja fazer, quando tiver seu diploma? - perguntou-lhe.
Esperei, com a respiração presa.
Por favor, meu Deus, ah, por favor, meu Deus, não deixe que ele diga que quer
ser escritor ou jornalista, supliquei.
Seria um tremendo clichê.
Eu começava a gostar dele e a respeitá-lo, e isso poria tudo a perder.
Juntei as mãos, como em oração, e ergui os olhos em direção ao Céu.
Gostaria de fazer alguma coisa com psicologia - disse ele. (Ufa!, pensei.) -
Estou interessado na maneira como funciona a mente das pessoas. Talvez gostasse
de ser algum tipo de conselheiro. Ou talvez de trabalhar com publicidade. E usar a
psicologia dessa maneira - ele explicou. - De qualquer jeito, ainda há um longo
caminho a percorrer, até chegar lá.
E o inglês? - perguntei-lhe, nervosamente. - Não gosta dessa disciplina?
Claro - ele disse. - É minha favorita. Mas não me imagino conseguindo um
emprego através dela. A não ser que eu quisesse tentar tornar-me escritor ou
jornalista. E uma entre duas pessoas deseja isso.
Graças a Deus!, pensei.
Estou satisfeita de que ele goste de Psicologia. Não agüentaria ouvir outra
pessoa falando do seu desejo de escrever um livro.
Ficamos ali batendo papo agradavelmente. Laura foi até o bar pegar mais
bebidas.
Adam virou-se para mim e sorriu.
- Isso é ótimo - disse. - Tão bom participar de um pouquinho de conversa
inteligente.
Fiquei felicíssima.
Adam movimentou-se ligeiramente para mais perto de mim. Então, posso não
ter o corpo de uma garota de 17 anos, mas ainda posso divertir um homem, pensei,
toda convencida.
Senti-me uma mulher madura e forte, segura de si mesma e do seu lugar no
mundo. Confiante, com opiniões próprias, mas divertida, agradável. Espirituosa e
sensata.
Tudo bobagem, claro.
Menos de meia hora antes eu estava em prantos porque tinha certeza de que
todos no pub sabiam que eu era uma enjeitada.
Mas era tudo apenas uma questão de atitude.
Naquele momento, sentia-me bem.
Sentia-me bem porque Adam me fazia sentir assim.
Mas será que importava a identidade de quem fazia com que eu me sentisse
melhor?
Por acaso não era melhor do que me sentir ruim?
Adam, já vamos . Você vem com a gente? A loura bonita apareceu do lado de
Adam.
Não, Melissa, ainda não. Mas vejo você amanhã, tudo bem?
- disse o rapaz.
Obviamente, tudo bem coisa nenhuma. Melissa parecia furiosa.
Mas... pensei... Você não vem para a festa? - perguntou ela, como se não
conseguisse acreditar no que ouvia.
Não, acho que não - disse Adam, desta vez com um tom um pouco mais firme.
Ótimo! - disse Melissa, deixando claro para Adam que na verdade era
justamente o contrário de ótimo. - Aqui está sua bolsa
- e ela deixou uma imensa bolsa esportiva cair no chão, com uma pancada.
Lançou olhares venenosos para Laura e para mim.
Perplexos, mas venenosos.
Ela não conseguia entender o que fazia Adam com duas velhotas como nós,
quando podia escolher entre todas as garotas casadouras de 17 anos do lugar.
Com toda franqueza, eu também não entendia.
Melissa afastou-se, indignada, e Adam suspirou.
- Não podia agüentar - explicou, cansadamente. - Outra festa de estudantes.
Latas de Heineken quente. E não poder entrar no banheiro porque alguém está
fazendo sexo lá dentro. E, se você deixa seu casaco na cama, alguém vomita em
cima dele. As musiquinhas sensuais. Estou velho demais.
De repente, senti uma pena autêntica dele.
Achei que fora sincero, quando me disse que apreciava um pouco de conversa
inteligente.
Não devia ser fácil estar cercado por excitáveis garotas de 18 anos, soltando
risadinhas, como Helen e Melissa, quando se é muito mais adulto do que isso.
E também podia não ser fácil, percebi, ter tantas garotas apaixonadas em
torno. Isso, no caso de uma pessoa boa, como Adam parecia ser, e que não queria
magoá-las nem desgostá-las.
Algumas vezes, não que fosse o meu caso, mas ser bonito não é apenas
sombra e água fresca. A pessoa tem de usar seu poder sensata e
responsavelmente.
Durante os dez minutos seguintes, um firme fluxo de garotas aproximou-se
para se despedir de Adam. Bem, era o pretexto delas. Melissa, obviamente, dera a
notícia, e elas vinham, na verdade, para ver como Laura e eu éramos horrorosas.
Se a situação fosse invertida, eu seria uma das primeiras a criticar e
ridicularizar os sapatos, roupas, maquilagem e cabelo das infratoras.
Na verdade, Laura estava linda, com seus cachos ruivos e sua pele de
alabastro, não aparentando de jeito nenhum seus 30 anos. Também não acho que
eu estivesse tão horrorosa assim. Mas tenho certeza de que isso não impediu
ninguém de dizer que éramos caquéticas. E o que importava?
Alguém enfiou uma lata embaixo do meu nariz e a chacoalhou um pouco.
Gostaria de dar uma contribuição para as crianças necessita das? - perguntou
um homem com um ar nervoso e um sobretudo molhado.
Claro - eu disse, um pouco mais generosa do que o habitual, pelos efeitos do
álcool, e enfiei uma libra na lata.
E você? - perguntou ele, olhando para Laura.
Nem pediu a Adam para contribuir. Obviamente, reconhecia logo um estudante
pobre.
Ah, dou minhas contribuições diretamente - ela explicou ao homem.
É verdade? - perguntei, confusa. Não sabia que Laura estava contribuindo para
alguma organização de caridade voltada para crianças.
- Bem, transo regularmente com uma criança - declarou ela. - Considero isso
uma contribuição bem direta.
O homem pareceu horrorizado e saiu correndo para a mesa seguinte.
Adam explodiu em risadas.
Nunca conheci nenhuma pedófila - disse ele.
Só estou brincando. Na verdade não abuso sexualmente de crianças - disse
ela a Adam. - A criança em questão tem dezenove anos.
Terminamos nossas bebidas, vestimos nossos casacos e nos preparamos para
partir.
O pub começava a se esvaziar.
Todos nas mesas em torno de nós pareciam muito animados, exceto os
garçons, que estavam praticamente implorando às pessoas para irem embora.
Trabalhei treze noites seguidas - ouvi um garçom dizendo aos farristas de uma
mesa particularmente barulhenta - e estou estoura do. - Para lhe fazer justiça, ele
parecia mesmo exausto, mas acho que perdia tempo apelando para o lado
humanitário do pessoal.
Estou com os olhos cheios de lágrimas por sua causa - disse um rapaz meio
bêbado, com grave ironia.
Termine essa caneca, senão vou tomá-la eu mesmo - ameaçou outro garçom,
diante de outra mesa nas proximidades, obvia mente acostumado a fazer o papel de
taberneiro frajola.
Então o cliente bebeu quase a caneca inteira de uma só vez, em meio aos
comentários encorajadores de seus amigos: "grande homem", "não desperdice uma
só gota", e vários outros gritos.
Até Laura gritou:
- Engula tudo!
Passamos por aquele cliente cerca de cinco minutos depois.
Ele estava bem em frente ao pub.
Alguns de seus amigos bêbados estavam olhando enquanto ele vomitava
copiosamente.
Quando chegamos à porta do pub, descobrimos que a chuva começara de
novo.
- Meu carro está estacionado do outro lado da rua - disse Laura. - Vou correr.
Abraçamo-nos todos.
Estarei lá no sábado para ver Kate - ela disse. - Adorei conhecer você, Adam. -
E lá se foi correndo para dentro da noite chuvosa, quase esbarrando no homem que
vomitava.
Desculpe - gritou-lhe, com sua voz flutuando de volta até nós no úmido ar
noturno.
Adam e eu ficamos em pé à porta por um ou dois minutos. Não tinha certeza
do que dizer-lhe, e ele não disse absolutamente nada.
- Quer uma carona até sua casa? - perguntei. Sentia-me um pouco
constrangida de convidá-lo.
Como se eu fosse a rica mulher mais velha desesperada por amor e sexo
comprando o belo rapaz pobre.
- Seria realmente ótimo - ele disse. - Acho que perdi o último ônibus.
Deu-me um belo sorriso.
Relaxei.
Estava lhe fazendo um favor. Não tentando aproveitar-me dele.
Caminhamos rapidamente pelas ruas molhadas, até chegarmos ao
estacionamento.
E, acreditem em mim, não houve nada sequer remotamente romântico na
caminhada sob a chuva. Profundo aborrecimento, isso sim. Minhas botas são de
camurça. Terei de passar o resto da minha vida em pé, segurando-as em cima do
vapor de uma chaleira para que recuperem a sua antiga beleza.
Entramos no carro. Ele atirou sua bolsa encharcada no assento de trás.
Sentou-se no assento do carona e, juro por Deus, praticamente encheu a frente do
carro inteira.
Lá fomos nós.
Ele começou a mexer na estação de rádio.
- Ah, não faça isso! - disse-lhe eu. - Papai me mataria. Contei-lhe a conversa
que tivera com papai, antes de sair, e ele riu com gosto.
- Você é uma boa motorista - ele disse, após alguns instantes.
Naturalmente, logo que ele disse isso fiquei toda atrapalhada, afoguei o motor
e depois quase bati num poste. Ele me deu o endereço do seu apartamento, em
Rathmines, e seguimos pela chuva.
Nenhum de nós dois falava.
O único ruído era o zunido das rodas do carro na rua e o guincho dos
limpadores de pára-brisa.
Mas era um silêncio agradável.
Parei na frente de sua casa e sorri para ele, em despedida. Tinha sido uma
noite maravilhosa.
Obrigado pela carona - disse ele.
Ah, de nada - eu sorri.
Ah, hum... você gostaria, quero dizer... posso oferecer-lhe uma xícara de chá? -
perguntou ele, desajeitadamente.
Quando... quer dizer... agora? - perguntei, com o mesmo ar desajeitado.
Não, estava só pensando por volta de dezembro próximo - ele sorriu para mim.
Minha recusa foi automática.
Estava em minha boca antes mesmo de eu perceber.
Eu tinha várias desculpas. Era tarde. Eu estava encharcada. Era a primeira
noite em que eu deixava Kate com outra pessoa. Helen me esfaquearia.
- Claro - eu disse, surpreendendo totalmente a mim mesma. - Por que não?
Estacionei o carro e lá fomos nós.
Eu estava morta de medo. E meu medo era bem fundado. Eu estivera em
apartamentos de estudantes um número suficiente de vezes para esperar o pior.
Todos os tipos de arranjos estranhos. Você sabe, seis ou sete pessoas
dormindo na sala da frente, um casal de pessoas morando na cozinha, tendo de
atravessar um quarto para chegar ao banheiro e tendo de atravessar o banheiro
para chegar à sala de estar.
Quartos divididos por um tapete xadrez pendurado no teto, para dar um falso
aspecto de privacidade. Armários no vestíbulo. Cômodas na cozinha. Caçarolas e
baldes no banheiro. A geladeira no patamar da escada. A mesinha de centro da sala
de estar consistindo de quatro engradados de leite azuis e uma prancha de
compensado.
Você sabe, esse tipo de coisa.
Uma cozinha parecendo ter sido atingida por um raio, com tudo precisando
começar outra vez da estaca zero, cortinas tortas, persianas quebradas pendendo
das janelas, latas esmagadas de cerveja debaixo dos nossos pés, a cisterna sendo
usada para se fazer cerveja doméstica.
Ah, sim, acredite, eu já tivera uma cota suficiente em minha vida dos
apartamentos de estudantes deste mundo.
Então, fiquei imensamente aliviada quando Adam abriu a porta da frente e me
introduziu num apartamento que parecia normal, eu diria até extremamente
agradável.
- Venha para a cozinha - ele disse, tirando seu paletó molhado. Entramos na
cozinha e Adam colocou uma chaleira em cima de um aquecedor. Não um desses
horrorosos aquecedores cor de laranja de duas barras, que parecem endêmicos na
terra dos quartos alugados, mas um aquecedor normal a gás, como um que
tínhamos no apartamento em Londres, acredite. A chaleira era de verdade e não
uma lata de estanho em cima de um aro de gás. Fiquei desconfiada.
- As outras pessoas que moram aqui - perguntei a ele - são também
estudantes?
- Não - ele respondeu. - Ambos trabalham. Bem, isso explicava muita coisa.
Você está encharcada - disse ele, atencioso. - Gostaria que eu pegasse um
casaco para você?
Não, estou ótima - disse eu, corajosamente. - Meu casaco me protegeu do pior
da chuva.
Ele sorriu.
- Bem, vou pegar uma toalha para você secar seu cabelo - disse ele e saiu um
momento.
Voltou quase imediatamente, com uma grande toalha azul na mão, e fico
satisfeita de tranqüilizar vocês, neste ponto, dizendo-lhes que não, ele não secou
meu cabelo para mim.
O que pensam que isto é? Uma história de Mills e Boon, a dupla Água com
Açúcar?
Sinto muito, mas se esse é o tipo de roteiro no qual estão interessados, então
sugiro que leiam um livro diferente.
Não, ele me entregou a toalha e dei em meu cabelo alguns esfregões não
muito fortes. Não queria terminar com ele todo arrepiado e secando em ângulos
engraçados.
Com toda franqueza, preferia pegar pneumonia.
Tirei minhas botas e coloquei-as na frente do aquecedor. Adam me deu uma
xícara de chá e nos sentamos à mesa, na agradável cozinha aquecida. Ele até
encontrou um pacote de biscoitos.
- São de Jenny - explicou. - Direi a ela, de manhã, que tive uma visita especial
na noite anterior. Ela entenderá.
Ele fazia parecer tão fácil ser encantador. Nunca dava a impressão de ser uma
coisa interesseira ou insincera.
Então, quanto tempo faz que você teve Kate? - perguntou ele, colocando o
açúcar à minha frente.
Faz mais de um mês - disse eu.
Ouça, espero que você não se incomode - disse ele, desajeitadamente -, mas
Helen me contou a situação entre você e seu marido.
E...? - perguntei, preocupada.
Bem, nada - apressou-se a dizer. - Quero dizer, sei que não é da minha conta
nem nada, mas tenho certeza de que não é fácil para você. Passei, eu próprio, por
uma coisa um pouco parecida, e sei como é terrível.
É mesmo? - perguntei, intrigada.
Bem, sim - ele disse. - Mas não estou tentando me meter em sua vida nem
nada parecido.
Não se importe com isso, pensava eu, conte-me! Se você me mostrar sua vida,
eu lhe mostro a minha.
E - continuou ele - sei que você tem uma porção de amigos em Dublin, mas
pode conversar a respeito comigo, se algum dia sentir vontade.
Você não está me usando para algum tipo de experiência em seu curso de
psicologia? - perguntei, desconfiada.
Absolutamente - ele riu. - É apenas porque gostei de você, desde o momento
em que a vi. E gosto mais de você depois desta noite. E gostaria que fôssemos
amigos.
Por quê? - perguntei, ainda mais desconfiada.
Bem, eu tinha todo o direito de perguntar, não é mesmo? Quero dizer, não
entendia aquilo. Eu era perfeitamente comum. Por que Adam decidira que eu era
especial e que valia a pena ser meu amigo?
Não estava fazendo pouco de mim mesma. Eu tinha uma porção de boas
qualidades, sabia disso. Não estava exatamente sendo a Rainha da
Autodepreciação. Mas uma porção de pessoas têm boas qualidades. Não havia
nada particularmente incomum em mim. Adam, por outro lado, devia ter conhecido
milhões de mulheres, engraçadas, bonitas, inteligentes, divertidas, ricas, perdidas no
mundo, bonitinhas, sensuais, interessantes. Por que me distinguiu?
- Por que você é legal - ele disse.
Legal! Pergunto a você: quem desejaria ser escolhida por um belo homem
como Adam por ser legal?
- E você é muito engraçada. E inteligente. E interessante - ele continuou.
Assim fazia mais sentido, pensei.
Alguma chance de sensual ou bonita?
Eu me conformaria até com atraente.
Mas, nada feito.
Sensual, bonita ou atraente não vieram à baila.
Mas deixa pra lá, droga. Era agradável conversar com ele. Eu estava me
divertindo.
Não me sentia atraída por ele.
Embora provavelmente tivesse me sentido, se as circunstâncias fossem
diferentes.
Ele não se sentia atraído por mim.
Éramos apenas dois adultos que, por acaso, apreciávamos a companhia um do
outro.
Eu era uma mulher casada.
Na segunda-feira, telefonaria para James.
Adam estava comprometido. Se não com minha irmã Helen, então com alguma
outra mulher, eu não duvidava.
Então, não havia nada de mais.
- O que você vai fazer amanhã? - ele perguntou.
Bem, não sei - disse-lhe eu. - Não estabeleci nenhuma rotina, desde que voltei
de Londres. Acho que apenas tomo conta de Kate.
Bem, foi por isso que perguntei há quanto tempo você teve Kate. Estava
imaginando se você gostaria de ir à academia comigo.
EU?! - exclamei, horrorizada. - Por quê?
Não porque ache que você precisa - disse ele, ansioso. - mas porque acho que
você poderia gostar.
Eu, com meu corpo despencando, fora de forma, fazer ginástica com Adônis.
Será que ele estava brincando?
Mas, por outro lado, meu corpo continuaria despencado e fora de forma, se eu
não tomasse alguma providência.
E eu costumava e gostava de ir à academia, antes de ter Kate.
Talvez fosse a melhor sugestão que eu recebera em muito tempo.
Bem... - disse eu, cautelosa. - Estou muito fora de forma.
Você vai ter de começar em algum momento - ele foi logo dizendo.
E quem tomará conta de Kate?
Será que sua mãe não pode fazer isso? Seria só por algumas horas.
Talvez - disse eu, inconvicta. Tudo aquilo estava indo um pouco depressa
demais para mim.
Que diabo, só tinha ido tomar uma bebida com Laura. Agora, comprometia-me
com um programa para entrar em forma, com uma pessoa que acabara de conhecer
na véspera.
E, aliás, na véspera à noite.
- Ouça, vamos amanhã. Aposto que você vai gostar. O que você tem a perder?
- perguntou ele.
Pensei a respeito.
O que eu tinha a perder?
Além da minha vida, se Helen descobrisse?
- O.K., eu vou.
Combinei encontrar-me com ele no dia seguinte, na cidade, às três horas,
embora eu mal conseguisse acreditar que fizera esse trato. Terminei meu chá. Ele
me acompanhou até meu carro.
Ele fechou a porta do meu carro para mim e ficou em pé no portão - na chuva,
devo acrescentar - enquanto eu me afastava dirigindo.
Comecei a me sentir culpada antes mesmo de chegar ao fim da rua.
Culpada por negligenciar Kate.
Culpada por me relacionar com o namorado da minha irmã mais nova, por mais
inocente que aquilo fosse.
Culpada com a idéia de perder tempo na ginástica, quando deveria estar
conversando com um advogado e resolvendo o problema das minhas finanças e
tudo mais.
Logo que cheguei em casa, subi correndo a escada para ver Kate. Foi um
alívio imenso ver que ela estava viva e bem. Sentia-me tão culpada, que estava
convencida de que algo de terrível tinha de acontecer.
Abracei-a com tanta força que pensei que a sufocaria.
- Senti falta de você, querida - disse-lhe, enquanto ela lutava para respirar. - Na
segunda-feira vou telefonar para o papai e tentarei resolver as coisas para nós. Vou
conseguir. Tudo ficará ótimo, prometo.
Eu tivera uma noite tão maravilhosa.
Só não conseguia entender por que me sentia tão deprimida.